segunda-feira, 21 de outubro de 2013

E se...?


E se os sonhos são desejos 
contidos? 
E se os mitos são sonhos 
que voam? 
 E se as asas são pra cruzar 
os abismos? 
E se a travessia não é mais 
que uma soma?

terça-feira, 30 de abril de 2013

Já fui mais alegre*


Já fui mais alegre. Hoje, sorrio menos. A maioria das vezes sozinho, lembrando do passado. Sorrir faz bem, dizem. Assim como ser leve. Coisa que foge um pouco ao meu jeito. Sou crítico e perfeccionista, e me cobro muito por isso. Organizado ao extremo – no plano externo. Porque aqui dentro é uma bagunça. Tanto de sentimentos quanto de pensamentos. Amo esportes. Vibro e me emociono com eles. Em Copa do Mundo, Olimpíada e Pan-Americano a empolgação é maximizada.

Tenho medo da morte. Sou cético e isso me machuca. Não acredito em nada, só no nada. E procuro sentido, para não fazer da minha vida um vazio. Mais que da morte, tenho medo do vazio da vida. Quero fazer tudo ao mesmo tempo e minha ansiedade e impaciência atuam contra mim. E me ajudam a ser desajeitado nas relações sociais. Sou reservado e ruim com as palavras faladas. Escondo isso. Me considero bom nas palavras escritas. Só que em vez de abrir, acaba por me fechar portas.

Adoro pipoca e chá mate gelado. Tem pouca coisa que odeio comer. Experimento de tudo, para ter condição de dizer se aprovo ou não. E mesmo rodeado de pessoas, às vezes me sinto sozinho e desamparado. Reflexo da atualidade. Meus medos giram em torno da palavra errar – outro reflexo da atualidade. Já disse: sou crítico e perfec-cionista. Odeio ser chamado a atenção, fazer papel de otário, magoar as pessoas. Há situações em que minto pelo bem dos outros. Devia pensar mais em mim. Mas me acho egoísta por pensar assim. Devia mesmo pensar mais em mim.

Sou fanático por futebol. Vejo, nesse jogo de regras simples, muitas explicações para nossos dramas e tragédias reais. Pena que tudo se tornou mais negócio e menos brincadeira. Quando criança, tinha temor que o futebol acabasse, que as pessoas parassem de jogá-lo – ou que os homens fossem trocados por robôs. Também não gostava de pizza e de queijo. Sou um sujeito muito mais fechado hoje que aos 8 anos de idade. Acho que meus problemas não devem aborrecer os outros. Mas absorvo os problemas dos outros. Ouço música para me acalmar e para me agitar. Tomo banho à meia-luz quando quero clarear as idéias. E dá certo. Demoro a pegar no sono. Acordo cedo e disposto. Vejo pouca TV – não tenho paciência.

Acho que nasci na época errada, e se tivesse em outra época, acharia a mesma coisa. Queria ser jogador de futebol e sou jornalista. Quando faço esporte, esqueço do mundo. Tenho vontade de sumir. Mas quem não tem? E também tenho vontade de ter filhos e criá-los como o melhor pai possível. Receio falhar, é verdade. Bebo para me ajudar a ser espontâneo. Também não acho isso legal. Dirigir me tranqüiliza, assim como lavar louça e caminhar. Gosto do mar. Sou desprendido de bens materiais e choro com filmes e ao ver outra pessoa chorar.

Não entendo a intolerância e o preconceito e acho que as pessoas perdem muito tempo com preocupações mesquinhas. Também não entendo como existe tanta gente com a mente fechada. Procuro sempre compreender o outro lado. E é um exercício difícil, mas necessário. Adoro canjica e isso lembra a minha madrinha. Cural e biscoito de queijo também. Amo meus pais e minha irmã, embora fale isso tão pouco a eles – e deveria falar mais. Às vezes fico confuso com a dimensão do meu pensamento, e nem consigo explicá-lo. Apenas sei, sem saber o que sei e como sei. É doloroso conviver com ele. Machuca, acelera os batimentos e chega a pirar.

Tenho saudades de várias coisas – inclusive do futuro. Acho que sou velho e vivi pouco. Me cobro mais sabedoria. Me cobro menos entendimento. Gosto do número 13 e de ler Fernando Pessoa e Nelson Rodrigues. De comer com colher e beber em caneca. Queria saber o motivo de estarmos aqui. Parece meio vago. Certa vez, disseram: o que importa é a presença. As histórias também. Quando vejo uma criança, sorrio. Fui aprendendo a ser calmo e natural com o tempo. No entanto, já fui mais alegre.

* Texto de 18/11/2008.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Nem São Jorge salva



Eu tinha o Sant Jordi para relatar. Eu tinha de falar de rosas e de livros, das ruas decoradas de Barcelona, apinhadas de gente. Eu tinha de falar de como o sol resolveu despontar, finalmente, depois de um inverno mais alargado que o esperado. Mas vou falar de futebol, que há muito tempo desapareceu do meu itinerário literário.

Eu quero falar de futebol, acima de tudo, porque os alemães Bayern Münich e Borussia Dortmund merecem essa atenção. Acho que foi o Paulo Vinícius Coelho que disse que o Bayern, para ser a melhor equipe do mundo, ainda precisa ganhar a Champions League e manter o alto nível por dois, três anos. Vencer o Barça, com total domínio, provocou um frenesi em gregos e troianos. Mas o 4-0 triunfal não apaga a história recente do clube catalão, não define o fim de uma “Era” – como muitos quiseram sentenciar – nem faz do time bávaro o melhor do mundo assim, instantaneamente.

Se assim fosse, o Borussia podia reclamar o título de segundo melhor escrete atual ao superar o Real Madrid. Mas os aurinegros não desfrutam desta posição. Podem até cavalgar senhores de si em direção ao topo, mas ainda falta chão – a única verdade posta e indefectível é de que se trata da equipe mais bem posicionada taticamente desta temporada e os louros da fama devem ser divididos com o treinador Jürgen Klopp.

Enquanto isso, nossa estimada seleção canarinho tropeça na “pelota” e dá uma bicuda na autoestima do brasileiro. A Família Scolari é uma tragicomédia pastelão, encabeçada por Neymar, o menino prodígio supervalorizado por tudo e todos. E pensar que um dia, há não muito tempo, chegaram a querer compará-lo com Messi e Cristiano Ronaldo. O santista está muito aquém do argentino e do português, e ouso dizer: atrás de pelo menos uns dez atacantes da contemporaneidade: de Cavani a Van Persie, de Agüero a Ribéry.

Quase a um ano da Copa do Mundo, já sabemos que brigamos para fazer o menos feio possível. Nunca nos sentimos tão desvalorizados e sem esperança, ainda mais com tantas falcatruas e maracutaias que circunda o Circo do Futebol Brasileiro e o Comitê do Mundial. Romário é nosso avançado solitário na batalha contra os cartolas-ditadores; enquanto isso, caminhamos rumo ao fiasco dentro e fora dos gramados. Uma conta que será paga pelo cidadão comum: mais pobre e mais triste. E aqui na Europa ainda ousam noticiar um crescimento econômico, quando o crescimento mental parece uma utopia.

E faltando ao onze contra onze, nem vale a pena pensar que ser brasileiro já foi orgulho de saber tratar bem a redonda. Nem São Jorge salva.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Adultonia



Obriga-se a definir
Define-se para enquadrar
Enquadra-se, mas sem seguir
O sonho já sem lugar

terça-feira, 2 de abril de 2013

Carta aberta ao risco - Parte III



Outro dia pensava nas voltas que a minha trajetória deu para que eu chegasse até aqui. E como, afinal, serviu para definir e continuar definindo o meu caráter. As pessoas têm o hábito de afirmarem, convictas, que não repetiriam determinadas situações de tristeza ou desilusões e que, se pudessem voltar ao passado, fariam diferente. Eu não. Cada passo em falso me conduziu a ser o que sou hoje – e os novos erros me conduzirão a muitas outras coisas belas e empolgantes.

Se me dissessem há três, cinco, dez anos que em 2013 estaria em Barcelona, a desconfiança se interporia a vontade. E, então, não há outro lugar que consigo me ver que não seja aqui. Só não pense que tudo, antes, foi maravilhoso. A necessidade brotou de horas de horas e horas de melancolia profunda, de momentos de agonia solitária, de lágrimas em silêncio. Do caos, nasceu a estrela. E a sua estrela espera aí fora, ao relento. É preciso sair para vê-la, perambular pelo jardim do mundo, percorrer os becos escuros e ruas desertas e deparar-se com inúmeras outras estrelas para saber qual é a sua. Talvez esteja onde você sempre esteve. Talvez esteja num lugar novo, a ser descoberto.

A verdade é que merece a aventura, merece cada segundo do risco. A vida sem risco é respirar por respirar. Por receio de espirrar, você não vai querer sentir o aroma de uma flor? Viver é mais que contemplar a tela, mais que contornar os traços já desenhados. Arrisque-se. Pinte a sua própria história de múltiplas cores. Garanto que você se reconhecerá uma artista, e tanto, do cotidiano.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Carta aberta ao risco - Parte II



Sempre tive a consciência de que a vida é uma só. E se na infância esse pensamento me perturbava, se o medo da morte era presente e constante, aos poucos a angústia foi se moldando em outra: a de não viver. Aos 20 e pouco me sentia de uma inexperiência inquietante, você sabe bem. Cercado por um mundinho de fantasias, de convicções e ambições que eu nunca me enquadrei definitivamente. E, ao mesmo tempo, um velho, um ancião sem histórias, sem substância, sem recheio. Agora, com quase 30, nunca me senti tão jovem, tão revigorado, tão certo das escolhas e repleto de contos e encantos.

Você comentou comigo, numa conversa recente, que tudo no seu percurso foi conseguido com muita luta: o trabalho ideal, o seu refúgio, as economias. Muita luta, muito suor e pouco risco real. Uma receita de sucesso que às vezes nos distrai durante o caminho, e que depois não nos preenche totalmente... pelo contrário, nos deixa com uma sensação de “E agora?”. Foi exatamente isso que você disse que sentia.

E agora? Arrisca, oras! É o melhor momento de todos os ótimos momentos que apareceram para você! Talvez tudo o que tenha a perder – e ainda assim talvez a palavra nem seja “perder” – é esse porto seguro que não lhe garante o mais importante: tranquilidade. Seguro, mas desconfortável. Seguro, mas ainda incômodo. Seguro, mas sem alma. Aja! Faça acontecer, enquanto o tempo e os recursos estão a favor. E se o risco não valer a pena, e daí?... Tentar é um dos verbos mais bonitos do nosso idioma.

(continua...)

terça-feira, 26 de março de 2013

Carta aberta ao risco - Parte I



Você não é muito de frequentar este espaço, eu sei. Talvez tenha entrado duas ou três vezes por cortesia. Sei que não faz o seu estilo. Mas, ainda assim, resolvi que tinha de escrever-lhe uma carta aberta, esta carta aberta, que expõe muito do que você já está cansada de saber – pois ultimamente não faltam e-mails, mensagens de Whatsapp e conversas por telefone sobre o tópico.

Vivemos a era das redes sociais que escancaram de maneira consentida a nossa intimidade. Uma carta aberta parece sem propósito. Mas não é. Escrevemos muito e, ainda assim, não escrevemos nada. É uma sensação que sempre divide a mesa comigo. Sentado diante da tela em branco do Toshiba, a única ideia em que este texto se apoia é um verbo reflexivo: arriscar-se.

Você experimentou poucos riscos nesta vida. Ou, desculpe a sinceridade, você não experimentou nenhum. Longe de mim dizer, com isso, que a existência tem de estar marcada pela adrenalina incessante, pelo extremismo do carpe diem, ser uma corda bamba sobre o abismo... Mas é preciso arriscar-se, em algum momento da nossa jornada, a situação nos demanda isso. 

(continua...)

quarta-feira, 20 de março de 2013

Turvas recordações



Guardo as tuas curvas
na minha turva memória
trajetórias sinuosas
desde as tuas pernas
permeando até as costas
coxa, bunda, covinhas
espinha acima, eis a nuca
que nunca é demais beijar
desejo a soma
e uma boca de aroma
faz latir o coração
a mão que passeia
passa, serpenteia
nos seios de bicos duros
e num enduro na cama
trama de corpos nus
os azuis da tua íris
um arco-íris de sensações
sem sair das tuas curvas
turvas recordações

segunda-feira, 18 de março de 2013

O meio-amor - Parte II



– O meu medo é o meio-amor, é de quem vive refém do não querer terminar sozinho e confunde companhia, carinho e admiração com amor.
– Se isso não é amor, eu não sei qual é o teu conceito então.
– Isso tudo é amizade. Amor é amizade com algo mais. Com sexo.
– Mas, afinal, o sexo não brota da cumplicidade, do convívio?
– O sexo é mais que isso: é carne, é olho, é boca, mas também é aroma, é toque, é ausência, é alma, é...
– Com tantas exigências práticas e lúdicas não duvido que seja tão difícil encontrar uma pessoa perfeita.
– E quem disse que a gente tem de buscar uma pessoa para suprir essas exigências? A gente tem de buscar o sentimento dentro de nós, e só depois de tê-lo bem dentro de nós, metê-lo dentro de uma pessoa, qualquer pessoa.
– Não entendo.
– Esquece o “quem”. Estamos falando de “como”. O meio-amor é o sentimento perdido, imaturo, à procura de uma casa para instalar-se.
– Amadurecer o amor pode durar uma vida...
– E, ainda assim, no fim dela, não o teremos definitivamente preparado.
– Então?
– Por isso o compartilhamos. Compartilhar é a prova final do amor.
– Amor de laboratório? E dizias para evitar tecnicismos, preservar a loucura...
– Não, amor de fato. E não meio-amor. De meio-amor o mundo está cheio, simplesmente porque decidimos aderir a trajetória convencional: se formar, arrumar um trabalho, comprar um carro, adquirir a casa própria, casar, ser promovido, ter filhos... O meio-amor é só mais um dos reflexos da nossa meia-existência, assim como a nossa meia-satisfação, o meio-desejo, a meia-felicidade.

quarta-feira, 13 de março de 2013

O meio-amor - Parte I



– Mais que a falta de amor, o que me aflige é o meio-amor.
– Meio-amor? E como seria isso?
– Este amor mais ou menos, que não preenche nem esvazia, este comodismo sem altos e baixos, um amor tão corriqueiro como ovos mexidos ou sapatos desamarrados.
– Dizem que o novo amor nada tem a ver com o sentimento, e sim com afinidades.
– O dia que o amor perder a capacidade de amar e sucumbir aos tecnicismos da vida moderna, será o nosso fim... Amor sem uma ponta de inconsequência não perdura.
– Acho que é um pouco radical da tua parte. Conheço casais que vivem uma relação equilibrada e nem por isso há escassez de amor. O teu medo real qual é?
– E eu conheço casais que passam a impressão de uma relação equilibrada e que, na verdade, vivem uma grande mentira. Já dizia Nelson Rodrigues: “Não ama seu marido? Pois ame alguém, e já. Não perca tempo, minha senhora!”.
– O amor não tem de ser insano para ser amor. Pode ser sadio.
– Mas tem de ser amor.
– E isso não é óbvio?
– Tão óbvio que às vezes esquecemos.
– Perguntei do teu medo e você não respondeu...