sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Meninas feias, mulheres lindas


Sempre que mostravam a ele uma miúda bonita, era taxativo:

― Isto é fogo de palha, pá! A beleza tem prazo de validade na criança. Ela não será assim quando crescer. Com 6, 7, 8 anos a menina pode ser uma princesa, pode ser uma Brooke Shields de chuquinhas, mas o que importa mesmo é a partir dos 18, 19, 20 anos.

De tão estóico, irritava. Mas tinha lá suas razões. Das amigas de infância, as mais feias tornaram-se as mais cobiçadas pelos barbados. Dava-se o oposto com as bonitas. Lívia, prima de Pedro, era maravilhosa aos 13, de arrancar suspiros e imaginações férteis dos garotos de sua idade. Entre eles, ele.

Reencontrou-a 15 anos depois. Lívia transmutara-se numa mulher normal. Pior que normal – ordinária. Seu charme sucumbira ao tempo. O auge da pequena foi antes da primeira menstruação.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Tanga, boxer ou samba-canção?


A noite estava animada. Umas cervejas aqui, uns shots ali... como de costume. Com os amigos por perto e álcool a mais no sangue, ela sentiu-se pronta para a confissão:

― Sabe o que eu gosto? O que eu acho turn on? Realmente sexy? Homens de samba-canção.

Nunca, na face da Terra, pensou que uma mulher com menos de 40 pudesse ter essa predileção. Nem ele nem a unanimidade do grupo. Estavam todos espantados. Só por curiosidade, passou a perguntar a todas:

― Escuta lá, tu preferes homem de tanga, boxer ou samba-canção?

Até hoje nunca ouviu resposta igual à daquela noite.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Jeito pra descomplicar


Ela tinha desatado o nó do peito dele. Vinha com um sorriso maroto para dizer que gostava de estar junto, queria descomplicar o presente. Encostava a orelha em seu ombro, passeava a ponta dos dedos no seu tórax nu, mordia de leve o lábio inferior.

E ele, de olhos vendados, subia a rua para encontrá-la. Passava nos mercados e cafés, no tapete verde, no salão de beleza, na praça redonda, no caminho de terra, nos edifícios iguais. Beijava-a longamente no adeus, em frente ao caixa eletrônico, e andavam de dedos entrelaçadas, misturavam o destino sem planos.

Ela tinha desatado o nó do peito dele. Quando sumiu, levou junto o laço para ele amar de novo alguém.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Solteiro aos 25


O término recente do namoro tinha o deixado pra baixo. Andava taciturno, cuspindo impropérios à revelia. Certa tarde de verão, encontrou um dos melhores amigos no centro da cidade.

― Vais superar este luto, rapaz. Não é por aí... Até porque isto foi o melhor que poderia te acontecer aos 25! Aos 25 tu já tens teu carro, tua casa, emprego fixo, teu próprio dinheiro. É a melhor fase para estar solteiro. A melhor fase!

Ele silenciou no pensamento. O amigo continuou o discurso efusivo, em meio ao vaivém de pessoas.

― Digo mais: namoraste na altura certa. Naquela época em que a gente não consegue comer ninguém, sabe? As mais novas só querem beijinhos e as mais velhas nem olham pra ti. Nada melhor que uma namorada para promover a segurança sexual. Mas agora vais desvendar o mundo. Aproveita! Aproveita!

Despediu-se combinando um novo encontro. Entrou no primeiro bar, pediu uma cerveja bem gelada e sentou-se à mesa virada pro passeio.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Zapeando


― Por que você não para com este controle remoto? Assiste alguma coisa, oras! Nunca vi! ― ela se irritava constantemente com a atitude dele diante da TV.

― Não sabe que todo homem é assim, Mari? Nenhum homem consegue ficar no mesmo canal sem antes ver o que está rolando nos demais. Duas, três vezes. A não ser que seja futebol ou sacanagem...

― É, vocês são a mesma coisa com as mulheres.

― O quê?! Como assim?!

― Nunca se contentam com a primeira. Nem com a segunda. Estão sempre inquietos para ver a próxima, a próxima, a próxima. Quanto mais opções, mais voltas dão até encontrar algo que prenda a atenção por 30, 40 minutos. Depois recomeça a caça. A mulher não: é fiel a um programa e capaz de ficar a tarde toda na companhia dele, sem mudar.

― Não fala assim, pô!

― Ah, vai dizer que é mentira? Vai dizer que não é isso que acontece?

― Acontecer, acontece. Mas agora fiquei com pena dos caras que não têm TV a cabo.

domingo, 26 de dezembro de 2010

A tatuagem ou o filho?


Vinham no comboio de volta da praia. Um de frente pro outro, num calor férreo. Ela tinha qualquer coisa de mistério com a franja caída sobre o olho direito.

― Que tattoo bacana você tem no pé. O que tá escrito? ― ele arriscou.

― David Amorim. O nome do meu filho ― ela respondeu, meio duvidosa.

Fixe... Doeu para fazer? ― manteve a conversa, simpático, apesar de engolir a resposta a seco.

― O quê? A tatuagem ou o filho? ― ela sorriu com o canto da boca.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Não há coisa mais divina...


Os italianos têm um adágio provocador para um tema ancestral – e que tornou-se, de certa forma, tabu. Na boa língua de Dante, é assim: non c'è cosa più divina, che trombare la cugina. Os pudicos, por favor, ausentem-se do blog, porque a tradução vai por este caminho: “não há coisa mais divina que foder a própria prima”.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A gente tem tudo na mão


― A gente tem tudo na mão ― ela disse com a voz suave.

Assim que a frase bateu duas vezes na cabeça dele – ou foi ela que a repetiu? – todas as inquietações abrandaram. As múltiplas dúvidas silenciaram e ele sentiu afrouxar o aperto no peito.

Gostou de escutar aquilo. Ainda mais como foi dito – com uma honestidade inviolável. Estava subentendido que ela o amava. Estava subentendido que ela guardaria com carinho as histórias. Estava subentendido que nada, nem o tempo, nem a memória, os privariam da eternidade.

Claro e límpido, como a água, apenas o fim.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Os 10 cafés e os 5 encontros


As duas teorias são simples e básicas.

Em Portugal, para engatar uma rapariga são necessários 10 cafés. Ou melhor: 10 saídas para tomar café. Você a conhece e, a partir da afinidade mútua, desenvolve-se todo o processo de reforçar os vínculos nos encontros. Passados os 10 cafés – com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos –, a probabilidade de rematar a miúda é de 93,54%.

No Brasil, para ficar com uma garota basta uma noite. É normal que aconteça o beijo e uns amassos; anormal é que passe daí para o terceiro, quarto, sétimo estágio (usem a imaginação, oras!). São necessários, então, cinco encontros. Apenas no quinto – com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos – é que a probabilidade de arrematar a pequena ronda 98,13%.

Obs.: Visto que as mulheres não são simples, não são básicas e nem podem ser medidas por índices, minhas possibilidades com alguma leitora deste blog acabam de despencar 69% após este post.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Pão e carne


“Onde se ganha o pão não se come a carne”. O conselho é sábio, mas ele deu de ombros. Podia ser de autoria do Papa, da Madre Teresa, do Gandhi. Não estava nem aí. Já vinha de olho na nova secretária há um bom tempo e aproveitaria a influência do seu cargo para impressionar a moça.

Na primeira chance que teve, ofereceu chocolates. Disse que tinha ganhado de um cliente, que sabia que ela se deliciaria mais com os doces que ele. Depois foram pequenos e discretos mimos: um pingente de prata, umas flores do campo, um perfume em saldo, um almoço, um jantar, uma entrada pro cinema.

Ele sempre se segurou. Controlou os impulsos com aquela moça de pernas compridas e seios firmes. Ela já não escondia a atração, confundia-se no ofício diante dos sinais de interesse. No último dia de serviço, o chefe convocou todos os empregados à sala de reuniões: mesa com salgados, bolo de coco e champanhe. No discurso de praxe, ele puxou-a pelas mãos.

Pegaram o elevador. Ofegantes. Ele arrancou-a a blusa, estourou dois botões, levantou a saia preta e baixou de uma só vez a calcinha de algodão. Beijou-a no pescoço pra senti-la estremecer. Enquanto o chefe anunciava cortes no pão, esbaldava-se com a carne no terraço da empresa.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

"Você também soube"


― Pode continuar achando que isso é sexo-sexo, pode continuar com seu prazer fictício, seus orgasmos mais ou menos. Se a gente estivesse juntos, você saberia o que é uma ligação de verdade, de pele e alma. O que é ficar excitado só por conta do cheiro do outro, o que é sentir tesão só de pensar, só de estar perto.

― Você diz isso porque é brasileiro e fica se achando muito bom por causa dessa fama que vocês carregam...

― Eu digo isso porque desde o primeiro momento em que te vi soube que a gente tinha sido feito um pro outro. E você também soube...

Afastou-se para colocar a bola 8 na caçapa do canto.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Não é quem, é quando


É frase de um filme. Uma comédia romântica dessas de Hollywood. “Não é quem, é quando”. No fim das contas, casamos com a pessoa disponível, não propriamente o amor da nossa história.

Raros os felizardos que conciliam uma coisa e outra. Raríssimos. Vejamos: você já se apaixonou por aquela garota que se mudou com o namorado para Papua Nova Guiné? Já ficou caidinha por um rapaz que saiu recentemente de um noivado e não quer compromisso?

O Legião Urbana tem uma letra melancólica que diz o seguinte: “Foi só o tempo que errou”. Talvez seja isso. Daria certo, mas os tempos erraram, desencontraram-se. Um quer grude, outro liberdade. Um foca a profissão, outro o coração. Um entrega-se, outro protege-se. Um fica, outro parte.

Pode até existir essa coisa de alma gêmea, de uma pessoa para cada indivíduo.

― A minha provavelmente viva na Indonésia, já é casada e tem seis filhos ― pensava ele.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O tanto que é bom


Virou pro amigo (gay assumido há dois ou três anos) e, sem entender como era possível o sujeito ignorar uma boceta, questionou curioso:

― Você já comeu uma mulher pra ver o tanto que é bom?

No que veio o contragolpe sagaz:

― E você já comeu um homem pra ver o tanto que é bom?

Sorriu. OK, fim de conversa.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O coração no bolso


Quando ela surgiu naquele vestido azul-marinho, tomara-que-caia, ele pensou:

― Esta é pra casar.

Desceu do carro e fez questão de abrir a porta, coisa que na maioria das vezes o passava. Esperou ela recolher as pernas delicadas, o sapato prata, contornou o velho Corsa e sentiu uma tontura. Era ela. Afinal, era ela!

A noite foi magnífica. Show da Ana Cañas, jantar simples, mas agradável, risadas e confissões, um beijo tímido na despedida. Era ela. Sentia que, finalmente, tinha acertado.

No dia seguinte, ligou para chamá-la numa nova saída. Nada. Tentou mais tarde. Caixa postal. Mandou mensagem. Nenhuma resposta. E-mail. Ignorado. Enlouqueceu. Tinha sido um sonho? Começou a duvidar da própria sanidade.

Sempre que tocava Ana Cañas no rádio, sentia náuseas e mudava a estação.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Os três tipos de homens


Depois de frustrações e mais frustrações amorosas, ela encontrou refúgio numa teoria. A de que três tipos de homens cruzam o caminho feminino: o bêbado, o louco e o cafajeste. Inevitavelmente.

Mas e o masculino? Quais seriam as formas de mulheres que se meteriam na trajetória deles? Após pensar bem, ele chegou a duas: as que acreditam nos três tipos de homens e as outras.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Vamos não nos conhecer?


Tinham se conhecido há pouco tempo e ele propôs:

― Vamos não nos conhecer? Nos conhecer é supor um fim, é restringir o início, é lembrar de quando passamos a dissecar o outro – para cobrar depois o que foi dito fora de contexto. Vamos não nos conhecer, deixar que o mistério seja o principal elo entre nós dois, ao mesmo tempo em que o desconhecimento nos afasta. Vamos não nos conhecer devagarinho, aproveitando cada segundo da antidescoberta. E quando, afinal, soubermos que cada um conhece o outro mais que qualquer pessoa no mundo – ainda assim sem se conhecer –, já teremos medos e traumas superados, dúvidas e ansiedades enterradas. Olharemos pra trás sabendo que vivemos etapa após etapa, sem pressa, porque a gente não se conhecia e a simples presença mútua alimentou todos os dias a vontade de estarmos juntos. Assim, naturalmente, como dois desconhecidos que caminham de mãos dadas.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Hormônios à flor da pele


Os hormônios borbulhavam, abalroavam-se entre mesas e cadeiras. Bastava um minuto sentado na esplanada da faculdade, a tomar um café ou uma cerveja, para perceber o cenário bocagiano.

― Se alguém viesse aqui agora e dissesse “Ei pessoal, liberado! Podem fazer o que bem entenderem!”, isto viraria uma orgia dionisíaca, um culto ao Baco. Podem crer... ― repetia em tom profético.

Eram rapazes e moças, estudantes nos seus 20 e poucos anos, ávidos por liberar testosterona. Dava para cortar a tensão sexual com uma navalha – e eles certamente ainda a usariam para romper os sutiãs alheios.

(“Aos 18 anos, um sujeito não sabe como se diz bom dia a uma mulher.” | Nelson Rodrigues)

domingo, 12 de dezembro de 2010

A lista de mulheres (Parte 2)


Na quarta noite, completamente paranóico, sem comer ou dormir direito, ligou e mandou e-mail aos amigos. Queria saber se alguém conhecia uma Emiko, uma Giulia, uma Hélène, uma Ingrid, uma Najiyah, uma Ofélia.

Finalmente, na quinta noite, resolveu espairecer. Foi ao bar da esquina, sentou-se ao balcão e pediu uma cerveja. Ela entrou minutos depois. Quando a viu, estremeceu. Perdeu a noção do tempo e do espaço. Era a mulher com quem ele sempre sonhou.

Disse olá sem perceber a própria ação. Ela sorriu. Ele perguntou seu nome. Ela respondeu. Era comum. Um nome banal, batido, que já constava na sua lista.

Tomou o resto da cerveja num gole só e saiu. Não trocaria por nada a única coisa que o tornava diferente do resto do mundo. Quanto mais por algo instável e pueril como o amor.

sábado, 11 de dezembro de 2010

A lista de mulheres (Parte 1)


Começou como uma curiosidade que contava aos amigos na mesa do bar:

― Olha só, eu nunca repeti um nome! Nunca peguei duas mulheres com o mesmo nome ― dizia ele, orgulhoso da sua diversidade, para repassar, de novo, a lista mentalmente.

Numa noite qualquer de egocentrismo etílico chegou em casa e organizou o rol por ordem alfabética. De A a V. Na noite posterior, obcecado pelo próprio feito, buscou na internet nomes triviais de mulheres. Pintou os alvos de vermelho.

Na terceira noite, com a idéia ainda martelando na cabeça, ampliou a lista para as estrangeiras: nomes britânicos, franceses, italianos, espanhóis, russos, japoneses, árabes, africanos agora faziam parte do desafio íntimo e pessoal.

(continua...)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O Charada berbere


Quando descobriu que ele era brasileiro, pediu sua atenção. Não queria dinheiro nem vender nada, como era normal na área. Queria apenas que escrevesse uma carta em português. Para um amigo em São Paulo.

Ele se arrepiou. Chamou os parceiros de viagem e abrigaram-se na humilde tenda à porta do deserto. O comerciante era berbere, um povo que habita o centro do país. Serviu o típico chá de menta e começou a contar charadas pro grupo.

A cada novo conto, sorria com o entusiasmo do anfitrião. “Perdemos a pureza do convívio”, ele pensou. E de todas as paisagens deslumbrantes e experiências culturais que teve, esse foi o fato mais marcante da jornada.

Separados por milhares de quilômetros e com histórias de vida completamente distintas, os dois haviam se unido naquele momento pelo poder das palavras.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Ela quer... queria te conhecer


― Olá, tudo bem? Minha amiga quer conhecer-te.

― Olá! Sua amiga quer me conhecer? Fixe! Quem é ela?

― Epá, tu és brasileiro...

― Sim. Algum problema?

― Não, claro que não...

― Então diz lá: cadê sua amiga? Quem que é?

― Ela tem cabelo preto, está lá naquela roda. Mas ela não quer conhecer-te mais não.

― Como é que tu sabe?

E, de facto, ele foi ignorado pela única mulher de cabelo preto da roda.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A menina que tinha medo de arroz


Não era só medo. Era nojo. Ela tinha medo e nojo de arroz. De arroz cru, menos. Principalmente de arroz cozido. Se colocasse em seu prato, logo rejeitava todo o restante da refeição.

Um dia marcaram de se ver após o almoço. Ele saiu com os pais. Para matar a vontade, foi comer camarão. Ligou em seguida, como combinado:

― Já tou liberado. Vamos nos ver? Passo aí?

― Ah, não posso. Hoje não dá... estou toda enrolada aqui com coisas pra fazer.

Tudo bem, na boa. Passado um tempo apenas é que foi saber: com receio de ele ter comido arroz, ela achou melhor cancelar o encontro. Não correria o risco.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Eu sei o que você quer...


Gostava das confusas, das atrapalhadas, das espontâneas. Porque ele mesmo, de certo modo, era tudo isso: confuso, atrapalhado e espontâneo.

O seu primeiro beijo, mais de uma década atrás, havia sido um fiasco. Ela se escondeu para surpreendê-lo. Ele vinha se esquivando das suas investidas há dois dias – talvez por timidez, talvez por falta de certeza que queria aquilo. Mas aconteceu na calada da noite, entre a sombra e as vigas de ferro:

― Eu sei o que você quer... ― balbuciou ele com voz de canastrão e tascou-lhe um chupão metálico.

Uma lástima. Os beijos seguintes foram melhores. Alguns, menos piores. Mas (quase) sempre precedidos por frases confusas, atrapalhadas e espontâneas. Ao menos, já não usava mais aparelho nos dentes.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A garçonete do morro


Na noite de confraternização da empresa, ele bebeu muito. Muito mesmo. Lembra apenas que tinha uma empregada de mesa linda. Linda mesmo. Antes de ir embora tomou coragem para pedir o número dela.

― Você devia perguntar meu nome antes, não? ― retrucou a morena.

Conseguiu: as oito letras e os oito algarismos devidamente registrados num papel. Vitória quádrupla, já que a visão estava a dobrar.

Contrariando a ressaca e as convenções, chamou-a para sair já no dia seguinte. Marcaram depois da aula dela (fazia Enfermagem, trabalhava no bar para pagar o curso) e foi pegá-la em casa. Com o endereço à mão, procurou a rua. Procurou e procurou até encontrar uma ladeira íngreme.

Encaixou a primeira marcha no carro 1.0 e subiu. Subiu mesmo. Era a última casa. Uma construção simples, ainda inacabada. E quando ele buzinou para avisar a sua chegada, pai, irmãos, avó e cães saíram à porta para saudá-lo e despedir-se dela.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Samba intelectual


Conheceram-se na leveza do samba. Ela tinha aquele ar angelical que seduzia-o com distinta facilidade. Passo vai, papo vem, descobriu que ela frequentava duas faculdades: de Filosofia e de Artes.

― Meus filósofos preferidos são os alemães. Gosto de Heidegger, Jaspers, Kant, Hegel e Nietzsche. Ah, também o Wittgenstein, que é austríaco.

Aos sábados ainda fazia um curso de Psicanálise. Tinha uma compulsão por aprender nunca vista d’antes – se fosse ele especialista, poderia afirmar que vinha da cobrança excessiva dos pais na infância; se fosse sacana, diria que era pura e simplesmente falta de sexo.

Até a facilidade pro samba havia sido absorvida em aulas de dança.

― Sabia que o Cartola compôs As rosas não falam depois que a dona Zica, sua esposa, ganhou um ramalhete de rosas? Ela plantou-as no fundo de casa e na manhã seguinte as rosas já tinham desabrochado. Ela ficou espantada e perguntou pro Cartola o que tinha acontecido. Ele só respondeu: “Sei lá, as rosas não falam...”. E depois criou a canção.

sábado, 4 de dezembro de 2010

"Meu marido não me comia"


Menos de uma semana após isso, ele reencontrou uma conhecida na parte alta da cidade. Na verdade, tinham se visto apenas uma vez, há quase um ano. Trocaram novidades, beberam umas cervejas e emudeceram-se nos beijos.

A uma certa altura da noite, ela revelou:

― Já fui casada, sabia?

― Ah é?

― Dois anos.

― Hmmm...

― Separei porque meu marido não me comia. Depois que a gente casou, ele simplesmente não queria mais me comer.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

"Meu namorado não me batia"


Ela abriu a porta de shortinho e top. Ele entrou. Andava meio aéreo, tinha terminado o namoro há alguns dias, aquilo ainda consumia seu pensamento. Ela sabia e perguntou como ele estava lidando.

― Tudo bem. O tempo cura ― respondeu, naqueles clichês inevitáveis.

― Pois eu também acabei o namoro recentemente ― disse ela.

― Ah é?

― Sim, meu namorado não me batia. Eu queria que ele me batesse, que me chamasse de cachorra na cama. Mas não. Ele só dava uns tapinhas, sabe? Umas coisinhas de leve, e ficava: “Ah, minha cachorrinha”. Porra, era muito frouxo!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Bom rapaz? Então é gay!


Soube que numa noite dessas umas amigas debateram se ele é gay ou não. Ficou incomodado. Não pela interrogação em si, mas porque seu esforço masculino de entender as mulheres nem era percebido. Na mesa estava uma garota com quem tinha tido um affair.

― Mas eu disse que não. O tempo todo te defendi, disse que você não é gay! ― ela relatou.

― É que você é um sujeito romântico e sensível. Gosta de poesia... ― tentou explicar a outra amiga.

Ele não compreendia. As mulheres vivem reclamando a falta de homens maduros e responsáveis, ululam que nenhum presta. Oras, quando o camarada trata-as com empatia e respeito, cogitam logo que é homo.

Desfez-se de Quintana, Drummond e Neruda, passou a cuspir no chão e a coçar o saco em público:

― Bonzinho é o caralho! Mulher gosta é de cafajeste! Gosta do cara que a sacaneia, a rebaixa, a despreza. Isto de tentar entendê-las só nos confunde mais ainda. E, pelo jeito, confunde a elas também.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Já nem responde mais


É uma estupidez. Desde que voltou, já escutou mais de uma dezena de vezes a dúvida: “Mas eles são burros mesmo?”.

Sim, são. Umas antas. Tal como todo italiano é gay, todo americano é arrogante, todo argentino é metido, todo francês é fedido, todo jamaicano é maconheiro, todo siciliano é mafioso, todo afegão é terrorista, todo brasileiro é malandro e toda brasileira é puta.

Ele nem responde mais à ignorância. Burro é quem pergunta.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O triunfo da fantasia


Um amigo liga para ele eufórico:

― Porra, você viu a vitória do Barça ontem?! Você viu que vitória do Barça?!

― Vi sim, meu. Pá, e digo mais: foi um jogo perfeito, um jogo impecável. Nunca vi uma equipe atuar com tamanha sintonia. Eles podiam vendados que trocariam passes por meses.

― A Alemanha na Copa...

― O quê?

― A Alemanha na Copa, contra a Argentina... também foi demais.

― Ah, é verdade. Mas o Barça... pô, o Barça nem deu chance pro Real. O placar podia ter sido seis, sete, oito a zero. Fácil. Faltou mesmo foi o gol do Messi, ?

― Aquele baixinho... fala sério, o cara me faz crer na existência de Deus, na existência do sublime, do milagre, do sobrenatural!

― A equipe toda enche os olhos. Do Valdés ao Villa. Na boa, este Barcelona vai ficar na história, meu. A história que a gente acompanhando, que a gente é testemunha.

― Pois é. É daquelas escalações que vale a pena decorar: Valdés, Daniel Alves, Piqué, Puyol, Abidal, Busquets, Xavi, Iniesta, Pedro, Messi e Villa. Aliás, você vai quando mesmo pra lá?

― Olha, pra ser sincero, já me sinto em Barcelona.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Fantástico mundo


Ele era um sujeito sociável, mas desprezava a conversa mole. Desejava que ninguém comentasse sobre o clima no elevador, que o homem da frente na fila esperasse quieto o atendimento, que a senhora se calasse ao ver uma lambança no trânsito.

Como a conversação era prática negligenciada no seu dia-a-dia, emudecia diante de estranhos. Travava no primeiro contato com uma pessoa desconhecida. Achava qualquer início de assunto uma grande bobagem, um selo de leviandade colado na testa.

Assistia à desenvoltura dos amigos diante das mulheres com afiada inveja. Guardava-se no seu canto, sem paciência para elaborar frases feitas ou tiradas (im)próprias. Seu interesse era contemplativo, era visual, era (quase) onírico. O menor estalo de realidade podia estragar a beleza do seu mundo.

E, por vezes, estragou mesmo.

domingo, 28 de novembro de 2010

Por uma causa


Andava para um lado e para o outro coçando a cabeça. Olhava o saldo bancário, fazia cálculos. Vinha adiando a sua responsabilidade por uma causa. Uma causa leviana, egoísta, mesquinha. Uma causa que nem ele mesmo tinha a certeza de ser real.

Era capaz de uma loucura homérica, de uma decisão pícara antes de alguém pronunciar psicomotricidade. A parcimônia não era sua praia. Tinha a alma de criança, um arrebatamento fluvial. Por isso, vivia com a calculadora para ver o quanto restava de sanidade nos seus cofres.

Mas que mal havia se não fazia mal a ninguém? Só queria correr o mundo e ver. Ver – não se contentava em escutar. Só queria ver, e levar em cada olhar o seu amor mais puro – por uma causa que reconhecia como existência, mas que se camuflava de liberdade.

sábado, 27 de novembro de 2010

O que é o amor?


Ele a encontrou no chat e foi logo perguntando:

― Eu não entendo... o que é o amor?

― Olá, tudo bem?

― Ah, sim. Tudo. Desculpa.

― Não esquenta...

... mas então, o que é o amor?

― O que é o amor? Boa pergunta. Eu sei lá o que é o amor.

― Uns dizem que não é fim, é meio. Outros que é amizade com sexo. Alguns que é um espelho.

― Um espelho? Como assim?

― Que a gente ama o que reflete na pessoa amada. A gente ama a admiração que ela sente por nós. No fundo, a gente ama a nós mesmos, as nossas virtudes, o nosso “endeusamento”, a condição de ser amável. Por isso, amor próprio e amor alheio são a mesmíssima coisa.

― Hmmmm... interessante. Mas por que isso agora?

― Sei lá, tava pensando na minha cidade-natal e como ela não me eleva, projeta meus defeitos, realça coisas ruins de mim.

― Deve ser por isso que você não a ama. Simples assim.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A felicidade dela


Ela havia encontrado a segurança nos relacionamentos. Depois de algumas frustrações, de romances conturbados, de lágrimas no travesseiro e apertos no peito, tinha a companhia de um homem que lhe dava suporte.

Amava-o com a lucidez de um amor consistente. Amava-o com o controle de um amor maduro. Amava-o perto e longe, na presença e na ausência. Ela experimentava um sentimento novo, uma sintonia de vontades, uma adequação de seus sonhos.

Na primeira chance, mudou-se – foram morar juntos em outra cidade, em outro país, em um continente distante. Ele não ouviu falar dela durante meses. A última coisa que soube, por uma amiga em comum, é que estava feliz. Mais feliz do que ela jamais pensou que pudesse ser algum dia.

Ele juntou todas as cartas que trocaram e rasgou-as uma por uma. Sem rancor. Cansado de esperar, cansado de supor, cansado do cansaço que o acometia, não pensou mais nela. Ou, pelo menos, lembrava-se sempre que tinha de esquecê-la.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Necessidade da escrita


Ficar. Tocar. Mudar. Ele queria que suas obras abraçassem esses três verbos. Queria andar de mãos dadas com a escrita. Lembrava-se de Rainer Maria Rilke:

“Acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunta a si próprio: tenho de escrever? Escave dentro de si até encontrar uma resposta profunda. E se esta resposta for afirmativa, se puder enfrentar esta séria pergunta com um «tenho» simples e forte, então construa sua vida em torno desta necessidade.”

― Tenho! ― contestou.

E voltou a desenhar histórias.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Carregar para sempre


Muita coisa passa. Muitas vidas ficam pela vida. A gente mal sabe quando começa e quando termina uma história. A cidade ainda estava impregnada nele. O adeus começava a enraizar, a doer fundo.

― Por que não podemos simplesmente colocar tudo dentro de uma mala e carregar conosco para sempre? ― questionou, inconformado.

― Você pode ― rebateu o amigo. ― A essa bagagem chamam memória emocional.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Fugindo da chuva


Se não fosse a recente reviravolta na saúde, ele teria ficado por lá, parado, debaixo da chuva. Tinha a teoria de que pela menos uma vez por mês, quando os pingos precipitassem do céu, deveríamos nos permitir um banho. Um banho de chuva.

(Também deveríamos andar mais vezes com os pés na terra, deitar-se no gramado, mergulhar na lagoa, caminhar sem pressa, errar o destino ou mesmo abrir as janelas e evitar o ar condicionado.)

Se não fosse o receio da enfermidade, ele teria sorrido e largado os passos. Só para sentir a água escorrer pela testa e o cabelo úmido e desregrado como o de um herói épico de cinema preto e branco. Ele adorava o cheiro da relva molhada, aquele perfume natural do mundo.

(Também gostava da estranheza do tênis encharcado, do plosh-plosh que fazia ao andar, de torcer as meias dentro da banheira. Gostava da camisa agarrada ao corpo, como se o abraçasse e o protegesse das coisas más.)

Se não fosse a real possibilidade da recaída, ele teria aguentado o tempo todo da chuva. Tranquilamente, lembraria nostálgico dos outros banhos que o pegaram de jeito: na praia deserta, no campo de futebol, na fazenda do primo, no meio da rua, na madrugada voltando do trabalho.

(Também recordaria a última vez, o fatídico banho, que o deixou na cama por uma semana. Sentia-se como uma criança aterrorizada pelo seu próprio brinquedo. Demoraria um tempo, ainda, para voltar à diversão inocente.)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O sentido oculto das coisas


Era uma segunda-feira de novembro. Uma segunda-feira nublada. Ele estava de folga e, mesmo com o tempo titubeante, resolveu ir à praia. Levou o livro novo e as inquietações antigas.

“As coisas não têm significação; tem existência.”

As respostas vinham em versos de Caeiro. As nuvens que cobriam o sol traziam o silêncio necessário. Mesmo o barulho das ondas quebrando na areia cessou. Ele sentiu o cheiro do mar, na praia vazia, e uma paz... uma paz indescritível.

“O que é preciso é ser-se natural e calmo, na felicidade ou na infelicidade.”

Eram ensinamentos sutis para angústias pesadas. Seu peito vivia denso, sua cabeça doía muito, seu corpo transpirava fadiga, sua alma encolhia. Agora não mais. Respirou fundo e entendeu que tudo ia e vinha, tudo mudava, nada era definitivo nem fundamental.

“Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem, cada um como é.”

Assim, conheceu uma transformação estranha. Depois daquele dia de céu cinzento, ficou mais leve. Depois daquele dia de tempo ruim, aprendeu que o bom e o mau são questões de postura, são pontos de vista.

“Basta existir para ser completo.”

E existiu, com desapego por qualquer sentido íntimo. Simplesmente existiu.