terça-feira, 30 de novembro de 2010

O triunfo da fantasia


Um amigo liga para ele eufórico:

― Porra, você viu a vitória do Barça ontem?! Você viu que vitória do Barça?!

― Vi sim, meu. Pá, e digo mais: foi um jogo perfeito, um jogo impecável. Nunca vi uma equipe atuar com tamanha sintonia. Eles podiam vendados que trocariam passes por meses.

― A Alemanha na Copa...

― O quê?

― A Alemanha na Copa, contra a Argentina... também foi demais.

― Ah, é verdade. Mas o Barça... pô, o Barça nem deu chance pro Real. O placar podia ter sido seis, sete, oito a zero. Fácil. Faltou mesmo foi o gol do Messi, ?

― Aquele baixinho... fala sério, o cara me faz crer na existência de Deus, na existência do sublime, do milagre, do sobrenatural!

― A equipe toda enche os olhos. Do Valdés ao Villa. Na boa, este Barcelona vai ficar na história, meu. A história que a gente acompanhando, que a gente é testemunha.

― Pois é. É daquelas escalações que vale a pena decorar: Valdés, Daniel Alves, Piqué, Puyol, Abidal, Busquets, Xavi, Iniesta, Pedro, Messi e Villa. Aliás, você vai quando mesmo pra lá?

― Olha, pra ser sincero, já me sinto em Barcelona.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Fantástico mundo


Ele era um sujeito sociável, mas desprezava a conversa mole. Desejava que ninguém comentasse sobre o clima no elevador, que o homem da frente na fila esperasse quieto o atendimento, que a senhora se calasse ao ver uma lambança no trânsito.

Como a conversação era prática negligenciada no seu dia-a-dia, emudecia diante de estranhos. Travava no primeiro contato com uma pessoa desconhecida. Achava qualquer início de assunto uma grande bobagem, um selo de leviandade colado na testa.

Assistia à desenvoltura dos amigos diante das mulheres com afiada inveja. Guardava-se no seu canto, sem paciência para elaborar frases feitas ou tiradas (im)próprias. Seu interesse era contemplativo, era visual, era (quase) onírico. O menor estalo de realidade podia estragar a beleza do seu mundo.

E, por vezes, estragou mesmo.

domingo, 28 de novembro de 2010

Por uma causa


Andava para um lado e para o outro coçando a cabeça. Olhava o saldo bancário, fazia cálculos. Vinha adiando a sua responsabilidade por uma causa. Uma causa leviana, egoísta, mesquinha. Uma causa que nem ele mesmo tinha a certeza de ser real.

Era capaz de uma loucura homérica, de uma decisão pícara antes de alguém pronunciar psicomotricidade. A parcimônia não era sua praia. Tinha a alma de criança, um arrebatamento fluvial. Por isso, vivia com a calculadora para ver o quanto restava de sanidade nos seus cofres.

Mas que mal havia se não fazia mal a ninguém? Só queria correr o mundo e ver. Ver – não se contentava em escutar. Só queria ver, e levar em cada olhar o seu amor mais puro – por uma causa que reconhecia como existência, mas que se camuflava de liberdade.

sábado, 27 de novembro de 2010

O que é o amor?


Ele a encontrou no chat e foi logo perguntando:

― Eu não entendo... o que é o amor?

― Olá, tudo bem?

― Ah, sim. Tudo. Desculpa.

― Não esquenta...

... mas então, o que é o amor?

― O que é o amor? Boa pergunta. Eu sei lá o que é o amor.

― Uns dizem que não é fim, é meio. Outros que é amizade com sexo. Alguns que é um espelho.

― Um espelho? Como assim?

― Que a gente ama o que reflete na pessoa amada. A gente ama a admiração que ela sente por nós. No fundo, a gente ama a nós mesmos, as nossas virtudes, o nosso “endeusamento”, a condição de ser amável. Por isso, amor próprio e amor alheio são a mesmíssima coisa.

― Hmmmm... interessante. Mas por que isso agora?

― Sei lá, tava pensando na minha cidade-natal e como ela não me eleva, projeta meus defeitos, realça coisas ruins de mim.

― Deve ser por isso que você não a ama. Simples assim.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A felicidade dela


Ela havia encontrado a segurança nos relacionamentos. Depois de algumas frustrações, de romances conturbados, de lágrimas no travesseiro e apertos no peito, tinha a companhia de um homem que lhe dava suporte.

Amava-o com a lucidez de um amor consistente. Amava-o com o controle de um amor maduro. Amava-o perto e longe, na presença e na ausência. Ela experimentava um sentimento novo, uma sintonia de vontades, uma adequação de seus sonhos.

Na primeira chance, mudou-se – foram morar juntos em outra cidade, em outro país, em um continente distante. Ele não ouviu falar dela durante meses. A última coisa que soube, por uma amiga em comum, é que estava feliz. Mais feliz do que ela jamais pensou que pudesse ser algum dia.

Ele juntou todas as cartas que trocaram e rasgou-as uma por uma. Sem rancor. Cansado de esperar, cansado de supor, cansado do cansaço que o acometia, não pensou mais nela. Ou, pelo menos, lembrava-se sempre que tinha de esquecê-la.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Necessidade da escrita


Ficar. Tocar. Mudar. Ele queria que suas obras abraçassem esses três verbos. Queria andar de mãos dadas com a escrita. Lembrava-se de Rainer Maria Rilke:

“Acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunta a si próprio: tenho de escrever? Escave dentro de si até encontrar uma resposta profunda. E se esta resposta for afirmativa, se puder enfrentar esta séria pergunta com um «tenho» simples e forte, então construa sua vida em torno desta necessidade.”

― Tenho! ― contestou.

E voltou a desenhar histórias.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Carregar para sempre


Muita coisa passa. Muitas vidas ficam pela vida. A gente mal sabe quando começa e quando termina uma história. A cidade ainda estava impregnada nele. O adeus começava a enraizar, a doer fundo.

― Por que não podemos simplesmente colocar tudo dentro de uma mala e carregar conosco para sempre? ― questionou, inconformado.

― Você pode ― rebateu o amigo. ― A essa bagagem chamam memória emocional.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Fugindo da chuva


Se não fosse a recente reviravolta na saúde, ele teria ficado por lá, parado, debaixo da chuva. Tinha a teoria de que pela menos uma vez por mês, quando os pingos precipitassem do céu, deveríamos nos permitir um banho. Um banho de chuva.

(Também deveríamos andar mais vezes com os pés na terra, deitar-se no gramado, mergulhar na lagoa, caminhar sem pressa, errar o destino ou mesmo abrir as janelas e evitar o ar condicionado.)

Se não fosse o receio da enfermidade, ele teria sorrido e largado os passos. Só para sentir a água escorrer pela testa e o cabelo úmido e desregrado como o de um herói épico de cinema preto e branco. Ele adorava o cheiro da relva molhada, aquele perfume natural do mundo.

(Também gostava da estranheza do tênis encharcado, do plosh-plosh que fazia ao andar, de torcer as meias dentro da banheira. Gostava da camisa agarrada ao corpo, como se o abraçasse e o protegesse das coisas más.)

Se não fosse a real possibilidade da recaída, ele teria aguentado o tempo todo da chuva. Tranquilamente, lembraria nostálgico dos outros banhos que o pegaram de jeito: na praia deserta, no campo de futebol, na fazenda do primo, no meio da rua, na madrugada voltando do trabalho.

(Também recordaria a última vez, o fatídico banho, que o deixou na cama por uma semana. Sentia-se como uma criança aterrorizada pelo seu próprio brinquedo. Demoraria um tempo, ainda, para voltar à diversão inocente.)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O sentido oculto das coisas


Era uma segunda-feira de novembro. Uma segunda-feira nublada. Ele estava de folga e, mesmo com o tempo titubeante, resolveu ir à praia. Levou o livro novo e as inquietações antigas.

“As coisas não têm significação; tem existência.”

As respostas vinham em versos de Caeiro. As nuvens que cobriam o sol traziam o silêncio necessário. Mesmo o barulho das ondas quebrando na areia cessou. Ele sentiu o cheiro do mar, na praia vazia, e uma paz... uma paz indescritível.

“O que é preciso é ser-se natural e calmo, na felicidade ou na infelicidade.”

Eram ensinamentos sutis para angústias pesadas. Seu peito vivia denso, sua cabeça doía muito, seu corpo transpirava fadiga, sua alma encolhia. Agora não mais. Respirou fundo e entendeu que tudo ia e vinha, tudo mudava, nada era definitivo nem fundamental.

“Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem, cada um como é.”

Assim, conheceu uma transformação estranha. Depois daquele dia de céu cinzento, ficou mais leve. Depois daquele dia de tempo ruim, aprendeu que o bom e o mau são questões de postura, são pontos de vista.

“Basta existir para ser completo.”

E existiu, com desapego por qualquer sentido íntimo. Simplesmente existiu.

domingo, 21 de novembro de 2010

Carta de alforria


Sentia baixinho. Aprendeu a silenciar a emoção. Vez ou outra, deixava escapar um grito. Cada entrega era uma redescoberta de si. Abria mão do tempo, da liberdade, da solidão... sempre com a incerteza latente se estava a ganhar ou perder.

Por conta da dúvida, trancafiou o seu lado íntimo. Fingia. Fingia como um poeta que finge tão completamente. Fingia de noite e de dia. E no auge do seu fingir, tornava-se ele a sua principal vítima. Não eram em poucos momentos que duvidava se não estava fingindo o próprio fingimento.

A seu favor, pela sua sanidade, tinha um entendimento básico da perturbação muda: não tardava a surgir a mulher que assinaria a carta de alforria do seu fingimento. Estaria livre. Simplesmente seria. Era esse, também, o seu verdadeiro temor, a sua inquietação mais crucial.

sábado, 20 de novembro de 2010

Paixão com tempo ou sem tempo?


“Por qual tipo de mulher eu me apaixono?”. Às vezes ele voltava para casa pensando nisso. Não havia nada que inflamasse a dúvida. Uma fagulha, talvez, dos seu casos amorosos (ainda que esse termo mereça revisão) vividos – os concretos e os abstratos, aqueles com final feliz ou o contrário disso. Equacionava: “por qual tipo de mulher, afinal, me apaixono?”.

Tem aquela que mal se conhece. E é esse, fundamentalmente, o motivo para se apaixonar. É a amiga de um amigo, prima da colega de trabalho, vizinha do terceiro andar, funcionária dos correios... Vê-la uma única e restrita vez atiça a fantasia, mexe e remexe com o capricho.

Será que ela também gosta de poesia? Será que curte jazz, gargalha com Friends, aprecia vinho, sabe outro idioma, se interessa por gastronomia, pratica esporte, tem medo de trovão, encara a solidão? A mente trabalha sem folga, procurando adequar o ideal à realidade. Ou vice-versa.

Tem aquela outra mulher que a convivência faz apaixonar. Ela precisa justamente de tempo para cativar o homem. Mesmo que aconteça sem querer. É um olhar de lado, um sorriso com o corpo todo, a maneira de se vestir. Uma simples e inofensiva dentada no sanduíche pode embasbacar o pobre coitado. Sinal de que ele foi fisgado.

“Por qual tipo de mulher eu me apaixono?”. Ele voltava com regularidade ao oráculo. Inquietava-se ao som de On the Radio, da Regina Spektor, quando teve um insight: ele se apaixona das duas maneiras simultaneamente!

Percebeu que era nas ações cotidianas que alimentava a paixão. Lambuzava-se com os mais singelos gestos e trejeitos da sua musa. Mas a fome, bem, a fome nunca cessava, nunca diminuía. Tudo porque tinha a barriga sempre a roncar dentro da sua imaginação.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A volta do que não foi


Ele não escreve nem recebe mais carta. Ele não sente como antigamente. Há muito passou a apenas existir no enlace – como se fosse uma mera condição fisiológica –, sem viver um romance de fato.

Ele não ama nem é amado. Ele não comete loucuras como no passado. Conhece e se envolve, mas ainda lida com um vazio estranho, que nem mesmo a escrita consegue preencher (somente aliviar).

Ele não manda flores, não convida pro cinema, não assiste ao pôr-do-sol acompanhado. Ele não briga pelo lençol ou reclama do tubo da pasta de dente. Entra e sai de casa sem dizer “olá” e “tchau”, não escuta passos no corredor nem vê a porta abrir e fica eufórico como um cãozinho.

Ele não surpreende nem é surpreendido. Ele não discute e dorme mal. Não desperta e ganha café na cama para perceber que tudo está bem. Ele não faz palhaçada na cozinha, não dança colado na sala, não canta alto no banho (para ela escutar e sorrir sozinha). Acostumou-se com a solidão, superou os estágios do medo e da adoração.

Ele não desaprendeu esses gestos. Talvez só tenha esquecido. E há algum tempo procura recordá-los.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Energia interna



Quando pequeno, ele tinha a mania de cerrar os olhos nas brincadeiras. Fechava-os e imaginava ser um animal, um animal selvagem que superasse os desafios do jogo. Mentalizava um leão para ganhar vigor, uma onça para ter astúcia, uma águia para ser veloz. Era mesmo dentro dele que nascia aquele ímpeto, a confiança de ser o próprio animal, de acumular as virtudes que o salvariam naquele momento.

Depois de muitos anos, lembrou-se disso. Lembrou-se que em algum instante do seu crescimento esquecera dessa energia interna. E resolveu tentar. Queria ver se ainda funcionava, se ainda tinha jeito para o truque.

Fechou os olhos com pressa. Pensou nos problemas que o atormentavam, nas angústias cotidianas, nos sobressaltos da vida. Concluiu que se fosse um leão, uma onça, uma águia, ganharia o que precisava para transpor as adversidades.

Reabriu os olhos cuidadosamente. A imagem tinha atingido sua mente. Não era de nenhum animal senão dele próprio, aos seis anos de idade. Aquela seria a imagem que, pelo resto da vida, mentalizaria quando quisesse buscar forças.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Na próxima a gente ganha


E assim, do nada, surgiu a lembrança de um jogo no estádio. Há 15 anos. Antes, já tinha ido vibrar com uns gols do Beijoca, mas esta foi a primeira vez numa grande partida: estreia do melhor do mundo com a camisa de seu time.

Compraram cadeira. Ele, pai, tio e primo. Chegaram cedo, estacionaram carro, comeram espetinho, procuraram lugares, sentaram na escada. Estava tudo lotado: o clima era de uma euforia beattleniana.

Ele não quis nem saber onde estava, como estava. Vibrou em cada lance como se fosse o único, realizou os dribles e as jogadas de efeito como se fossem sonhos. O clube chegava aos 100 anos. Ele só tinha 12 – e a nobre responsabilidade de cantar o hino e incentivar a equipe. Bons tempos.

Mas não é essa, ainda, sua maior recordação ludopédica. Nem a do pai berrando nas bancadas os nomes errados dos jogadores, quando Iranildo virava Iracildo, Ronaldão era rebatizado de Geraldão, Mauro Silva e Márcio Santos invertiam sobrenomes, para ser Mauro Santos e Márcio Silva. Corrigia-o e divertia-se, pingando os amendoins na boca.

Sua grande e definitiva lembrança vem de um título perdido em casa. O estádio era nosso, a vitória parecia certa. E escapou. Escapou como às vezes escapa aquela menina bonita do colégio – vai parar nos braços do cara que você mais repudia. Escapou como às vezes escapa aquele último pedaço de torta – guarda-se para mais tarde e, quando vê, alguém foi lá e comeu. Escapou como às vezes escapa a música no rádio, o filme na TV, a palavra exata.

O troféu era dos outros. Ele saiu do estádio esgotado e a viu em prantos. Ela resmungava as lágrimas com visível melancolia, procurava compreender a lógica de uma das coisas mais ilógicas que há: o futebol.

― Não fica assim. Na próxima a gente ganha... ― murmurou, tocando-a no ombro.

Ela sorriu, entre soluços. Naquele momento ambos souberam que a vida está além do jogo, mas que pode ensinar muito mais do que supomos. É uma metáfora simples e, por isso, poderosa.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O anterior que antecede o antes


Há uma coisa sublime no beijo que não é o encontro dos lábios. Vem de antes. Daquele momento que precede as bocas se colarem: do leve toque, da respiração ofegante, ansiosa, aromatizada.

A vontade do beijo provoca taquicardia. Devia ser proibida para quem tem coração fraco (mas que paradoxo! A vontade do beijo é justamente melhor aproveitada por quem tem coração fraco).

Pensando bem, um beijo nasce antes dessa aproximação: nasce no olhar. No contato visual sem querer. Forçadamente sem querer. Os olhos buscam-se para perderem-se. Encontram-se para selar a cumplicidade – é o espelho do beijo.

Mas esta cumplicidade talvez brote ainda antes: no silêncio. É quando a fala descansa e a língua molha os beiços. É quando o assunto apaga, com intenção de acender a chama do enlace.

Ou... na verdade, um beijo começa na conversa, nas palavras, na inteligência.

Não: no sorriso de covinhas, na mão no cabelo, nas unhas pintadas.

No jeito de caminhar, de chamar o garçom, de fazer sim com a cabeça.

O beijo bom é garantia de sexo bom. Porque todas as magias tornam-se uma.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sobre traumas e (tentativas de) superação


― Você é uma farsa. Sempre foi uma farsa!

Ela depositava a raiva do rompimento no silêncio dele. Nada do que viveram parecia poder ser aproveitado. Como se fosse um casaco velho e cheio de rasgos, ela desdenhou os momentos em que a aquecera. Na sua cabeça, havia sido o sistema de calefação, a lareira imaginária, o tabaco a incendiá-la por dentro.

“Você é uma farsa” ecoou na sua mente por dias, pululou as suas ideias nas prévias de solidão, fez com que ele duvidasse de si. Passou meses tentando convencer a consciência do contrário. “Uma farsa” é deveras forte. A intimidade construída jogada no lixo. As doações, os sentimentos, os planos em comum reduzidos a pérfidas mentiras.

Passou a ser perseguido pela obsessão da entrega. Para cada e toda mulher que se envolvia, tinha o afã de ser especial, o desafio de fazê-la única.

domingo, 14 de novembro de 2010

O que quer ser quando crescer?


A professora perguntou na classe: “O que você quer ser quando crescer?”. Dúvida que ele, aos oito, contestou de bate-pronto: “Criança!”. E, desde então, para a sua vida, procurou cumprir com a espontaneidade da resposta. 

sábado, 13 de novembro de 2010

Afinal, o amigo tinha razão


Eles tinham 10 anos. Vez ou outra, no futebol ou no videogame, saía uma discussão imbecil. Coisa de criança. O amigo emburrava. Ele reclamava. O amigo não recuava na convicção. Ele estourava:

― Deixa de ser fresco!

Era a senha para o próximo level da disputa. O amigo saía pisando firme, dizendo que não era fresco coisa alguma. Negava, choramingava, negava de novo, secava as bochechas, dizia que o fresco era ele, atravessava a porta, percorria 50 metros e trancava-se em casa. Bravo. Irredutível. Uma palavra de seis letras e a tarde de diversão era abortada.

Passavam 15 minutos. Às vezes 10. Lá ia ele tocar a campainha, pedir à empregada que chamasse o amigo, se desculpar do que tinha dito. Com sinceridade e mea-culpa. Não gostava de deixar as pazes para depois. A amizade é cliente preferencial, gente importante, precisa de atenção. Eles voltavam a brincar, sem rancor.

E por aí foi, vários e vários anos, com a cena se repetindo algumas vezes. Recentemente, o amigo descobriu que tinha razão. Quando o viu no altar, ele é que chorou baixinho, negou as lágrimas, mudou de assunto e quis refugiar-se em qualquer lugar, para que o amigo tocasse a campainha e lhe desse um abraço apertado.

― Deixa de ser fresco! ― ele escutou, sorrindo pelo passado, presente e futuro.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O caminho que se escolhe


Café preto. Gostava de café preto. Era o seu combustível da manhã, seu despertador após o almoço, seu alento para as noites de dor de cabeça. Café preto. Gostava assim, sem leite. Uma colher de açúcar. Preto.

Embebedava-se com o cheiro. Gostava do café preto novo, feito na hora. Comprou cafeteira italiana, café colombiano, açúcar holandês, chávena marroquina, colher chinesa. Adicionava o pó com minúcia geométrica – não tinha receio do desperdício, era excesso de zelo.

Um dia o médico proibiu-o de tanto café. “Pode tomar uma xícara por dia, e não mais”, sentenciou. Entendeu que era assim ou então sua saúde iria ruir. Vendeu apartamento, negociou carro. Largou terno e gravata, emprego no escritório de contabilidade, divorciou-se da infelicidade, beijou a testa dos filhos e mudou-se para o campo.

Foi plantar café. Colher tranquilidade. (Tratou a doença, e não os sintomas.)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Balancear a equação


Conversavam num bar sobre o poder de sedução da mulher.

― A sorte é que elas invocam umas com as outras, porque se houvesse união, se houvesse organização, estaríamos lascados... elas conquistariam o mundo com a facilidade que se bebe um copo d’água ― argumentou o amigo.

― Teríamos apenas uma chance, uma única e derradeira salvação ― ele contra-atacou. ― O cafajeste.

Fez-se um silêncio torto na mesa. Ele endireitou-se na cadeira.

― A mulher tem o desejo íntimo de salvar o homem dele mesmo. E é aí que o cafajeste entra: ele anula, elimina a sedução feminina. Ou, no mínimo, faz com que ela esqueça temporariamente a influência que nos exerce. Converter o cafajeste é o grande desafio da mulher, é a sua ambiciosa obra-prima, sua 5ª sinfonia, sua Monalisa, sua Laranja Mecânica, sua Seleção de 82...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Presente adiado


Comprou o livro pensando nela. Foi à loja e escolheu a dedo: uma coletânea de crônicas da Clarice Lispector. Desembrulhou para ler, quis ocupar-se com as lembranças enquanto não se reviam... e nunca mais a presenteou.

Marcou páginas, decorou trechos. Criou pretextos para que se esbarrassem ocasionalmente nas linhas, se descobrissem em afinidades e infinitudes. Descobriu onde ela morava, preparou a surpresa, leu mais uma vez o prefácio e desistiu da ideia.

Um dia ainda escreveria parágrafo por parágrafo no corpo dela. Para ler todas as madrugadas antes de adormecerem juntos.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Dança de salão


Certa vez, ao pisar um famoso samba da Lagoa, foi logo arrebatado por um sorriso amplo e um olhar acanhado. Ele tinha uma facilidade religiosa para se apaixonar. Tal como se fosse à esquina comprar pão ou se chupasse uma laranja recostado no muro do vizinho.

No ônibus mesmo, no regresso do trabalho, caía vertiginosamente por cada jovem jeitosa que vencia a catraca. Ora por um sim encenado em não, ora por um decote que persuadia seus mais castos pensamentos.

De volta ao samba, ainda fez a vez da cerveja, mas chegou a hora de pontapear a timidez e convidá-la para dançar. Ela não hesitou. Pôs-se de pé num instante – mas venhamos e convenhamos: nenhuma moça do recinto jamais hesitava diante de uma mão estendida. Ele secou o suor que lambia sua têmpora, encaixou o quadril no do dela e inaugurou o passo.

Conversaram por exatos cinco minutos e 37 segundos. Soube que chamava Mariana, nascera no interior de São Paulo e era 364 dias mais nova que ele. Soube também que aquela noite era a última na cidade. Partiria para a América (como o próprio povo da América gosta de chamar). Preferiu ignorar a matemática quando ela contou que só voltaria em abril.

Estava acostumado em partir. Estava acostumado em ser ele a subir na carruagem e acenar pela janela. Agora, experimentava o contrário: ficar na estação, com o lenço em punho, vendo o comboio sumir no horizonte. Restava tentar viver o instante, com força, sem medo, sem projeções.

Quando levantou-se num ímpeto e foi buscá-la no salão, ela já havia ido. Já havia atravessado a fronteira sem deixar nada para trás.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Hóspede ausente


Lá do alto, avistou a cidade partir. Seu coração apertou, surgiu uma vontade de lágrimas, uma vontade de gravar suas memórias num DVD e assistir sempre que tivesse vontade. Vontade urgente de o relógio do mundo quebrar e o tempo parar. Um súbito engasgo precipitou-lhe à garganta. Tentava disfarçar a tristeza fixando o olhar no passado.

Recordou os contos escritos, pensou nas sensações experimentadas, nos amigos deixados, nele mesmo que ficara lá embaixo. Dividia-se em anseios, sempre multiplicando idas e vindas. Aventurava-se para aquietar, alterava-se para voltar a ser quem era, agia para sonhar, conservava o isolamento para doar-se incondicionalmente.

Seu destino serpenteava pela trilha do paradoxo. Suas escolhas seguiam uma razão emocional, acomodavam-se numa emoção racional. Despreocupava-se em receber o futuro. Porque sabia que a visita até bateria à porta, mas nunca chegaria a entrar para o café.

domingo, 7 de novembro de 2010

Chance para a imperfeição


Deteve-se alguns segundos na frente do espelho, e firmou em silêncio:

― De hoje em diante, não faço mais a barba.

Queria envergar a aparência de náufrago, de artista, vagabundo. Acariciou os poucos pêlos do rosto e lembrou-se de quando ela elogiou seu estilo.

― Será que me lê?

Quedou pensativo. Era algo que desejava saber. Escrevia para ela. Escrevia para que o traço os unisse. Escrevia para recordar, mas também para esquecer. Escrevia porque enganava a verdade, inventava suas próprias mentiras.

No jornal de domingo, pousado na mesa de canto, uma crônica suplicou-lhe atenção. Passou os olhos na linha final:

“Tudo o que não aconteceu é perfeito. Dê chance para a imperfeição. Insista.”

Caminhou até o banheiro e agarrou a gilete. Riscou uma linha no lado direito da face e escreveu em vermelho no espelho: Insista. A dor que pungia não era a da carne.

sábado, 6 de novembro de 2010

Pouco fôlego


A asma é como a paixão. Depois que te pega, não há como escapar. Falta ar, o coração acelera. Falta ritmo, o peito pesa. Falta motivação para qualquer outra coisa. A paixão é como a asma, mas não há bombinhas para amenizá-la.

― É doença de poeta ― ponderou o amigo.

Ambas. Asma e paixão.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Duas palavras


O dia que ele desejava nunca chegar amanheceu normalmente. A folha do calendário marcava 4 de janeiro: juntou suas coisas, desceu os degraus como um preso no ensaio da morte, despediu-se de um a um, e deixou-a por último. Abraçaram-se forte, largaram-se relutantes pelo distanciamento e tornaram a se abraçar.

Ela sussurrou duas palavras na concha de seu ouvido. Ele apertou-a contra seu corpo e pôde sentir o calor subir-lhe às vértebras, possuir-lhe o juízo. Sabia que nas palavras mansas morava a salvação. Atravessou a porta sem olhar para trás, e jurou ainda ter ouvido seu nome lançado ao vento – como quem atira sementes para germinar vida.

Naquela noite adormeceu nas palavras. Na noite seguinte, também. Na posterior, na posterior e na posterior, a mesma coisa. Todas as noites enlaçava-se ao que ela dissera baixinho na despedida, avessa ao adeus que havia ancorado. Duas palavras, não mais que isso:

― Até amanhã.

O suficiente para cobri-lo de esperança naquele inverno.