sábado, 13 de novembro de 2010

Afinal, o amigo tinha razão


Eles tinham 10 anos. Vez ou outra, no futebol ou no videogame, saía uma discussão imbecil. Coisa de criança. O amigo emburrava. Ele reclamava. O amigo não recuava na convicção. Ele estourava:

― Deixa de ser fresco!

Era a senha para o próximo level da disputa. O amigo saía pisando firme, dizendo que não era fresco coisa alguma. Negava, choramingava, negava de novo, secava as bochechas, dizia que o fresco era ele, atravessava a porta, percorria 50 metros e trancava-se em casa. Bravo. Irredutível. Uma palavra de seis letras e a tarde de diversão era abortada.

Passavam 15 minutos. Às vezes 10. Lá ia ele tocar a campainha, pedir à empregada que chamasse o amigo, se desculpar do que tinha dito. Com sinceridade e mea-culpa. Não gostava de deixar as pazes para depois. A amizade é cliente preferencial, gente importante, precisa de atenção. Eles voltavam a brincar, sem rancor.

E por aí foi, vários e vários anos, com a cena se repetindo algumas vezes. Recentemente, o amigo descobriu que tinha razão. Quando o viu no altar, ele é que chorou baixinho, negou as lágrimas, mudou de assunto e quis refugiar-se em qualquer lugar, para que o amigo tocasse a campainha e lhe desse um abraço apertado.

― Deixa de ser fresco! ― ele escutou, sorrindo pelo passado, presente e futuro.