domingo, 21 de novembro de 2010

Carta de alforria


Sentia baixinho. Aprendeu a silenciar a emoção. Vez ou outra, deixava escapar um grito. Cada entrega era uma redescoberta de si. Abria mão do tempo, da liberdade, da solidão... sempre com a incerteza latente se estava a ganhar ou perder.

Por conta da dúvida, trancafiou o seu lado íntimo. Fingia. Fingia como um poeta que finge tão completamente. Fingia de noite e de dia. E no auge do seu fingir, tornava-se ele a sua principal vítima. Não eram em poucos momentos que duvidava se não estava fingindo o próprio fingimento.

A seu favor, pela sua sanidade, tinha um entendimento básico da perturbação muda: não tardava a surgir a mulher que assinaria a carta de alforria do seu fingimento. Estaria livre. Simplesmente seria. Era esse, também, o seu verdadeiro temor, a sua inquietação mais crucial.

2 comentários:

Diogo disse...

Concordo em gênero, número e grau, uma semana depois de assinarem minha carta.

Gustavo Jaime disse...

Agora é a sua vez de retribuir o favor. Quer dizer, a vez de VOCÊS! Hehehe. Grande abraço, meu velho.