domingo, 7 de novembro de 2010

Chance para a imperfeição


Deteve-se alguns segundos na frente do espelho, e firmou em silêncio:

― De hoje em diante, não faço mais a barba.

Queria envergar a aparência de náufrago, de artista, vagabundo. Acariciou os poucos pêlos do rosto e lembrou-se de quando ela elogiou seu estilo.

― Será que me lê?

Quedou pensativo. Era algo que desejava saber. Escrevia para ela. Escrevia para que o traço os unisse. Escrevia para recordar, mas também para esquecer. Escrevia porque enganava a verdade, inventava suas próprias mentiras.

No jornal de domingo, pousado na mesa de canto, uma crônica suplicou-lhe atenção. Passou os olhos na linha final:

“Tudo o que não aconteceu é perfeito. Dê chance para a imperfeição. Insista.”

Caminhou até o banheiro e agarrou a gilete. Riscou uma linha no lado direito da face e escreveu em vermelho no espelho: Insista. A dor que pungia não era a da carne.

Um comentário:

Sandryne disse...

Nossa, o tal romance sairá em breve, eu suponho. O caminho que se inicia promete. Até amanhã.