terça-feira, 9 de novembro de 2010

Dança de salão


Certa vez, ao pisar um famoso samba da Lagoa, foi logo arrebatado por um sorriso amplo e um olhar acanhado. Ele tinha uma facilidade religiosa para se apaixonar. Tal como se fosse à esquina comprar pão ou se chupasse uma laranja recostado no muro do vizinho.

No ônibus mesmo, no regresso do trabalho, caía vertiginosamente por cada jovem jeitosa que vencia a catraca. Ora por um sim encenado em não, ora por um decote que persuadia seus mais castos pensamentos.

De volta ao samba, ainda fez a vez da cerveja, mas chegou a hora de pontapear a timidez e convidá-la para dançar. Ela não hesitou. Pôs-se de pé num instante – mas venhamos e convenhamos: nenhuma moça do recinto jamais hesitava diante de uma mão estendida. Ele secou o suor que lambia sua têmpora, encaixou o quadril no do dela e inaugurou o passo.

Conversaram por exatos cinco minutos e 37 segundos. Soube que chamava Mariana, nascera no interior de São Paulo e era 364 dias mais nova que ele. Soube também que aquela noite era a última na cidade. Partiria para a América (como o próprio povo da América gosta de chamar). Preferiu ignorar a matemática quando ela contou que só voltaria em abril.

Estava acostumado em partir. Estava acostumado em ser ele a subir na carruagem e acenar pela janela. Agora, experimentava o contrário: ficar na estação, com o lenço em punho, vendo o comboio sumir no horizonte. Restava tentar viver o instante, com força, sem medo, sem projeções.

Quando levantou-se num ímpeto e foi buscá-la no salão, ela já havia ido. Já havia atravessado a fronteira sem deixar nada para trás.

Um comentário:

Alex Gruba disse...

pra eu não gastar muito do meu cérebro, vou deixar mais uma citação:
"quem não dança, segura a criança" - Tim Maia