sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Duas palavras


O dia que ele desejava nunca chegar amanheceu normalmente. A folha do calendário marcava 4 de janeiro: juntou suas coisas, desceu os degraus como um preso no ensaio da morte, despediu-se de um a um, e deixou-a por último. Abraçaram-se forte, largaram-se relutantes pelo distanciamento e tornaram a se abraçar.

Ela sussurrou duas palavras na concha de seu ouvido. Ele apertou-a contra seu corpo e pôde sentir o calor subir-lhe às vértebras, possuir-lhe o juízo. Sabia que nas palavras mansas morava a salvação. Atravessou a porta sem olhar para trás, e jurou ainda ter ouvido seu nome lançado ao vento – como quem atira sementes para germinar vida.

Naquela noite adormeceu nas palavras. Na noite seguinte, também. Na posterior, na posterior e na posterior, a mesma coisa. Todas as noites enlaçava-se ao que ela dissera baixinho na despedida, avessa ao adeus que havia ancorado. Duas palavras, não mais que isso:

― Até amanhã.

O suficiente para cobri-lo de esperança naquele inverno.

8 comentários:

Amanda disse...

Muito lindo, Gustavo. Dá uma olhadinha no meu também: www.pastilhasepalavras.blogspot.com

Anônimo disse...

quais foram?

Gustavo Jaime disse...

@Amanda: Estive lá e já está adicionado entre os favoritos do blog. Vou lendo, aos poucos, os textos antigos. Muito bom! =)

@Anônimo: Quais foram o quê?

Anônimo disse...

Eu diria... boa viagem

Anônimo disse...

Foi Até amanhã, poderia ter sido, adeus.. . e talvez por isso vivo na esperança ilusória do amanhã nunca voltar

Sandryne Barreto disse...

Bom, eu só fã do escrito mesmo não é? Saudades do D´além Mar, mas estarei por aqui também. Até amanhã.

Mary Jo disse...

amei :)

Não tem tu vai Te mesmo disse...

Faz todo sentido...