segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Fantástico mundo


Ele era um sujeito sociável, mas desprezava a conversa mole. Desejava que ninguém comentasse sobre o clima no elevador, que o homem da frente na fila esperasse quieto o atendimento, que a senhora se calasse ao ver uma lambança no trânsito.

Como a conversação era prática negligenciada no seu dia-a-dia, emudecia diante de estranhos. Travava no primeiro contato com uma pessoa desconhecida. Achava qualquer início de assunto uma grande bobagem, um selo de leviandade colado na testa.

Assistia à desenvoltura dos amigos diante das mulheres com afiada inveja. Guardava-se no seu canto, sem paciência para elaborar frases feitas ou tiradas (im)próprias. Seu interesse era contemplativo, era visual, era (quase) onírico. O menor estalo de realidade podia estragar a beleza do seu mundo.

E, por vezes, estragou mesmo.

Um comentário:

Alex Gruba disse...

muito bom, senhor Jaime. a parte do "selo de leviandade colado na testa" é bom pacas. só é preciso cuidado (e muito), pois o "selo de arrogância colado na testa" anda muito perto disso. é preciso sempre manter a humildade, não fazer como o Cristiano Ronaldo fez ao provocar o Barça antes do jogo de segunda-feira...