terça-feira, 23 de novembro de 2010

Fugindo da chuva


Se não fosse a recente reviravolta na saúde, ele teria ficado por lá, parado, debaixo da chuva. Tinha a teoria de que pela menos uma vez por mês, quando os pingos precipitassem do céu, deveríamos nos permitir um banho. Um banho de chuva.

(Também deveríamos andar mais vezes com os pés na terra, deitar-se no gramado, mergulhar na lagoa, caminhar sem pressa, errar o destino ou mesmo abrir as janelas e evitar o ar condicionado.)

Se não fosse o receio da enfermidade, ele teria sorrido e largado os passos. Só para sentir a água escorrer pela testa e o cabelo úmido e desregrado como o de um herói épico de cinema preto e branco. Ele adorava o cheiro da relva molhada, aquele perfume natural do mundo.

(Também gostava da estranheza do tênis encharcado, do plosh-plosh que fazia ao andar, de torcer as meias dentro da banheira. Gostava da camisa agarrada ao corpo, como se o abraçasse e o protegesse das coisas más.)

Se não fosse a real possibilidade da recaída, ele teria aguentado o tempo todo da chuva. Tranquilamente, lembraria nostálgico dos outros banhos que o pegaram de jeito: na praia deserta, no campo de futebol, na fazenda do primo, no meio da rua, na madrugada voltando do trabalho.

(Também recordaria a última vez, o fatídico banho, que o deixou na cama por uma semana. Sentia-se como uma criança aterrorizada pelo seu próprio brinquedo. Demoraria um tempo, ainda, para voltar à diversão inocente.)

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