segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Hóspede ausente


Lá do alto, avistou a cidade partir. Seu coração apertou, surgiu uma vontade de lágrimas, uma vontade de gravar suas memórias num DVD e assistir sempre que tivesse vontade. Vontade urgente de o relógio do mundo quebrar e o tempo parar. Um súbito engasgo precipitou-lhe à garganta. Tentava disfarçar a tristeza fixando o olhar no passado.

Recordou os contos escritos, pensou nas sensações experimentadas, nos amigos deixados, nele mesmo que ficara lá embaixo. Dividia-se em anseios, sempre multiplicando idas e vindas. Aventurava-se para aquietar, alterava-se para voltar a ser quem era, agia para sonhar, conservava o isolamento para doar-se incondicionalmente.

Seu destino serpenteava pela trilha do paradoxo. Suas escolhas seguiam uma razão emocional, acomodavam-se numa emoção racional. Despreocupava-se em receber o futuro. Porque sabia que a visita até bateria à porta, mas nunca chegaria a entrar para o café.

3 comentários:

Daniel Meirinho disse...

Muito bom meu caro... a porta sempre estará entreaberta e não será necessário bater. É só entrar e pegar uma xícara de café!

Mary Jo disse...

A tristeza da despedida corroi. Mesmo que queiramos ou não partir. É despedida. Só por si sempre triste.

Aparece sempre! Foi e será sempre um prazer ver-te por cá :)

Alex Gruba disse...

Como dizem dois gigantes brasileiros, é abrir as portas do coração:
"Eu nunca fiz coisa tão certa
Entrei pra escola do perdão
A minha casa vive aberta
Abri todas as portas do coração"