quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Na próxima a gente ganha


E assim, do nada, surgiu a lembrança de um jogo no estádio. Há 15 anos. Antes, já tinha ido vibrar com uns gols do Beijoca, mas esta foi a primeira vez numa grande partida: estreia do melhor do mundo com a camisa de seu time.

Compraram cadeira. Ele, pai, tio e primo. Chegaram cedo, estacionaram carro, comeram espetinho, procuraram lugares, sentaram na escada. Estava tudo lotado: o clima era de uma euforia beattleniana.

Ele não quis nem saber onde estava, como estava. Vibrou em cada lance como se fosse o único, realizou os dribles e as jogadas de efeito como se fossem sonhos. O clube chegava aos 100 anos. Ele só tinha 12 – e a nobre responsabilidade de cantar o hino e incentivar a equipe. Bons tempos.

Mas não é essa, ainda, sua maior recordação ludopédica. Nem a do pai berrando nas bancadas os nomes errados dos jogadores, quando Iranildo virava Iracildo, Ronaldão era rebatizado de Geraldão, Mauro Silva e Márcio Santos invertiam sobrenomes, para ser Mauro Santos e Márcio Silva. Corrigia-o e divertia-se, pingando os amendoins na boca.

Sua grande e definitiva lembrança vem de um título perdido em casa. O estádio era nosso, a vitória parecia certa. E escapou. Escapou como às vezes escapa aquela menina bonita do colégio – vai parar nos braços do cara que você mais repudia. Escapou como às vezes escapa aquele último pedaço de torta – guarda-se para mais tarde e, quando vê, alguém foi lá e comeu. Escapou como às vezes escapa a música no rádio, o filme na TV, a palavra exata.

O troféu era dos outros. Ele saiu do estádio esgotado e a viu em prantos. Ela resmungava as lágrimas com visível melancolia, procurava compreender a lógica de uma das coisas mais ilógicas que há: o futebol.

― Não fica assim. Na próxima a gente ganha... ― murmurou, tocando-a no ombro.

Ela sorriu, entre soluços. Naquele momento ambos souberam que a vida está além do jogo, mas que pode ensinar muito mais do que supomos. É uma metáfora simples e, por isso, poderosa.

Um comentário:

Alex Gruba disse...

o importante é evitar aquela síndrome de cachorro vira-lata, como ensina o grande mestre Nelson!