segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O sentido oculto das coisas


Era uma segunda-feira de novembro. Uma segunda-feira nublada. Ele estava de folga e, mesmo com o tempo titubeante, resolveu ir à praia. Levou o livro novo e as inquietações antigas.

“As coisas não têm significação; tem existência.”

As respostas vinham em versos de Caeiro. As nuvens que cobriam o sol traziam o silêncio necessário. Mesmo o barulho das ondas quebrando na areia cessou. Ele sentiu o cheiro do mar, na praia vazia, e uma paz... uma paz indescritível.

“O que é preciso é ser-se natural e calmo, na felicidade ou na infelicidade.”

Eram ensinamentos sutis para angústias pesadas. Seu peito vivia denso, sua cabeça doía muito, seu corpo transpirava fadiga, sua alma encolhia. Agora não mais. Respirou fundo e entendeu que tudo ia e vinha, tudo mudava, nada era definitivo nem fundamental.

“Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem, cada um como é.”

Assim, conheceu uma transformação estranha. Depois daquele dia de céu cinzento, ficou mais leve. Depois daquele dia de tempo ruim, aprendeu que o bom e o mau são questões de postura, são pontos de vista.

“Basta existir para ser completo.”

E existiu, com desapego por qualquer sentido íntimo. Simplesmente existiu.

Um comentário:

Larissol disse...

Identifico-me muito com Caiero, assim como os teus textos. Continue a escrever, sempre. Parabéns pelo blog.
Abraços, Larissa