sábado, 20 de novembro de 2010

Paixão com tempo ou sem tempo?


“Por qual tipo de mulher eu me apaixono?”. Às vezes ele voltava para casa pensando nisso. Não havia nada que inflamasse a dúvida. Uma fagulha, talvez, dos seu casos amorosos (ainda que esse termo mereça revisão) vividos – os concretos e os abstratos, aqueles com final feliz ou o contrário disso. Equacionava: “por qual tipo de mulher, afinal, me apaixono?”.

Tem aquela que mal se conhece. E é esse, fundamentalmente, o motivo para se apaixonar. É a amiga de um amigo, prima da colega de trabalho, vizinha do terceiro andar, funcionária dos correios... Vê-la uma única e restrita vez atiça a fantasia, mexe e remexe com o capricho.

Será que ela também gosta de poesia? Será que curte jazz, gargalha com Friends, aprecia vinho, sabe outro idioma, se interessa por gastronomia, pratica esporte, tem medo de trovão, encara a solidão? A mente trabalha sem folga, procurando adequar o ideal à realidade. Ou vice-versa.

Tem aquela outra mulher que a convivência faz apaixonar. Ela precisa justamente de tempo para cativar o homem. Mesmo que aconteça sem querer. É um olhar de lado, um sorriso com o corpo todo, a maneira de se vestir. Uma simples e inofensiva dentada no sanduíche pode embasbacar o pobre coitado. Sinal de que ele foi fisgado.

“Por qual tipo de mulher eu me apaixono?”. Ele voltava com regularidade ao oráculo. Inquietava-se ao som de On the Radio, da Regina Spektor, quando teve um insight: ele se apaixona das duas maneiras simultaneamente!

Percebeu que era nas ações cotidianas que alimentava a paixão. Lambuzava-se com os mais singelos gestos e trejeitos da sua musa. Mas a fome, bem, a fome nunca cessava, nunca diminuía. Tudo porque tinha a barriga sempre a roncar dentro da sua imaginação.

3 comentários:

i disse...

ohhh.... :,) que post adorável Gustavo*

Juliana Toledo disse...

Excelente!!!!
;)

Leandro Afonso Guimarães disse...

Você é o Truffaut das palavras, Gustavo.