sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A volta do que não foi


Ele não escreve nem recebe mais carta. Ele não sente como antigamente. Há muito passou a apenas existir no enlace – como se fosse uma mera condição fisiológica –, sem viver um romance de fato.

Ele não ama nem é amado. Ele não comete loucuras como no passado. Conhece e se envolve, mas ainda lida com um vazio estranho, que nem mesmo a escrita consegue preencher (somente aliviar).

Ele não manda flores, não convida pro cinema, não assiste ao pôr-do-sol acompanhado. Ele não briga pelo lençol ou reclama do tubo da pasta de dente. Entra e sai de casa sem dizer “olá” e “tchau”, não escuta passos no corredor nem vê a porta abrir e fica eufórico como um cãozinho.

Ele não surpreende nem é surpreendido. Ele não discute e dorme mal. Não desperta e ganha café na cama para perceber que tudo está bem. Ele não faz palhaçada na cozinha, não dança colado na sala, não canta alto no banho (para ela escutar e sorrir sozinha). Acostumou-se com a solidão, superou os estágios do medo e da adoração.

Ele não desaprendeu esses gestos. Talvez só tenha esquecido. E há algum tempo procura recordá-los.

3 comentários:

Alex Gruba disse...

essas de "lonely people", nesse caso mais específico de "lonely boy". estávamos a discutir sobre isso no trabalho essa semana. tem muito casal por aí que só tá junto pq ele ou ela (ou ainda ele e ela) tem verdadeiro pavor de ficar sozinho.
e solidão não é sinônimo de depressão, de não dizer olá, de não fazer palhaçada na cozinha. muitas vezes, acho necessário uma pessoa passar por uma fase solitária pra aprender a se amar, algo que acho fundamental pra amar outro alguém.
e chega pq hoje é sexta-feira de lua cheia!
hasta.

Mayara disse...

E o tempo se esvai junto com um músculo flácido que já bate pouco à espera de outro.

Gustavo Jaime disse...

Concordo em gênero, número e grau, meu caro Gruba. É verdade. A solidão é necessária para aprendermos a estar sozinho. Parece redundante, mas mesmo na solidão nem sempre valorizamos o estado pleno de ter a companhia de si mesmo - e sentir-se bem com isso.

Mais que tudo: a solidão é um ensaio para os momentos de partilha. Desse modo, a meu ver, cumpre-se melhor o desejo da felicidade - que é, também, a da liberdade e autenticidade.

Valeu por mais uma grande participação! Abraço!