quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O sábado que importa, não a sexta



— Quando foi que ela te disse isso?
— Pouco antes de ir embora.
— Não sei, tuas histórias parecem-me um pouco inventadas.
— E eu lá peço que acredites?
— Calma, foi só uma constatação. Não quis dizer que as inventa, e sim que pareces ter uma mente um bocado fantasiosa.
— Qualquer história é uma versão, e as versões são contadas como bem nos entende.
— Está bem, mas... qual foi mesmo a frase que ela largou?
— O que importa não é com quem...
— Ah, sim! Sim! O que importa não é com quem queres ficar sexta à noite, e sim com quem queres passar o sábado inteiro. Fónix, parece tirada de filme.
— E talvez tenha sido. Mas isso é irrelevante.
— Irrelevante? Vê lá... vocês conhecem-se na noite, saem juntos, vão à tua casa, transam, ela levanta da tua cama, solta-te uma pérola dessa e simplesmente parte, vai embora, some. Achas irrelevante?
— Mais trivial, impossível. As pessoas têm motivações diferentes, Ana.
— Tá bem, tá bem... e com este teu ar calmo queres dizer-me o quê? Que deixará esta rapariga partir assim?
— Como?
— Não vês?
— O quê?
— És muito burro mesmo, pá! Ou muito homem. Dá igual, na verdade.
— Desculpa?
— Ela quer que vás atrás dela, que a procures, que transforme-a no teu sábado.
— Haha, deves tar a gozar. Ela só queria uma foda, nada mais.
— Não, isso é o que tu querias...
— E o que quer que eu faça?
— Não sei, liga pra ela.
— Pra qual número? Ela lá deixou número de telefone? Saiu sem nem dizer adeus.
— Viste bem?
— Viste beeeeem?
— É, não há um número perdido numa cómoda ou assim?
— Pois tás-te a passar!
— Mulher é bicho apaixonado por instinto, Bruno!
— Fazemos assim: vou procurar direito. Se encontrar um papel com o número dela, ligo. Caso contrário, terás de admitir que essa coisa de a mulher agir sempre por paixão ficou na década de vinte, combinado?
— Combinado!
— Aliás, pra onde foste depois da festa? Eu tava tão bêbedo que nem te vi mais.
— Nada, fui esperar o meu sábado...

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Não, nada...


— Não, nada.
— Como “nada”? Cê tá calado desde que a gente entrou. E fica com essa cara de morto, essa cara de... bom, boa coisa não pode ser. Eu te conheço, Mano.
— Tou só pensando...
— É isso mesmo que eu tenho medo. Vá lá, diz: o que que foi?
— Nada... tava aqui pensando que a gente transa pouco.
— A gente o quê?! A gente transa pouco?!
— Ssshh, fala baixo. Não é a gente a gente, é a gente ser humano, a gente homem e mulher.
— Ai ai ai.
— Repara: a gente passa mais tempo da vida querendo que fazendo.
— Os atores pornôs não.
— É, nem as putas. Eu tou falando sério, Flá. Imagina o tanto de cara que você já quis transar e, pumba, não transou. Não transou porque socialmente a gente tem de fazer um jogo, percorrer um caminho, seguir umas regras.
— Isso é pensamento de homem...
— Duvido! Não me diz que só o homem olha para a menina no metrô e pensa sacanagem. A recíproca não é verdadeira?
— É, mas a gente pensa em qualidade, e não em quantidade, como vocês.
— Mas às vezes é preciso de quantidade para valorizar a qualidade.
— Ah, tá bem...
— Só consigo identificar o melhor sorvete de chocolate da minha vida se provar ao menos uns dez sorvetes de chocolate. E mais: só sei que é mesmo o de chocolate que gosto quando provo o de baunilha, o de morango, o de passas ao rum...
— Vê lá que esse discurso não abona nada ao seu favor, ein?
— Calma, que ainda estamos falando de sorvete, e não de picolé, por exemplo.
— Haha, tá bem. Mas quer dizer então que a gente prova pouco sorvete de chocolate na vida?
— Isso depende. Não existe um número determinado, um número certo ou errado. O que me inquieta é que quando quiséssemos prová-los não tivéssemos que dar tantas voltas. Deveríamos levar a situação com leveza e descontração.
— Que mente mais prática!
— A de todos nós. O que somos aos 25, 28, 30, 35 anos se não animais em pleno e constante cio?
— O que queria fazer: que a vida fosse um filme pornô? Que encontrasse uma mulher na padaria e, de uma só vez, lhe apresentasse a tua baguete?
— Bom, isso não soou nada estimulante... mas sim. Ter a chance de sermos menos hipócrita com a sexualidade, de encarar nossos desejos como algo natural e necessário.
— Você tem vontade de transar com aquela moça ali, a de saia marrom encostada perto da saída.
— Não. Tou contigo, oras!
— Ok, mas vamos supor que estivesse solteiro. Transaria?
— Claro! Se ela é bonita, por que não?
— Ou seja, só não transa porque tem namorada. Ou melhor, porque está com a namorada neste exato momento, senão sabe-se lá o que faria.
— Só não transo, sim, por um contrato social contigo. Mas também por um contrato sentimental comigo. Mas isso funciona para todos, para mim, para você, para qualquer um.
— Justo.
— E então? Que cara é esta?
— Não, nada.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

28

Brasília foi para mim, durante muito tempo, o meu afrodisíaco. Agora é o meu veneno. Criei, com a distância e o passar dos anos, uma espécie de repulsa pela cidade, uma repulsa que me faz tremer só de pensar em passar mais de uma semana por lá. Uma semana é o suficiente – e já está.

Mas não era assim. No auge, bem, no auge a capital federal era o meu refúgio. E o auge foi entre os 16 e 18, talvez 20. Em outros termos, enquanto meus amigos também moravam em Brasília. Hoje, após seis anos longe, me perguntam muito da saudade e às vezes finjo-a para não pensarem que sou de todo insensível.

Saudade-saudade, não tenho. Tenho uma certa nostalgia. Ou nem isso. Tenho uma vontade de reunir. De partilhar meus feitos e descobertas com a família, de apresentar amigos antigos a amigos novos, e agregar. Tenho várias nostalgias, no entanto a minha maior delas reside no presente. Quando puder juntar todos, numa grande festa de três dias, me sentirei completo. Brasília, Floripa, Lisboa e Barna num só momento.

Talvez será possível no meu enterro. Afinal, é isso que os enterros fazem com a gente: nos incluem num grande evento ao qual já estamos mortos. Até amanhã.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

27

Mulher fácil nunca me atraiu. Vocês talvez pensem que falo de uma coisa, mas falo de outra – sem saber explicar. Não é a mulher que beija após uma troca de olhares, que transa no primeiro encontro, que liga, manda mensagem, procura. Não... é um outro tipo de mulher fácil; ou quem sabe o nome seria mulher acessível.

Enfim, títulos à parte, este é o tipo feminino da nota anterior. Lembram-se que três amigas me ofereceram suas três amigas, enquanto outras duas amigas se insinuavam para mim? Pois bem, de todo este leque de opções – sem o ar pedante que possa parecer existir –, a única que estimulou qualquer atração era justo a mais difícil, a mais complicada. Porque estava lá acompanhada.

Isso não a eximiu de chegar ao meu ouvido e sussurrar que estava a ponto de me agarrar. Engraçado, porque agarrar em espanhol é agarrar, então entendi muito rápido o que se passava. Com as quatro solteiras, meu interesse foi zero, nada, nulo – com a comprometida, eis que qualquer coisa em mim acendeu-se. (E aqui vale um parêntesis: das cinco, a comprometida também era a mais bonita e atraente... além de ser mais velha, outro dos meus “fracos”.)

O fato é que voltei só para casa, como já sabem. Mas fico pensando, buscando mesmo na memória, as causas reais e fictícias do interesse pelo desafio. A verdade é que meu primeiro beijo, de algum modo, nasceu no enlace com uma menina “acessível”. E mesmo contra a vontade, beijei-a – e foi péssimo. Em outros momentos da minha vida, ainda adolescente, rejeitei ficar com algumas colegas “acessíveis” e fui veementemente sacaneado pelos outros meninos da classe.

Com o passar dos anos, descobri que o sexo com corpos “acessíveis” não tinha a mesma graça do que com intimidade e cumplicidade. Que não tem, tampouco, a mesma tensão sexual de quando existe uma proibição, um fatalismo, um receio de perda, de ser descoberto, de punição. Outra vez, e o universo masculino é dos que mais pressão social exerce, tornei-me alvo de chacotas.

Ainda preciso pensar muito para chegar próximo à razão de interessar-me sempre pelo inatingível. De tentar entender porque o acessível me desmotiva. Recordo-me agora de uma frase no caderno de uma ex-namorada de colégio: “Tente o impossível, já que o possível pode esperar”. Estou sempre tentando. Até amanhã.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

26

Tirei uma semana de folga da escrita e fui viver. Sem precisão – como diriam os navegadores. Desta imprevisibilidade nascem novos contos, o difícil é saber contá-los. E eu cada vez mais me sinto menos apto à literatura, à sensibilidade, à mágica. Estou me tornando um daqueles seres muito sóbrios e muito lógicos e muito práticos. Resumindo: um chato.

Talvez seja falta de paixão. Paixão por tudo e qualquer coisa. Agora penso na real e verdadeira causa da objetividade: acima de tudo, talvez seja falta de pausa. Não de paixão, de pausa. Nelson Rodrigues dizia que o mais importante no diálogo não é a palavra; é justamente a pausa.

Entrei num ritmo tão acelerado que perdi a capacidade de admirar. De olhar para o lado e contemplar. Sem admiração, começo a me sentir um ciborgue de ações. Odeio agir. Odeio somente agir. Sempre fui mais da emoção que da razão – e essa impossibilidade atual de abstrair as coisas tem me inquietado.

Ao mesmo tempo que estou cercado de gente, emerge a sensação de solidão. A vida é fútil? Talvez não. O meu momento é que é fútil e é mesquinho. Ontem estive rodeado de amigos numa festa ao ar livre e passei um dia excelente. Bebida, boa música, pessoas bonitas. Mas às vezes sentia que aquele ali, naquele instante, não era eu. Ou, se era eu, é um eu um pouco estranho.

Durante o evento – era um mercado de segunda mão com DJ – fui abordado por três amigas diferentes, cada uma de uma vez, dizendo que tinham uma amiga... digamos... fácil para mim. Era só eu querer. Era só eu estalar os dedos. Mais lógica, nenhuma mágica. Outras duas amigas, sem filtros, me abraçavam e se insinuavam. Muito prático, nada lúdico.

E foi neste momento que pensei na pausa e num domingo estirado ao sofá ao lado de uma mulher que realmente me cause um frio na barriga, me estimule a levantar todos os dias com um sorriso imenso, me tire o medo naturalmente. Por enquanto ela só existe na escrita. Porque a vida não é precisa. Até amanhã.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

25

Cansei do mais ou menos. Cansei do meu coração não encontrar par. Estes meses – e não ouso dizer anos para não parecer apocalíptico – têm sido difíceis. Preencho minhas vontades de desbravar o mundo exterior enquanto o mundo interior vai desmoronando aos poucos. Tornei-me mais forte, é verdade. Mas ao mesmo tempo esqueci o que é amar.

Amar, de fato. Amar sentindo o olhar de admiração. Longe do nosso hábitat, ouso dizer, o amor torna-se quase uma utopia. Ou melhor: uma paisagem. O amor transmuta-se numa pose de foto, numa capa de livro. Passamos a amar menos e ser menos amados. Amei uma única e escassa vez nestes três anos d’além mar. E talvez nem tenha sido amor – tenha sido paixão, atração, leveza.

“Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra.” A frase é do Rubem Braga, mas às vezes penso que é minha por usucapião. Quando deixei Brasília, e depois Florianópolis, tinha a convicção dos meus atos, tinha noção que era a melhor escolha, só não sabia que teria de abdicar do amor. Que esqueceria o que é amor. Se tivesse de fazer tudo de novo, não hesitaria um só instante. Apenas começo a desacreditar numa vida que imaginei que teria.

Optei por um quarto, por um emprego que paga pouco, por viver sob uma cultura diferente, com amigos itinerantes. Tudo isso em vez da rotina, em vez de seguir o rumo que normalmente a vida toma. Ah, se ao menos pudesse colocar no papel como realmente me sinto, sem escolher palavras, sem racionalizar as emoções – para que me entendessem de fato! É um desafio intenso. Pior ainda para quem está cansado do mais ou menos.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

24

Temo que estas notas percam a razão de ser. Quis voltar à escrita para me despir, para atingir algumas profundidades que limitei o acesso – porque simplesmente tenho medo do que vou encontrar. Cuido mais do estilo que do conteúdo. Quase sempre cuido mais do estilo que do conteúdo. E odeio o meu narcisismo, odeio como perco o foco da intenção pura e sucumbo às sujeiras da minha alma, às mesquinharias do meu coração, à fraqueza da minha mente.

Mas confesso, num arroubo de sinceridade: escrevo para ser lido, para extrair algum elogio de algum ser vivo que se identifica com o eu dos meus textos. Escrevo porque realmente necessito, mas também porque preciso ser lido – e de preferência comentado. Ando com um pires na mão numa súplica franciscana: me leiam, por favor, me leiam. (E agora recordo com cautela um trecho de Lispector: “Clarice dá tanto aos outros, e no entanto, pede licença para existir”.)

É como sou, é o que sei fazer – escrever. É a única coisa que sei, e coleciono sóbrias dúvidas se realmente sei mesmo. Se soubesse, penso ao final, já teriam me descoberto. Escreveria para sites conhecidos, para colunas de revistas, teria livros com compilações de crônicas e de contos, antologias poéticas. Pois em vez de tudo isso, tenho um blog – um reles e vil espaço onde deposito posts que mais parecem saídos de um diário. É um diário!

Então, devoro os parágrafos de Nelson, de Rubem, de Fernando. Devoro-os com toda a devoção de um aprendiz sem talento. Sem dez por cento do talento desses três gênios imortais. Sinto-me tão aquém que rejeito-me, censuro-me, como se a minha proibição me preservasse da dor de não ser um pródigo, de jamais vir a ser algo próximo a um escritor de verdade.

Este diário teria o intuito de descascar-me, mas nem isso eu faço. Cuido para ser quem eu quero ser. Sou um estilista, sou um racional. Sou, sou, sou. Quanta masturbação de ego! A verdade é que escrever não me acalma, me perturba. E como o amanhã alimenta esperanças de um tempo melhor, o próximo texto enche meu peito de expectativas. Mas ninguém me lê, e para que serve? Até amanhã.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

23

Os franceses chamam o orgasmo de “la petite mort”, a pequena morte. Lembrei da relação ao ver o Meia Noite em Paris, mais recente filme do Woody Allen. O personagem de Hemingway diz uma coisa parecida ao protagonista (ou será que Hemingway disse justamente o contrário?): o orgasmo é a nossa única maneira de superar o medo da morte, de esquecer-se que morremos.

Meu medo da morte apareceu cedo e perdurou até os 24, 25 anos. Não sei dizer bem porque, mas já aos oito sabia que não era infinito, que um dia padeceria. Só que não era apenas a antecipação da minha morte que tornava insuportável a sensação de término, de ruptura: o maior medo vinha ao imaginar a morte das pessoas que amo. Às vezes fantasiava um acidente fatal de automóvel em que, por azar, sobrevivia. E em nenhum outro momento a vida parecia tão sem propósito.

Quando criança, sequei todas as lágrimas numa animação chamada Em busca do Vale Encantado. É um filme famoso da minha gerção, uma espécie de road movie jurássico. Acho que pode ser descrito assim. A mãe do dinossaurinho principal morre, numa briga para salvar o sonho do filho, e desabei no mais profundo martírio. Ainda hoje, ao recordar a cena, o meu coração se contrai. Sou capaz de atravessar a Avenida Paulista de olhos vendados, mas o simples fato de sentir a ausência da minha mãe me dilacera a alma.

Não acredito em outras encarnações ou em céu e inferno. Acredito apenas que somos carne, pedaço de matéria como qualquer outra coisa. Seremos adubo ao morrer – e, particularmente, prefiro ser pó. Todo o ceticismo às vezes surge maciço e inexpugnável e me lembra, com um sorriso de canto de boca, o óbvio ululante: que somos mortais, pobres mortais; que passaremos, que não nos restará nem mesmo a consciência.

Ora, o orgasmo é uma fatia de eternidade. O filho é outro pequeno pedaço, a crença de que seremos lembrados por mais algumas décadas. A arte também é uma tentativa de fugir do anonimato e imortalizar-se. Estranho, pois cada vez me vejo mais distante da vida, mais alheio a ela e, no entanto, não tenho medo do fim como tinha antes. Talvez já tenha morrido. Talvez  naquela manhã de segunda-feira nublada de novembro. Até amanhã.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

22

Talvez por nunca ter morado fora, Vera não entendeu verdadeiramente a minha carência. A minha vontade de cuidado, de atenção, de admiração após perder as amizades que havia construído em Lisboa. Há dois anos, quando o primeiro grupo que formei em Portugal começou a desfazer-se naturalmente, o bicho da carência me picou.

Isso coincide com o tempo de ausência do país. Levo três invernos d’além mar. Mas não, eu não volto para o Brasil por conta de uma ínfima e tola carência amorosa. Ao menos é isso que repito toda vez que a ínfima e tola carência amorosa me devasta após uma relação mal desenhada, numa noite solitária ou numa nova tentativa de entrega. Vera assustou-se com a brutalidade do pedido de afeto. Eu também me assustaria.

Clàudia regressou do país tropical falando justamente dela: a carência. Havia sentido-a na pele – e teve saudade: dos amigos, da família, de mim. Mas ainda que o instinto da privação a fizesse entender o que tentei explicá-la um mês e pouco antes, Clàudia vestiu-se do poema que não conhece. “O amor fascina, mas nunca é remendo”. Disse que adora a minha companhia, mas não está apaixonada; que passa ótimos momentos comigo, mas tem medo de confundi-los com a vontade de ter alguém.

Entendo-a. Como entendo. Por alguns segundos nos fitamos um ao outro, sentados na parada à espera do ônibus que a levaria para casa – e daquele instante. Imagino agora, com o fervor da dúvida, se deveríamos nos ter beijado. Não. Melhor sem beijo. O amor não é remendo, não é remendo, não é remendo. Como o eco de uma oração, a frase me catequiza.

Volto à minha humilde e justa carência. Agora não há mais nada a fazer. A não ser reler poemas antigos que escrevi. Até amanhã.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

21

Há um poema, o final de um poema para ser mais exato, que diz o seguinte: “o amor fascina, mas nunca é remendo”. Sim, meus escassos leitores, volto ao tema do amor com uma obsessão férrea. É inevitável fugir dele. O amor regressa às minhas mãos como um bumerangue lançado no quintal de casa. O assunto me persegue, me fareja, me vigia.

Mas e o poema? Sim, o final do poema é de uma lucidez pétrea. Fascina, mas não é remendo, não é remendo, não é remendo. A repetição pendular me hipnotiza. Qualquer repetição, qualquer mentira mil vezes dita, torna-se uma verdade. Vou além: – qualquer verdade mil vezes dita torna-se um mantra, uma doutrina a seguir.

Já mencionei nestas notas numeradas uma amiga catalã chamada Clàudia. Pois antes de ela passar um mês no Brasil, eu e Clàudia vivemos uma história. Curta, leve e sem significação. “As coisa têm existência”, escreveu Alberto Caeiro. Eu e Clàudia existimos. E existimos muito bem existidos até o derradeiro e conclusivo momento do sexo.

Falem do carinho, do respeito, das afinidades. Inocência, pura inocência. Nada disso conduz o amor. Melhor: – nada disso define o início de um amor. Amor sem sexo é amizade. Mas em que parte da trama eu estava mesmo? Sim, na que eu e Clàudia vivemos uma breve história – até a hora do “vamos ver”. E o sexo aconteceu com algum atropelo de volúpia, com certa sofreguidão dos corpos nus. Não sei como descrever o que se passou. Se sei, ainda não estou apto a fazê-lo.

Todos sabemos que a primeira vez não é a ideal. A primeira vez é o joelho na costela, a diferença de ritmo, as manobras comentadas. Normal. Só a prática confia  intimidade ao ato sexual. A prática molda a relação na cama – ou a torna enfadonha. Já fujo outra vez do tema. Após a nossa primeira vez, Clàudia explicou-me que não queria se envolver, que começava a nos ver como um casal, que em breve estaria um mês longe e preferia estar sozinha. (É quando o orgulho do homem é dizimado, aniquilado, ceifado quase por completo.)

E assim foi. Trinta dias passaram e domingo ela voltou.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

20

"Te quiero!" Ela sussurrou com arrebatamento na concha do meu ouvido. Te quiero é o eu te amo em castelhano. Mas soa mais forte que em português – mais sexual. Não levei para este lado. Somos amigos. Ou pelo menos fomos. Sara foi embora de Barcelona, regressou a Trieste, levou um pouco do nosso convívio, da nossa história, das nossas personalidades. Antes berrou: te quiero! (E ainda tenho para mim que o fez porque estava levemente embriagada de nostalgia pela partida.)

Acredito mais na amizade que em qualquer outra coisa. Diria que só acredito na amizade. O amigo é um pedaço de eternidade. E, nas minhas andanças, a minha preocupação fundamental e veemente, antes de arrumar casa ou trabalho, é arrumar amigos. Tenho tido sorte. Ao meu redor, em Florianópolis, Lisboa e agora aqui, conquisto e conservo amizades reais e tácitas.

Outro dia coloquei um anúncio para vender a bicicleta e me respondeu um tal de Sérgio Nunes. Trocamos três ou quatro e-mails em castelhano até nos encontrarmos perto de casa.  Ora, pelo nome já supus: era brasileiro ou era português. Foi a segunda opção. Sérgio não comprou a bici – de fato, era pequena demais –, mas nos tornamos amigos.

Com Daniel Meirinho e Soraya Barreto foi parecido. O contato nasceu numa rede social, quando buscava informações sobre mestrados em Portugal. Daniel me explicou todos os caminhos, destrinchou as burocracias, me passou os atalhos do processo. Sem conhecê-lo, transferi R$ 1.500 à sua conta, para pagar a primeira parcela do curso. Confiei. Nele e no meu instinto.

Às nove horas do dia 4 de outubro de 2008 toco o interfone na António Pedro e anuncio minha chegada. “Olá! Sobe...”, diz uma voz feminina do outro lado. Alguns segundos depois abre a porta a Soraya, num pijama de carneirinhos – ou bonecos de neve. “Jaiminho!”, diz contente, como se nos conhecêssemos por décadas. Era um prelúdio da relação que viria. Nunca esqueço de lembrar: onde estou hoje, cumprindo um desejo íntimo, devo agradecer muito ao poder da amizade – à amizade do Dani, da Sol e de todos que cruzaram minha jornada.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

19

Sorrimos pouco, sorrimos cada vez menos e até arrisco: temos medo de sorrir – temos uma covardia hedionda do sorriso alheio. E do olá. Ninguém cumprimenta mais. Antes, ninguém entrava no elevador sem antes saudar cada um individual e coletivamente, ninguém subia no ônibus sem dar bom dia ou boa tarde ao motorista. Hoje sorrimos menos e nos cumprimentamos menos.

Já contei que quase todos os dias, de segunda a sexta, volto a pé do trabalho. É uma hora de caminhada. Andar por Barcelona é diferente de andar por Brasília. Aqui vejo pessoas – e digo mais: só vejo pessoas. Em Brasília, a paisagem é composta por aridez e carros. Mas ao mesmo tempo em que me deparo com o escoamento fluido de pessoas, não vejo uma alma. Nenhuma alma sequer.

Falta ao europeu a curiosidade do outro. Falta a invasão do seu mundo, nem que seja por um segundo. Falta a troca de olhares, a análise supérflua, o passatempo contemplativo. O europeu respeita, e às vezes respeita até demais. No espaço restrito do transporte público, qualquer toque é um pedido de desculpas. E se sorri pouco nas ruas. Quase não se sorri ao estranho. Um sorriso nunca foi uma ofensa tão grave quanto em nosso tempo.

Uma amiga catalã, Clàudia Troy, esteve recentemente no Brasil para um voluntariado. Em São Luís e pelo interior do Maranhão. Ficou fascinada pela alegria do povo miserável. Falta comida, mas não faltam gargalhadas. Sofreu com a necessidade daquelas famílias sem água encanada, sem energia elétrica, sem saneamento básico – assim como sofreu com o calor úmido e a desidratação –, porém descobriu o verdadeiro tesouro brasileiro: o sorriso.

Somos um povo que sorri na felicidade e na infelicidade, que aprendeu a rir da própria desgraça, a fazer piada da própria condição. Temos inúmeros e irremediáveis defeitos, como todo mundo, como todos os povos. Só nos custa encará-los com o semblante sério e compenetrado. Queria simplesmente passar nas ruas e sorrir para estranhos e que eles me sorrissem de volta. Simpatia também é uma forma de amor. Até amanhã.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

18

Era sete anos mais velha que eu. Era não – é. Estava casada. Mas foi crescendo uma admiração mútua tão forte, tão sincera, que já era impossível evitar de nos querer um ao outro. Seu cheiro era terno, seu jeito era seguro, sua pele era leite. E depois tudo foi despedida, foi adeus, foi desencontro, foi.

Ia dizer, equivocadamente, que fora meu último amor. Mas não – depois dela teve a Vera. E isso já leva tempo. Amor, amor, nenhum mais. Uma e outra paixão, camuflada na carência de viver sozinho e longe, em terra alheia. E por que não disse à Vera que a amava? Às vezes penso nisso e chego à conclusão que deve ter havido um motivo para a omissão.

Foi um tempo que compus muitos poemas. De 2006 até 2009 foram mais de trezentos. Uma média de cem versos por ano. E atualmente já não escrevo estrofes, sonetos, rimas – em 2010 e 2011 voltei à crônica e arrisquei-me no mundo dos contos, sem êxito. Amor é prosa, sexo é poesia? Talvez para mim a máxima sirva ao revés.

Mas comecei falando disso por algum motivo especial que não me lembro qual. Na minha mente repete-se o desfile do casal que passou por mim outro dia, de mãos atadas e sorrisos cúmplices. E sempre que vejo tal cena, com um olhar de cão abandonado, penso por que não comigo? Já tive o amor de tantas mulheres, já desfilei a mais plena admiração feminina, e, hoje, privado do élan narcisista, mendigo o sentimento pelas ruas.

É isso que virei, é isso que sou hoje: um pedinte. Estendo a mão e me curvo para qualquer possibilidade de encantamento. A admiração espontânea deu lugar a uma necessidade de gostarem de mim, a uma necessidade de aceitação. Nada mais “inatural”, mais vazio de sensibilidade e de sensações, que um amor dado como esmola. Amor não se pede – se conquista. Até amanhã.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

17

Sou um obsessivo. Um obsessivo, acima de tudo, pelo amor. Pelo tema amor. Pelo sentimento amor. Por amar. Tenho a obsessão plena e total de um mundo de amores mútuos e tácitos. De um mundo povoado por desamores – em vez de ódios e intolerâncias, de guerras e conflitos.

Sou um obsessivo pela melancolia. Diria mais: só a melancolia é real. A felicidade é uma encenação, uma crassa bandalheira. Qualquer idiota pode ser feliz – e todo feliz, ao final, porta-se como um idiota, veste-se como um idiota, sorri e gargalha como um idiota. A tristeza é mais difícil, por isso mesmo mais original, mais autêntico, mais puro.

No desalento não há tempo para fingir. Ou melhor: só há tempo para fingir. Tudo é fingimento. Não tomamos um copo d’água, não atravessamos uma rua, não cumprimentamos um vizinho sem fingir a melancolia. E fingimos tanto, e tão bem, que passamos a viver na nossa própria e íntima farsa.

Quando era pequeno queria morrer de tristeza, morrer da e para a tristeza. Disse que sou um obsessivo? Pois me penitencio: sou também dramático. Mas não é qualquer drama que me fascina. O drama tem de ser quieto e solitário. O verdadeiro drama não tem plateia – e como custa impedi-lo de ultrapassar a sua natureza de reclusão e maturação.

Escrevo isso pensando nos filmes. O cinema nos faz crer que haverá sempre uma câmera mostrando nossa tragédia ao mundo. Que seremos os coitados, as vítimas, os mocinhos. As redes sociais também ajudam na difusão dos dramas alheios: basta acabar uma relação ou alguém próximo morrer para o desalento extravasar seu caráter natural, ganhar um post e irromper em centenas de casas.

Hoje em dia, o drama é algo banalizado – eu diria jocoso até. E tudo está tão estritamente ligado, mas ninguém é capaz de perceber: a obsessão, o amor e o drama. Ninguém é capaz de viver os três estágios silenciosamente. Até amanhã.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

16

Lá estava ela, parada à minha frente com sua cara redonda. Desci do vagão e ela subiu. Cruzamos os olhares muito rapidamente e sabia, tinha certeza que a conhecia de algum lugar. Estava em Lisboa. Busquei na memória, escavei os escombros das recordações e... nada. Seu rosto virou um espectro, uma imagem recorrente, ressurgia sempre naquele mesmo instante. Não consegui me lembrar.

Talvez a conhecesse de Lisboa mesmo. Talvez não. Talvezes. Em Floripa, já cumprimentei a garçonete do Clube da Sinuca, um bar que frequentava todo fim de semana, com volúpia de melhores amigos. Era passagem de ano e a avistei na rua, vindo ao meu encontro. Abrimos um mútuo sorriso, nos abraçamos e dedicamos o melhor para 2007. Ou seria 2008. Acreditava, piamente, que era uma amiga de Brasília que não via há tempos. Era a funcionária que via sábado sim, sábado também.

Nas ruas, misturo gente de Brasília, Florianópolis, Lisboa e Barcelona. Quer dizer, misturava – mais Brasília com Floripa. Agora a logística de um oceano de distância está a meu favor. Só que minha mente inquieta trata de inventar jogos para ocupar-me do cotidiano. O mais recente, o mais novo e instigante é o dos “doppelgangers”. (Usarei este nome em homenagem à série How I Met Your Mother.)

No sitcom os protagonistas deparam-se com sósias, com clones quase idênticos deles mesmos. Na vida real, na minha vida real, tem menos a ver com a estética e mais com a maneira de ser. Talvez por segurança, talvez por passatempo, comecei a ligar personagens do meu passado e do meu presente. Talvezes.

O Victor, por exemplo. O Victor, valenciano e namorado da Anna, recifense, sempre me recorda meu primo, Rodrigo. O jeito tranquilo é parecido. Estive há dois dias na sua casa, em Valencia, e a similaridade ficou ainda mais nítida. Já o Sérgio, português que conheci há pouco tempo aqui, é uma versão de outro amigo lusitano: João Guilhoto. Demorei uns dias para relacioná-los. Até que tudo se aclarou num átimo de segundo.

Outros? O Zé, trabalhei com ele na MediaMonitor, em Lisboa, está representado pelo rapaz de óculos sentado no mesmo banco, comendo um bocadillo, quando subo a praça em direção ao metro. Vejo muito da parceria do Alex Gruba no Deh André, um pouco da Melissa na Anna Sitjes e mais um monte de parecenças que ainda não fui capaz de decifrar – o meu companheiro de piso Xevi tem o jeito de alguém, e já levo seis meses vivendo com ele sem conseguir descobrir.

De certo modo, creio que é um mecanismo de defesa o qual desenvolvi. Em Portugal, tive (tenho) pai e mãe. Aqui na Espanha encontrei bons irmãos, boa gente que também cuida de mim e se preocupa com meu bem estar. Isto é precioso. Não há nada que substitua uma amizade. A vida, afinal, é feita de presença e de histórias. E vou colecionando ambos – e preservando-os na memória com afeição.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

15

Agora paro para pensar bem: sou dos amores impossíveis. Drummond dizia que o único e verdadeiro amor é o amor impossível. Acho que nasci com ganas de não viver o amor – ou melhor: de viver o amor na essência do poeta, o amor impossível, o amor irrealizável.

Cibele foi, durante um ano e meio, do término da relação até a minha ida embora de Florianópolis, o meu verso de Drummond. O escritor mineiro nunca esteve tão certo, e nunca imaginou que teria tanto êxito quando cunhou a frase. Era agosto de 2005 e largava a vida estável, possível, real e palpável pela impossibilidade. Não a impossibilidade única e exclusiva da Cibele, mas a impossibilidade do amor em suas maneiras múltiplas e distintas formas.

O que não estava claro para mim naquela época é que não era pela Cibele que me apaixonava. Apaixonava-me pela paixão, pela capacidade que ainda tinha de apaixonar-me outra vez. Antes do outro, antes da pessoa, é pelo sentimento que nos enamoramos. Sentia, a partir dali, que minha vida podia ser mais – estava além do script previamente definido. Minhas vontades reacenderam-se com força. Vontade de viajar, de mudar, de experimentar. No entanto, uma vontade sobressaía acima de todas: a da solidão.

Ouso dizer que, depois disso, minhas paixões só deram certo porque deram errado. Porque continuei conservando a solidão. É muito mais fácil assim. Ainda que de um ano e meio para cá eu esteja disposto a viver a dificuldade.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

14

Meu primeiro amor real e concretizado media 1m59cm e tinha 15 anos. Eu também era um garoto saindo da puberdade. Ficamos juntos por pouco mais de meia década. Entrei menino na relação e saí homem. Tudo que vivemos juntos ficou marcado para sempre – e sempre ficará.

Às vezes penso, num sentido geral e amplo da coisa, onde será que um relacionamento finda, termina, dissolve-se? Não sei. Realmente não sei. Serão as traições tentativas de resgatar o enlace? Nelson diz: “Trair um amor é uma impossibilidade. Mesmo com outra mulher é o ser amado que estamos possuindo”. E talvez possuímos alguém fora porque o amor tende a matar o desejo; o amor caça e abate o desejo numa terça-feira durante o jantar, no intervalo do Jornal Nacional, antes de começar a novela.

Meu amor pela Rayane não havia morrido quando meu chão tremeu por outra. O desejo, o encantamento, é que sim. E não fiz nada, absolutamente nada que pudesse magoá-la e arrepender-me. Ao menor sinal de uma paixão para além do namoro, olhei para dentro: e descobri um abismo. O paradoxo é das sensações mais estranhas que há. Sentia-me firme, convicto, certo da opção. Ao mesmo tempo, as dúvidas, a insegurança e o medo invadiam-me repentinamente.

Tinha 23. E ela estava sentada no outro canto da redação. Já não conseguia concentrar-me no texto. O trabalho acumulava. Tinha de entregar a matéria – nesta época estava muito infeliz e arrastava-me na editoria de Cidades sem nenhuma vontade de lá estar, enquanto pela manhã fingia divertir-me na manufaturação de um caderno para jovens.

“Mulher. Mulher e pombos. Mulher entre sonhos. Nuvens nos seus olhos? Nuvens sobre seus cabelos. (A visita espera na sala; a notícia, no telefone; a morte cresce na hora; a primavera além da janela). Mulher sentada. Tranqüila na sala, como se voasse.” Cibele. Chamava-se Cibele.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

13

Mas voltemos ao tema relacional. Sandryne Barreto, única e numerosa sobrevivente da época de D’além Mar, me escreve a dizer que sou imbatível nas minhas crônicas de amor. O que Sandryne não sabe é o perigo que expõe a todo e qualquer visitante deste blog – um escritor, ainda que seja um pseudoescritor como eu, tem no elogio o afrodisíaco fundamental para sua obsessão.

O cronista, o contista ou o poeta, principiante ou sênior, renomado ou anônimo, é guiado e desviado pelo ego. Seu ego é um pequeno Cristiano Ronaldo dentro de si. Cada um que escreve carrega um orgulho uníssono e ecoante do que escreve – e ainda que abaixe as orelhas e vire a barriga numa falsa humildade, não passa de um cão esperto pedindo carinho, aceitação e reconhecimento.

O que queria dizer mesmo é que depois da Petra e da Ana Luiza tive inúmeras e escassas paixões. Lembro-me da Marianne – parecia uma boneca de porcelana: tinha duas bolas rosas nas bochechas e olhos amavelmente dóceis. Contavam-se muitas histórias de suas, digamos, safadezas na escola. Aquilo fascinava os garotos da minha idade. Não a mim. Preferia continuar vendo-a como uma santa – e este sempre foi o meu pecado mortal com as mulheres: procurar nelas as faces mais brandas e gentis.

O feitiço de Marianne se quebrou após nosso primeiro beijo. Ela não sabia beijar. Seu beijo era afoito e apressado. Era um beijo enfermo, respirando com ajuda de aparelhos, sem beijo. Depois dela, vieram outras bocas que simplesmente não se encaixaram com a minha. Meu beijo inaugural, aos quinze anos, já havia sido um desastre – e começava a pensar se haveria no mundo mulher que soubesse beijar, se os beijos de cinema existiam deste lado da tela.

Até que conheci a Rayane. Eram os tempos do disquete.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

12

“O mar, antes de ser paisagem, foi cheiro.” Leio isso com uma efusão juvenil e vejo em mim uma similaridade ultrajante. Antes do olhar, do toque, do sabor, do ouvido, sou cheiro. Sou e sempre serei cheiro. E que engraçado – agora penso: o olfato, justo o olfato, é meu pior sentido.

Não sou dos melhores farejadores. Basta contar que tenho rinite e desvio de septo. Mas o bom aroma seduz mais que a beleza em si, o odor induz a vivências esquecidas, olvidadas, engavetadas na memória e conta mais histórias que mil e uma Sherazades. Acho uma pena o cinema não ter cheiro, a música não ter cheiro, a foto não ter cheiro.

A literatura, sim, tem cheiro – e contestarão alguns que as imagens também o tem. No entanto, um perfume anterior ao conto, ao romance, à trama. O cheiro do papel vai variar pouco, ou quase nada, dependendo do livro. Depois da quinta obra, da décima edição lida na vida, tudo emana o mesmo aroma. (E se lembramos do primeiro livro não será pelo seu cheiro, se não pelo seu conteúdo.)

Ainda tenho impregnados em mim os perfumes das mulheres que me marcaram. Às vezes, caminhando na rua, sinto, simplesmente sinto com o vento que traz, o fulgor do aroma de uma. Tem vezes que desperto com o travesseiro exalando a doçura de outra, ainda que o travesseiro nunca tenha conhecido seu cheiro. Farejo as presenças individuais e abundantes no ar, nostálgico, com a vontade de possuir novamente aquelas fragrâncias femininas, fragrâncias que são espectros diurnos e noturnos.

Começamos pelo mar e terminaremos por ele. Antes de ser paisagem, para mim também é cheiro. Já não posso viver afastado da praia – da areia, da água fria, das ondas, da espuma, das gaivotas, dos barcos. E sabiam que nunca, mesmo vivendo há seis anos no litoral, nunca transei diante do mar. Penso que tenha sido falta de oportunidade. Ou melhor, acho que é receio de juntar vários perfumes máximos do amor – pois quando acontecer... Afinal, o sexo  também tem um cheiro próprio, assim como o instante que antecede o beijo.

Mas vamos parar por aqui. Isto está me cheirando não ter fim.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

11

O que mais me fascina, diante de tantas perdas ao longo de nossa vida, é a sutileza das coisas. A sutileza do destino. Não quero dizer, com destino, que exista uma divindade ou um caminho marcado. Longe disso. Pensando assim menosprezamos o sentido mais natural e básico da nossa essência: o incógnito.

Não sabia que aquele livro de capa dura mudaria minha vida aos 12 anos. Acho que era essa a minha idade. Um dos autores era Nelson Rodrigues. O outro, Mario Filho – que até então desconhecia ser seu irmão. Aquelas crônicas apaixonadas, ficcionais, metafísicas, metafóricas, deslumbrantes sobre futebol acordaram-me para uma paixão hibernada: a escrita.

Creio que nascemos com várias aptidões. Melhor: nascemos com múltiplas e desconhecidas predisposições para triunfar em algumas áreas – ou, simplesmente, atrair-se por elas. Até os 12 não fazia ideia que alguém pudesse escrever sobre o esporte mais popular do planeta como se estivesse num teatro grego. Para Nelson, qualquer pelada de rua tinha uma complexidade shakespeariana – e, garoto, bebia aquelas palavras como se fossem a minha salvação.

Naquela altura, tinha um único e escasso objetivo: ser jogador de futebol. Quando, meia década depois, tive de colocar a pedra fundamental no sonho de infância e escolher a faculdade que faria, foi nos irmãos Rodrigues que me inspirei. Enquanto não alcançava a editoria de Esportes, brandia contra chefes e subchefes, uns pulhas, uns imbecis, pela falta de oportunidade. Foram outros cinco longos invernos do início dos estágios no jornalismo até fixar-me na seção – no Diário Catarinense, com o editor Ewaldo Willerding.

Podia, finalmente, seguir a trajetória desportiva de Nelson. E a segui. Por um ano, era para ele que batia toda e qualquer nota do diário. Procurava enxergar o jogo com a sua óptica de ficcionista, buscando não apenas o atleta – minha obsessão era a figura humana. Quando larguei a redação e fui fazer um mestrado em Lisboa, não hesitei um só minuto no desejo de escrever uma tese sobre isso, justamente sobre o Anjo Pornográfico. Em 2010 nasceu “O triunfo do homem nas crônicas esportivas de Nelson Rodrigues”.

Há dois dias, 23 de agosto, foi seu aniversário. Se estivesse vivo, completaria 99 anos. Nelson é tão presente no meu cotidiano que às vezes conversamos, outras vezes almoçamos juntos, e até das minhas paqueras ele participa. Pode estar ausente em carne, mas a alma – ele me ensinou –, a alma, meus amigos, é imortal. Até amanhã.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

10

Ah, Mourinho... Faz tempo que não nutro um ódio tão grande por alguém no futebol como começo a nutrir por você. Juro que estou aqui me segurando – me segurando para não escorregar para o assunto futebol, me segurando para evitar que a raiva, ou seja lá o que sinto, invada este espaço.

Você podia ser o que fosse: verde, negro, amarelo; italiano, tailandês, porto-riquenho; ator, político, porteiro. Não mudaria a minha opinião. Você representa um tipo vencedor, desses extremamente competentes, com o triunfo a vigorar na sua fronte, com o peito estufado de honra – é a glória em movimento. E, por isso mesmo, nutre meu repúdio.

Enxergo vários de você por aí. E não gosto das pessoas lógicas. Retificando: não gosto das pessoas exacerbadamente lógicas. Você pode ser o sujeito mais sentimental do mundo fora do campo desportivo, mas enquanto atua no gramado – e fora dele – vê sempre e tão-somente o êxito. Atropela seja quem for, quais forem os princípios, para alcançá-lo.

Ouso dizer, no calor da minha vida recheada de insucessos materiais, que a sua grande derrocada foi a sua coleção de glórias. Um homem tem de perder para saber ganhar, tem de cair para se levantar. E você não – viveu anos e anos com o esplendor a fazer-lhe companhia, num entusiasmo que parecia infinito, intransponível, invencível. Quando tombou, e se viu falível, apelou para a sua podridão, para o lixo que preenche todo e qualquer ser humano: a inveja lhe corrompeu, a falta de humildade lhe dissuadiu.

A sua fábula é a fábula de muitos. Você, caro Mourinho, tem os olhos cravados no êxito, não importam as consequências. Ontem, numa nota de imprensa, afirmou que não sabe o que é a hipocrisia. E só aí já está a ser um convincente hipócrita. Cale-se, José. Pelo bem do futebol – um esporte que, não sei se sabe, mas não foi inventado por si –, volte a dedicar-se ao jogo, em vez de perder-se no ópio da competição. 

O mundo está cheio de Mourinhos a nos meter o dedo no olho.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

9

Confesso que minha imaginação não é lá muito fértil. Ou é, mas já me habituei a ela. Tenho o costume bobo de fantasiar um jogo, uma espécie de jogo, com seres em miniatura percorrendo estantes e prateleiras, desviando de objetos, saltando ao umbral da porta, descendo pela cortina da janela... Enfim, isto escrito faz menos – ou nenhum – sentido.

Mas mencionei essa viagem da minha mente para perguntar: por que a vida não é um musical? Sim, acho que me entenderam. A vida nas ruas, esta monotonia sem fim, deveria transfigurar-se num musical, ora essa! E que mal teria de as pessoas atravessaram a faixa de pedestre na melodia de uma valsa, ou esperar um ônibus numa coreografia mútua de swing, comprar jornal sapateando como o Fred Astaire.

Nas horas que o som invade meus tímpanos e caminho solitário na multidão, imagino todos os movimentos coletivos e ritmados. A moça bonita, o homem de terno e gravata, a criança, o velho, o cachorro. Todos dançando. Não um musical bonitinho da Disney, mas um videoclipe do Michael Jackson ou o “Twist and Shout” do Curtindo a Vida Adoidado – uma pausa aqui: um dia ousei dizer a amigos que fazem cinema que Curtindo a Vida Adoidado era a melhor película de sempre; só não fui linchado em via pública por amizade, e diria mais: por compaixão.

A vida deveria ser um musical, bolas! E é aí, só aí, que minha imaginação funciona e cria toda a cena com minúcias de detalhes. Meu musical alegre e cheio de esperanças se chamaria Até amanhã. Como na letra de Noel Rosa: “Eu sei me livrar do perigo/Num golpe de azar eu não jogo/É por isso que risonho eu te digo/Até amanhã, até já, até logo”.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

8

Eu não acredito em amor eterno. Antes disso: acho o amor eterno uma crassa e inepta mentira. Já vivi o amor eterno e ele se desgastou, se esgotou em si mesmo e terminou após seis anos. No cinema, venhamos e convenhamos, no cinema ele só dá certo porque o filme acaba, porque os créditos sobem na grande tela e os holofotes rompem a escuridão da plateia.

Uma vez cri na infinitude do amor. Uma vez não – várias. Era jovem (talvez ainda o seja) e imaginava que teria uma mulher, uma única e numerosa mulher, em toda a minha trajetória romântica. Sempre a busquei, e o pior: continuo buscando-a. No meio do caminho, apaixonei-me por quem prezava e desprezava meu sentimento, por solteiras e comprometidas, atrações reais e imaginárias.

Tenho um sem-jeito patético para tal coisa. Se tiver de cravar o início de tudo, direi que foi aos treze. Aos treze anos o homem é o sujeito mais solitário do universo. Recordo-me da colega de inglês – parecia uma bailarina de caixinha de música. Justo no primeiro dia de aula encendeu-se a paixão. Chamava-se Petra.

Petra nunca soube do meu amor mudo por ela. Sempre nutri pelos meus alvos uma rejeição tola. Quanto mais gostava, menos palavras dirigia à garota. Nem um simples olhar, nem um mero sorriso. Ignorava sua presença por uma timidez inexpugnável – hoje o meu sem-jeito continua, mas em vez do distanciamento, acerco-me com toda e qualquer volúpia, e as coisas se passam na minha mente com uma intensidade aterrorizante antes de tornarem-se palpáveis.

Entretanto, a paixão por Petra passou, ou foi substituída por uma paixão pela sua melhor amiga: Ana Luiza. Talvez tenha sido a primeira mulher que realmente amei. Ainda em silêncio, ainda num acanhamento fatídico, tendo Antes das seis, do Legião Urbana, como música de fundo (lembro que a escutava sempre ao dormir, num roteiro pobre de filme tipo B). Mais tarde, Ana soube dessa admiração. E pior: descobri que era mútua, era recíproca, era possível de se viver. E por medo de arriscar, por medo do ridículo, não me expus. Até que jurei que não perderia mais chances como essa.

Tardaram outros treze anos para finalmente conseguir acatar a promessa. E o que aprendi é que o amor eterno não existe se realizado. O amor eterno só sobrevive se não acontecer.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

7

A minha identidade culinária é emprestada. Disse emprestada? Não, é roubada mesmo. Penso nisso enquanto faço uma torrada e separo azeite e sal em vez das tradicionais manteiga e margarina. Descobri há um mês o prazer dessa junção simples com o pão. Ensinamento catalão.

É que o meu documento gastronômico foi roubado das mulheres que passaram pela minha vida. Disse roubado? Talvez tenha sido uma troca, um intercâmbio, um escambo. Entrei com conhecimentos que desconheço quais e elas agregaram ao meu histórico da cozinha aquilo que sabiam.

Para fazer o feijão, por exemplo, amasso alguns grãos no fundo da panela. O caldo fica mais grosso e consistente. Também adiciono bacon e paio – numa minifeijoada que aprendi com uma ex-sogra. Sua filha partilhou um “segredo” do molho branco: quando começar a ferver, diminuir o fogo e colocar o queijo ralado. E tantas outras coisas que já se incorporaram ao meu dia a dia de avental.

Escrevo este texto com um olho no computador e outro no fogão. É que de tudo que me ensinaram esqueceram-se de lembrar que preciso vigiar o que faço. Nesta parte sempre me dou mal. Saio, vou fazer outra coisa e a comida queima.

Uma vez, na virada de 2000 para 2001, resolvi passar sozinho na casa em Brasília. Éramos eu e uma pizza de calabresa congelada. Liguei o forno, sentei na frente do chat (naquela época ainda era o mIRC ou o ICQ) e só levantei para dispersar a fumaça da cozinha e acudir a massa já negra. O jeito foi comer aquele pedaço de carvão – algo que se repetiria muitas outras vezes na minha vida. E ainda hoje se passa. Até amanhã.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

6

Ontem escrevi sobre a minha aversão ao brasileirismo das massas – e venhamos e convenhamos: o brasileiro não sabe andar em bando; em bando nos tornamos uns animadores de torcida, uns quadrúpedes de duas pernas. Mas quero fazer uma retificação válida e a tempo: somos de uma hospitalidade plena e comovente. O brasileiro nasceu para agregar, para abraçar, para unir.

Lembro do Zoltan, um húngaro que resolveu se aventurar no país tropical – ainda que fosse o clima desértico de Brasília – quando tinha 16, 17 anos. Estávamos no segundo grau, e meu colégio já havia recebido chilenos, colombianos, alemães, americanos, australianos e canadenses: mas nunca um húngaro. Nunca um único e escasso conterrâneo de Ferenc Puskás. E agora fico mesmo na dúvida se o seu nome era Zoltan, se tinha este nome de extraterrestre.

O fato é que o rapaz chegou falando uma língua que ninguém compreendia, balbuciava palavras amistosas que pareciam insultos, mas ainda assim todos nós fizemos questão de incorporá-lo ao nosso cotidiano. Em poucos dias Zoltan já era da turma – participava da pelada do intervalo (cada vez mais rara pois o interesse pela bola transferia-se agora às meninas), dos churrascos de fim de semana, das viagens da gincana. Seu fascínio pelo Brasil, pelo brasileiro, pela cordialidade tupinambá crescia em ritmo geométrico.

Não sei que fim levou Zoltan. Se regressou à Hungria, hoje deve ser um cônsul verde-amarelo, daqueles que carregam um pin com a bandeira canarinha em seu conjunto Armani. Sei é que outro estrangeiro, amigo pessoal e intransferível, repete como um papagaio de pirata que seu futuro é na terra brasilis. O Alessandro Fumo, com este nome inconfundível de italiano, hoje vive em Lisboa – e nossa saga em comum pela capital lusa rende um bom texto –, mas não esconde que sua paixão pelo Brasil continua forte.

Ele viveu por lá alguns anos, aprendeu português na marra e pelas gírias, e esteve enamorado por todas e cada uma das brasileiras. Aliás, este é outro tema que também dará muito caldo para outras crônicas. Todas minhas amigas d’além mar me perguntam com os olhos rútilos e os lábios trêmulos: — E então, nós ou elas, nós ou elas? Querem dizer: as brasileiras ou as europeias?

Respondo com a desfaçatez de um malandro carioca: — Vocês, claro! Sempre vocês! Mas se esquecem que sou brasileiro: generoso e agregador. Até amanhã.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

5

Sou o brasileiro mais antibrasileiro que conheço. Não tenho nada contra o indivíduo, o particular, o ser: meu problema são as massas fluviais e burras. O brasileiro junto de outro brasileiro é um estúpido de babar na gravata – e só não anda de quatro porque ainda lhe resta alguma dignidade humana.

Disse brasileiro e reforço: o brasileiro do exterior é ainda mais brasileiro, mais pulha, mais desprezível. Vivo há três anos entre Portugal e Espanha, já percorri outros países europeus, estive nos Estados Unidos e conheci boa parte do Marrocos, e minha experiência tupiniquim é, digamos, uma antiexperiência. A vontade de exibir-se brasileiro em terras estrangeiras nos torna uns macacos de circo.

Antes que os idiotas se amontoem num furor épico, entenda que meu discurso não enaltece ou enriquece o sujeito do Velho Continente. Muito menos despreza as minhas raízes. O brasileiro precisa aprender a receber críticas de outro brasileiro – e criticar o brasileiro – sem sentir-se perseguido pela nova inquisição. Qualquer um já quis fugir do Brasil, já quis largar o Brasil, desejou ferozmente abandonar o tropicalismo.

Por essas e outras que fujo das multidões errantes em verde-amarelo, das orgias de brasilidade, da masturbação coletiva de ego. Só alcançaremos, de fato, o respeito e a confiança no dia em que soubermos nos comportar diante do outro, da diferença, do incomum sem a ansiedade eufórica e insensata de desfilar nossos estereótipos. Somos um povo alegre por si só – não precisamos estar sempre com um sorriso de plantão.

Enquanto legitimarmos os lugares-comuns seremos sempre e eternamente o antiBrasil, o Brasil das contradições de ordem e progresso. Até amanhã.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

4

Quando pequeno, antes de dormir, no escuro total do quarto com a luz recém-apagada, tinha medo de ter ficado cego. Procurava um sinal e quase sempre me deparava com os números encarnados do rádio-relógio. Mas era um medo fascinante, um medo de uma euforia contraditória da realização. Admito: gosto do drama; vivo a felicidade na carne, porém a melancolia absorve a minha alma.

Mais que ficar cego, meu encanto era ficar paralítico. Ouso dizer: com nove, dez anos eu quis ser paralítico, um eterno e terno paralítico. Imaginava-me afundado numa profunda e inviolável depressão, tendo meu sonho de ser jogador de futebol findado, dizimado, dilacerado na imobilidade das pernas – e o espanto, a tristeza, a falta de sentido para a vida. Imaginava tudo isso e um desejo possuía-me a espinha. Desejo de ser paralítico.

Seria visto e comentado com pena pela família e pelos amigos. E depois, pouco a pouco, retornaria ao dia a dia com um sorriso débil, buscaria forças para aprender outros esportes, colocaria minhas angústias no papel, me tornaria um modelo de superação, de volta por cima. Abandonaria de vez e para sempre a própria piedade e reivindicaria melhores acessos públicos aos cadeirantes, mais respeito e ensinaria aos ignorantes que a nossa vida é igual.

Na minha cabeça tinha tudo articulado. Uma vida exemplar, do herói marcado fisicamente e renascido da adversidade. Admito que até hoje ainda imagino essa trajetória, ainda penso que talvez acabe numa cadeira de rodas. Não posso ver alguém em muletas: homem ou menino, moça ou senhora – tenho um acesso de emoções que não são compassivas. Justo eu, que nunca quebrei um osso. Minha vontade é pegar as muletas e sair mancando por aí, enquanto todos cochicham uns aos outros: “Nossa, um rapaz tão novo... o que será que lhe aconteceu?”. Até amanhã.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

3

Foi um pensamento que me assaltou: eu não tenho a vocação de sedutor. Claro que já sei disso há muito tempo, mas constatei num arroubo fatal e libertário enquanto pensava na noite de quarta, ou melhor, em todas as noites. Vejam o André, amigo recente de Barcelona, com sua estirpe de Alfie – não o E.T. da série, mas o personagem vivido primeiro por Michael Caine e depois por Jude Law no cinema –: basta um sorriso e tem todas as mulheres aos seus pés.

Eu não. Conjugo o verbo seduzir de forma irregular, e só seduzo num terceiro, quarto, quinto momento. Mesmo assim sem sedução. Minha volúpia de Casanova é quase nula, ainda que faça parecer o contrário – e, de fato, faço crer que estou à vontade neste ofício malandro típico do brasileiro. Escolhi nascer poeta em vez de canalha. Se Deus se voltasse para mim agora e me perguntasse o que queria ser, responderia numa efusão ecumênica: — Canalha! Mil vezes canalha!

Nas ruas chega a ser patético. Atraio o olhar de mulheres mais velhas, às vezes quinze, vinte, trinta anos além da minha idade, como se reconhecessem na minha face crispada e nos fios brancos que brotam na cabeça a reencarnação do Paul Newman. Em outras palavras, sem querer, seduzo as gerações que não pertenci. Estou fora do meu tempo. (Aqui vale um parênteses: sempre cativei uma confiança assustadora das minhas sogras; mais que sogras, tornavam-se minhas admiradoras natas e hereditárias.)

Devo ter também na fronte um selo de fiabilidade. Uma vez, entre pedaços de melancias, uma recém-conhecida – e quando digo recém-conhecida quero dizer que era a primeira vez que nos víamos e levávamos cinco minutos de conversa – contou-me que seu namorado não lhe batia na cama. Ela queria sexo selvagem e ele insistia no carinho. Três ou quatro dias depois, outra conhecida revelou-me que depois que casou seu marido abdicou do sexo. Sua frase foi: “Ele não queria me comer mais...”.

A última foi agora, há poucos dias. “Olá, sou fulano”, “Oi, me chamo beltrana”, algumas cervejas entre amigos, uma ou outra conversa jogada fora e a confissão, assim do nada: “Meu namorado batia em mim, emagreci oito quilos com depressão, hoje ele tem de manter uma distância de xis metros, ainda estou me recuperando de tudo”. Oras, sou jornalista, cronista, vagabundo, e não psicólogo, padre, barman. E, venhamos e convenhamos: isto não é nada sedutor. Mesmo quem tem pouca inclinação para a coisa sabe. Até depois de depois de amanhã.