segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Abandonada no interior


Ela confiou nele. Confiou no homem que dizia amá-la. Depois de seis meses longe um do outro, pegou a mala e mudou de país. Foi encontrá-lo, numa cidade pequena do interior, com algumas peças de roupas, dinheiro contado e muita esperança.

Por amor. Ela fez isso por amor. E deu com a cara na porta. Ele passou o endereço da casa, mas não a recebeu como jurou que faria – mesmo insistindo para que eles vivessem juntos, desacreditou na coragem dela. Rejeitou a mulher que um dia confessou querer casar e ter filhos.

Ela ficou sem teto, sem rumo, sem sonho. Ainda se ergue do baque. Não quis voltar ao lar, à cidade-natal – a família não sabe da verdade. Prefere reconstruir os dias na vila pacata. Fez amizades puras, voltou a sorrir com leveza. Amou e arriscou. Final feliz é pros contos de fadas.

sábado, 29 de janeiro de 2011

A sina de ser o outro


― Porra meu, este negócio de amor é complicado demais!

(Desabafava por telefone com um amigo distante.)

― Eu nunca acerto uma. É uma sina, uma coisa que me persegue. Interesso-me por uma garota e ela já tem alguém, já tem namorado.

(Ouvia o silêncio como resposta e não se calava.)

― Lá se foi outra... outra paixão não realizada, outro conto desperdiçado.

(O amigo rompeu a mudez e resolveu intervir.)

A paixão é uma espécie de sonho que se deteriora com a realidade, parece sempre exigir sua frustração, sua impossibilidade de realização. Melhor assim, melhor que fiques com as lembranças na sua cabeça. E mais nada.

― E o amor? Nunca vou experimentar uma história de amor?

O amor feliz não tem história. Só o amor ameaçado é digno de um romance. Não é o que pretendes ser? Um escritor? Aprenda com tudo isso.

― Para quê? Afinal, de que vale aprender a amar?

― Não, isso nunca se aprende. O amor sempre permanecerá impermeável à experiência. Aprenda a seguir sem ansiar. Um dia teu coração se acalmará das dúvidas.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Ligação à meia-noite


Na bolsa, algo tremeu. Era o celular. Na busca, esbarrou na tecla verde e disse “alô” na incerteza de quem estaria do outro lado. Um ex. Era um ex-namorado que ainda mexia com ela.

Os ponteiros cruzavam a meia-noite de uma sexta-feira.

― O que tá fazendo? ― ele quis saber.

― Não estou na cidade ― ela devolveu, ressabiada.

Ainda jogaram conversa fora por alguns minutos. Falaram de trivialidades. O que esperar de uma ligação daquelas?

― Homem para ligar nesta hora quer sexo! ― alertou uma amiga.

― Espera e veja se ele liga de novo outro dia ― ponderou a outra.

Podia ser apenas curiosidade, mas para chamar no início da madrugada era bem provável que ele só quisesse mesmo “dar uma”.

― Por que você não convoca uma das suas amiguinhas? ― ainda arriscou, meio desinteressada, meio ávida pela resposta.

― Porque com você é diferente. Com você tem conexão.

Na sexta-feira seguinte, mandou um SMS para ele:

Oq cê tá fazendo?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Sunga ou bermuda?


Pode não causar batalhas campais entre as mulheres, mas que há uma divisão sabida e notória, isso há. Algumas preferem homens de sunga na praia, outras de bermuda. Afinal, o que é mais “aceitável”?

As defensoras da sunga criticam as coxas brancas. Dizem ser mais sexy o rapaz ostentar as pernas bronzeadas. “Nada de tanga, porém!”, fazem coro. É o sungão que elas apreciam.

Já as bermudófilas acham que homem que é homem não tem dessa. Usa os calções e pronto, bem ao estilo surfista. Lisos ou estampados, tanto faz. Tem de ter aquele caimento bacana e a praia fica livre do perigo de um “show de horrores”.

E vocês, mulheres aqui atuantes, levantam qual bandeira: sunga ou bermuda?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O problema são as mãos


Ela só queria ser tocada com paixão, queria ser admirada, sentir-se importante. Em vez disso, o namorado insistia em um detalhe esdrúxulo, como um disco insuportavelmente riscado:

― Suas mãos... Têm algo de estranho nas suas mãos, elas têm muitas veias. Não sei bem o que é, mas são estranhas.

Ela se diminuía e pensava logo que era toda horrorosa. Os olhos, a boca, o nariz, o cabelo, as orelhas, os ombros, a nuca, o quadril e as pernas entravam na conta da “feiúra”. Mal reparava nos homens que a secavam na rua, que torciam o pescoço quando ela passava, dada a sua beleza exótica e fatal.

― Minhas mãos, o problema são as minhas mãos... ― repetia com penar.

Até a noite em que ele as acolheu e beijou-as com tenacidade, supondo ser a primeira e última vez que as teria. Seus dedos amarraram-se perfeitamente e a madrugada desfez-se naquele instante. Tocou seu corpo, admirou seu rosto e a fez sentir importante como nunca. Suas mãos eram lindas. Ela, mais ainda.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Corda do mundo


― Toda história, qualquer história, nasce por causa de uma garota. Seja um épico, um drama, uma tragédia, uma comédia, um suspense, uma aventura... É o interesse de um homem numa mulher que dá corda ao mundo.

Continuou:

― As descobertas científicas, as conquistas territoriais, os feitos máximos, as mais estúpidas guerras... Tudo é resultado dessa tensão, desse tesão. Um amor não correspondido, uma paixão devastadora, cria poemas e estimula inventos. Modifica toda a humanidade.

E finalizou, antes do adeus:

― Não há outro motivo mais vital pra um homem que uma mulher. Ao longo das décadas, dos séculos, do tempo, nós governamos o mundo com um único e escasso propósito: satisfazê-las. Até hoje é assim. E nunca deixará de ser.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Medo de amar


Recebeu um e-mail anônimo. Talvez nem fosse endereçado a ele. Hesitou por um instante, mas leu: “Queria sentir alguma coisa tão intensa que me virasse do avesso. Mas eu tenho medo”.

Experimentou a compaixão avassaladora por aquelas palavras. Teve vontade de contestar: “Pois não sinta. Não sinta medo por querer amar e ser amada. O amor pode ser perigoso, pode ser fatal, pode ser difícil e assustador, mas é das coisas mais profundas e revigorantes que há. Não sinta medo. Você não está só”.

Sabia o impacto da resposta, e não teve coragem de dar esperanças a ela. Afinal, o que ele sabia do amor? Pouco. Quase nada. Apagou a mensagem equivocada e continuou a fingir que era feliz.

sábado, 22 de janeiro de 2011

"Você é o Indiana Jones?"


Era um reencontro após anos. Ele agora tinha 29. A diferença de idade entre os dois era a metade disso. Já com alguns fios grisalhos e rugas tímidas, ouviu a curiosidade do garoto:

― O que você faz da vida?

― Nada. ― ele respondeu ― Não tenho feito nada, a não ser percorrer o mundo, passar um par de anos em uma cidade distinta.

― Como o Indiana Jones? ― quis saber o jovem.

Riu pela ingenuidade. Não era um intrépido aventureiro ou um professor conceituado. Muito menos um maluco de chicote e chapéu, apesar de certa dose de loucura.

― E não viramos um jornalista esportivo reconhecido?

― Não.

― Um escritor de destaque?

― Também não.

― Jogador de futebol? Cantor de rap? Nada do que imaginei aos 15?

― Não. Viramos algo melhor que tudo que imaginamos aos 15. Você vai ver. Basta ter paciência.

― Não acredito! Eu sou fotógrafo da Playboy!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Mulheres mais novas


Ele é perspicaz. Gosta de mulher mais nova que ele. Na casa dos 20. Se estiver na faculdade, melhor ainda. Dá um ar de irresponsabilidade, de loucura. Mulher universitária é menos seletiva e tem aquela inocência divertida. Ele pode ser o seu tutor. Inclusive sexual.

Mas ele é perspicaz. Porque em muitos períodos da vida foi a festas badaladas, para conhecer as mais novas. Na casa dos 20. Se estiver desempregada ou num estágio, é perfeita. O dinheiro dele trará bem-estar ao ego. E ela sempre vai dispor de acompanhá-lo, não desgrudar, como se não houvesse amanhã. A saudade será sentida até nos três rápidos minutos em que ele for ao toilette.

Mas ele é perspicaz. Gosta de mulher mais nova. Na casa dos 20. Se for gostosa, se for um pouco ciumenta, se estiver descobrindo a boa música, boa literatura, bom cinema, se mantiver alguns sonhos da adolescência, excelente! Ele vai rejuvenescer e pode ensinar e aprender muito com ela.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Mulheres mais velhas


Ele é suspeito. Gosta de mulher mais velha que ele. Na casa dos 30. Se tiver um filho, melhor ainda. Dá um ar de responsabilidade. Mulher com filho é sexy e é tenro. A combinação ideal para qualquer uma. Mulher com filho já tem de quem cuidar. Não precisa fazer dele um “bebezão”.

Mas ele é suspeito. Porque na sua vida sempre se envolveu com mais velhas. Na casa dos 30. Se tiver uma vida financeira estável, é perfeita. Afinal, dividir a conta também é bacana. E ela precisa ter noites só com as amigas, ir ao cinema, discoteca, restaurante. Ele almeja a mesma independência, o que não pressupõe autossuficiência.

Mas ele é suspeito. Gosta de mulher mais velha. Na casa dos 30. Se for bem resolvida emocionalmente, se já superou aquela insegurança de adolescente, se sabe cuidar e ser cuidada, se não faz joguinhos relacionais, excelente! Ele vai amadurecer e pode aprender e ensinar muito com ela.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Tem de ter o que apertar


― ...mas é óbvio, rapaz! Tem de ter o que apertar! ― escutou do homem de terno e gravata que abandonava o caixa eletrônico enquanto falava ao telefone.

Aquela frase de efeito povoou seus pensamentos mais vagos no decorrer do dia corrido. “Ter o que apertar”. Conversava sobre o quê? Mecânica? Reforma da casa? Mulheres? Bem, ele só conseguia concluir que o tema fosse mulheres.

É bom sentir a carne feminina nas mãos, suspirou. Ela não deve ser magra de mais, nem desfilar um corpo malhado – barriga quadriculada é horrível! Mulher boa, boa mesmo, tem curvas, nuances, perigos e, por que não?, relevos.

“Sábio filósofo corporativo”, repetia mentalmente. Tem de ter o que apertar!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

"O que importa é a paixão"


Na página 237 de um livro de Linguística a frase rabiscada em esferográfica vermelha desviou a atenção do estudo:

― No fim das contas, a única coisa que importa na vida é a paixão.

A vida voa. Deixou o livro aberto em cima da mesa e sumiu da biblioteca.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O sono é mais íntimo que o sexo


Não há intimidade mais íntima que a intimidade de dormir a dois. O sexo é irrelevante diante do ato de dividir uma cama no repouso noturno. Até o beijo é menos íntimo, menos invasivo. Na hierarquia das intimidades a ordem é: 1) cagar, 2) dormir, 3) beijar e 4) transar.

Pode parecer gozação, mas raciocine: com quantas pessoas você já adormeceu junto? Pensando bem, só é íntimo demais dormir após ter feito sexo. Um amigo, quando não consegue escapar da “conchinha”, passa a noite sem pregar os olhos, jurando que da próxima vez vai bancar uma desculpa melhor para rumar porta afora.

O sono, inclusive, arruína relações. Já ouvi de um casal amigo: “Nossa, o Mário ronca tão alto que parece que durmo com uma britadeira! Super brochante!”. Enquanto o pobre Mário replicava sobre a esposa: “Pior é a Célia, que usa aquele pijama de veludo e ainda fica ruminando...”.

Talvez seja isso quando aconselham que os sonhos de ambos precisam se encaixar. Literalmente. Mais que os planos e os corpos.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Nunca quis ser "amiguinho"


Aos 14, 15 anos era um medroso patético. Capaz de fugir de uma menina mais jeitosa por pavor da conversa, por receio de um possível enlace. No colégio, vivia paixões aéreas e fugazes. Paixões nunca correspondidas – nem mesmo sabidas.

Caso de Maria Clara, uma pequena de olhos apertados e beleza exótica. E de Bia, sua fiel escudeira de nariz empinado e corpo esbelto. Os três, ele e elas, eram unha e carne. Andavam pra cima e pra baixo numa amizade inocente e burra.

Ele lamentava a falta de coragem. Ora se via torto por Maria, ora tonto por Bia. Queria namorar uma, declarar-se à outra, mas enquanto sua predileção seguia indefinida, esbarrava na fobia de se expor.

Anos mais tarde, depois que a vida separou o trio, reencontrou Maria Clara. Ele agora namorava sério, estava noivo, era leal. Admitiu, porém, enrubescido:

― Nunca quis ser seu amiguinho. Sempre fui apaixonado por você, mas tinha medo de me revelar...

Ela escutou quieta. As palavras confundiam-na. Gostava dele e achava que ele gostava de Bia. Num arroubo trágico, ergueu-se cósmica, abriu a bolsa e arremessou um cartão na mesa do café:

― Pois depois de tanto tempo, não somos mais amigos. Você agora tem meu número. Vamos ver se supera o medo.

E saiu, triunfante, sem que ele conseguisse flagrar seu imenso sorriso.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Para 2011: ser um canalha


― Cansei de ser bonzinho! ― ele admitiu.

Resolveu ser um canalha em 2011. Um daqueles malandros dos anos 30. Até optou por deixar o bigodinho a Clark Gabe. Comprou terno branco e sapato bicolor. Passou a fumar cigarrilhas Gabriela. Para ser canalha com estilo.

― Cansei de receber os predicados afáveis, os adjetivos mais tenros do mundo. Vou ser um estúpido, um sacana, um cretino fundamental!

A reputação de bom rapaz arderia na fogueira da década passada. Perdia as contas de quantas vezes acreditou nas mulheres – mulheres que o fizeram de trouxa, aproveitaram da sua inocência, passaram por cima da sua pureza.

― As feministas querem reduzir a mulher a um macho mal-acabado! ― urrava, citando Nelson Rodrigues.

Um canalha, como muitos por aí, a ludibriar rabos de saia. Amante frustrado. Infiel solitário. Mais um com a alma extirpada, o coração arruinado, a esperança esmigalhada. Um dócil, porém convicto, canalha.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O poeta é um vulnerável


No meio da aula de Metodologia, recebeu um bilhete livre:

― Será que todo poeta é vulnerável?

Dobrou a folha absorto na questão e meteu-a no bolso. Olhou pros lados. Ninguém. Sentiu a exposição na alma, como daquela vez no pátio do colégio, diante da bela garota da turma. Cinco minutos depois, outro papel. E a estrofe:

O poeta é frágil por essência
Escreve na cadência dos versos
Excessos de condições imersas
E pensa que disfarça ao mundo
O que lá no fundo guarda
Que nada!
Esconder é imponderável
O poeta é um vulnerável!

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Regra de três


Não é nada que não saibam ou tenham ouvido falar. Nas relações, a mulher divide e o homem multiplica. Por três. Funciona do seguinte modo: se o rapaz espalha que transou com 60 mulheres na vida, na verdade foram 20. Se ela diz que fez sexo com 10, o número real é 30.

Mas lembrem-se de que toda regra tem exceção. O Hugh Hefner e a Sandy Leah, por exemplo. As mais de 3 mil mulheres do playboy americano querem efetivamente dizer mais de 3 mil mulheres. E o único homem da cantora brasileira é mesmo o Lucas Lima.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

E-mail sem meias palavras


Abriu a caixa de entrada. Marcava um e-mail em negrito. Era dela.

Oi. Tenho que falar contigo. José está preocupado, esta manhã me perguntou quem é você e o que se passa entre nós... Não gosto nada disso, não quero que ele pense coisas que não são, não quero causá-lo danos. É melhor que não nos falemos mais, certo?

Melhor pra quem é que não sabia.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A gordinha pudica


Eles tinham ficado um tempo atrás. Nada de avanços. Meses depois reencontraram-se numa festa. Ele estava igual. Apenas a barba mais rala, mais civilizada. Ela tinha engordado. Era o anticoncepcional, o exame final, o inverno rigoroso, as listras horizontais.

Quase no fim da noite, colaram os lábios. Os beijos foram intensos desta vez, ele adquirira tentáculos. Começou uma expedição selvagem no corpo rechonchudo. Ela esquivava-se, tirava a mão esquerda da sua nádega direita, recusava a direita que subia por baixo da blusa, agarrava a nova investida da esquerda, antecipava-se à malícia da direita.

Até que se impôs diante do tarado:

― Olha só, se vai ser assim, melhor nem ser!

Muito tranquilamente ele recuou. Então não seria. Estava fazendo um favor à gordinha, pensou. Agradeceu o chilique de castidade e abandonou a festa. Sem qualquer finesse.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Quem já transou este ano?


Janeiro ainda se espreguiçava e ela perguntou, no bar, em voz alta:

― Quem já fez sexo este ano?

Ele levantou o braço rápido. Ela duvidou.

― Defina sexo ― ele provocou.

Ela ficou quieta. Ele contou que só dizia a verdade. Ela desconfiou. Chamou-o de manhoso.

Acordaram enrolados na ressaca e nos lençóis empapados de suor.

― Eu te disse ― disse ele.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Pulseira da reclamação


Uma amiga relatou a experiência, a coisa não deu muito certa, mas a ideia ficou. Coloque uma pulseira em um dos braços e toda vez que reclamar de algo, troque-a de pulso.

Ela disse que se trata de um exercício zen-budista, ou assim. O que importa não é a origem, mas o saldo: perceber que reclamamos muito, muito mesmo, ao longo do dia.

A pulseira pode ser imaginária. Tanto faz. O fato é que não só ele passou a se vigiar e controlar as lamúrias, como percebeu o quanto as pessoas ao seu redor dedicam-se (e repetem-se) a problemas tão mesquinhos.

sábado, 8 de janeiro de 2011

O que elas querem: rir ou gozar?


Se fosse necessário escolher, numa daquelas problemáticas cabeludas que os hipotéticos compulsivos têm prazer em arranjar, o que será que as mulheres prefeririam: um homem que as proporcione boas risadas ou um homem que as ofereça orgasmos múltiplos?

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Porque ela fuma


Ela é fatal. Sabe se vestir – e escutem amigos: uma mulher que sabe se vestir é muito mais poderosa que uma mulher apenas naturalmente bonita. Mas o que o impressiona em seu charme de Bond girl é o seu jeito de fumar.

Uma mulher que fuma é dez vezes mais sexy. É uma Cleópatra no meio de nós, a passear na rua com um cigarro delicadamente entre os dedos e a vida enfumaçada em enigmas.

A imponência da fumante está no queixo levantado pra soprar o veneno nas nossas frontes. A sensualidade está no modo que cruza as pernas e saca outro tabaco para pousar entre os lábios rubros.

Ela é fatal. Porque fuma. Simplesmente porque fuma.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A primeira vez


Foi numa praia deserta. Estavam sozinhos. Ela já tinha certa experiência. Para ele, era a primeira vez.

― Tem certeza que quer isso? ― ela perguntou.

― Não há algo que queira mais. Está na hora.

Confirmaram a presença apenas das gaivotas no céu e dos siris na areia, definiram as preliminares e avançaram devagar. Apesar da tensão do início, ele logo relaxou. Não era esse bicho-de-sete-cabeças que diziam.

Foram duas, uma atrás da outra. Riam-se de tudo, leves, livres. O sol se punha no horizonte. Foi a primeira vez dele. A primeira vez que fumou maconha.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Fascínio por (bem, vocês vão ler)


― Sabe o que você podia fazer? Tirar a camisa... que tal?

Os olhos dela denunciavam uma traquinice. E visto que os dois estavam há mais de 15 minutos aos mais tórridos beijos no carro, aquilo parecia um pedido bem interessante. Ele tentou ler a mente dela, e apenas levantou os braços para que a garota fizesse as honras e lhe arrancasse a t-shirt.

― Mas vê lá o que vais fazer... ― fingindo que se preocupava.

Ela primeiro cravou as unhas em seu peito com um olhar meio safado meio assustador. Mordeu os lábios e arremessou-se ao pescoço do rapaz. Começou a beijar e foi descendo: pescoço, ombro, tórax. Num movimento brusco ergueu o braço direito dele e estagnou-se na  contemplação.

― Pode parecer estranho, mas tenho um fascínio enorme por sovaco. Você nem imagina como sovaco me excita.

No segundo seguinte ela já beijava e lambia as axilas dele com um apetite de cão de rua.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Ele só pensa... naquilo


Resolveu, então, consultar um psicólogo. O fim da relação, a possível depressão, as teias da solidão... tudo o martirizava nos últimos tempos. Seguindo a dica de amigos e parentes, concordou.

― Eu vou, mas com uma ressalva: quando achar que estou bem, largo a terapia. Largo porque não quero dissecar meu passado a um desconhecido, não quero desencapar problemas com meus pais, com meus irmãos, revirar medos e traumas.

Na terça-feira, às 10h, lá estava ele no consultório da Dra. Elisa. Ela era alta e tinha os cabelos cacheados. Parecia um anjo na farda branca. Falava manso, cumprimentou-o com um aperto de mão mole e pediu que sentasse na poltrona bege. A sala toda emanava paz.

Ele começou a explicar o motivo que o levara até ali. Enquanto contava, passeou a vista pelos quadros – até se ater em um, especificamente, situado atrás da psicóloga. Era uma pintura abstrata, esotérica, modernista. Viu uma vagina. Viu uma vagina e só conseguiu ver a vagina a partir daí.

O tempo do dia findou e marcaram outras sessões. Semana após semana regressava à terapia para falar de sua vida amorosa, de suas competências profissionais, de seus medos e traumas, e fitar aquela vagina pregada na parede. Parecia um portal de luz que o convocava, que o aliciava, o seduzia.

O fato é que foi sentindo-se bem. No oitavo mês de tratamento já estava melhor, muito melhor. Havia superado as angústias e dera cabo da melancolia. Resolveu parar. Despediram-se com um beijo amistoso e ele seguiu a vida. Toda vez, porém, que se via em problemas marcava uma hora com a Dra. Elisa.

Acomodava-se na poltrona bege para olhar fixo a vagina, e saía do consultório revigorado. Um homem novo.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Tara por saltos altos


― É verdade que vocês homens têm tara por saltos altos? ― ela esfregou as mãos louca para saber.

― Digo por mim: não. Quer dizer, se ela estiver de salto alto, sem mais nada, aí não é questão de tara, é questão de obrigação sexual. Mais que isso: de obrigação estética.

― Vocês são todos iguais mesmo. Eu não entendo isso: como não se seguram com uma mulher nua à frente?

― É coisa que vocês nunca entenderão. Vocês precisam olhar prum cara e “raciocinar” a beleza dele. Para nós, olhar uma mulher é instintivo, é tão natural quanto respirar. A gente não pensa, fez.

domingo, 2 de janeiro de 2011

A saboneteira e as covinhas


Há encantos femininos inexplicáveis. Outro dia um amigo ligou para confessar:

― Estou apaixonado. Perdidamente. Não como nem durmo direito.

Ora essa, logo o Flávio? Um sujeito imune a qualquer tipo de impulsividade sentimental. Quer dizer, quase imune, parcialmente imune.

― Ela tem o que mais aprecio numa mulher! Você sabe qual é o meu calcanhar de Aquiles! Ela tem a saboneteira linda, uma saboneteira de Monica Bellucci, de Catherine Zeta Jones. Eu sou caidinho por aquela saboneteira...

De fato, era tiro e queda. Dava até dó. Flávio via uma mulher de vestido e logo buscava o pescoço dela, o cólon, o peito, a postura dos ombros. Preferia as que não usavam fios ou colares. “Para realçar...”, dizia. E ia além: valorizava mais a saboneteira que um sinuoso decote.

No quesito fetiche só perdia pro Celso. É que o rapaz tinha um zelo todo especial pelas covinhas femininas. Não as da bochecha – aqueles dois furinhos em cima das nádegas. Para ele, as covinhas eram mais transcendentais que um autêntico caráter, que um magnífico sorriso.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Eu espero por ela


― Ela também sentiu algo. Só não aconteceu nada entre vocês porque ela tem namorado, porque ela não quer passar por cima dele, não quer magoá-lo ― sussurrou a amiga, num canto da sala.

― Eu não vou desistir dela. Nós ainda vamos viver alguma coisa, eu tenho certeza. Vou cancelar o voo... Sim, parece loucura, mas vou cancelar e vou procurar um apartamento aqui pra alugar. Eu espero por ela. Não vou voltar.

Esperaria até os sentimentos tornarem-se irremediáveis, as urgências de ambos serem inadiáveis. Esperaria pela crença que o invadiu. Logo ele, tão cético. Crença naquilo que acelerou seu peito ao vê-la pela primeira vez. Mudaria de cidade, largaria emprego, anularia os compromissos firmados. As pessoas entenderiam. Os amigos apoiariam. Pelo amor. Quer motivo mais sublime? Pelo amor. Faria isso acreditando que o desejo de possuir todas as mulheres do mundo concentrava-se numa só: ela.

Era o que ele devia ter dito, devia ter feito. Mas seguiu a vida igual e os velhos planos, achando que uma hora ou outra tudo se ajeitaria. Passou um ano. Ela casou-se. Ele continuou na mesma cidade, com o mesmo emprego e os compromissos que não lhe diziam nada. Toda noite, religiosamente, ia fechando os olhos devagar ainda com aquela crença forte e inabalável.