terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Ele só pensa... naquilo


Resolveu, então, consultar um psicólogo. O fim da relação, a possível depressão, as teias da solidão... tudo o martirizava nos últimos tempos. Seguindo a dica de amigos e parentes, concordou.

― Eu vou, mas com uma ressalva: quando achar que estou bem, largo a terapia. Largo porque não quero dissecar meu passado a um desconhecido, não quero desencapar problemas com meus pais, com meus irmãos, revirar medos e traumas.

Na terça-feira, às 10h, lá estava ele no consultório da Dra. Elisa. Ela era alta e tinha os cabelos cacheados. Parecia um anjo na farda branca. Falava manso, cumprimentou-o com um aperto de mão mole e pediu que sentasse na poltrona bege. A sala toda emanava paz.

Ele começou a explicar o motivo que o levara até ali. Enquanto contava, passeou a vista pelos quadros – até se ater em um, especificamente, situado atrás da psicóloga. Era uma pintura abstrata, esotérica, modernista. Viu uma vagina. Viu uma vagina e só conseguiu ver a vagina a partir daí.

O tempo do dia findou e marcaram outras sessões. Semana após semana regressava à terapia para falar de sua vida amorosa, de suas competências profissionais, de seus medos e traumas, e fitar aquela vagina pregada na parede. Parecia um portal de luz que o convocava, que o aliciava, o seduzia.

O fato é que foi sentindo-se bem. No oitavo mês de tratamento já estava melhor, muito melhor. Havia superado as angústias e dera cabo da melancolia. Resolveu parar. Despediram-se com um beijo amistoso e ele seguiu a vida. Toda vez, porém, que se via em problemas marcava uma hora com a Dra. Elisa.

Acomodava-se na poltrona bege para olhar fixo a vagina, e saía do consultório revigorado. Um homem novo.

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