terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A gordinha pudica


Eles tinham ficado um tempo atrás. Nada de avanços. Meses depois reencontraram-se numa festa. Ele estava igual. Apenas a barba mais rala, mais civilizada. Ela tinha engordado. Era o anticoncepcional, o exame final, o inverno rigoroso, as listras horizontais.

Quase no fim da noite, colaram os lábios. Os beijos foram intensos desta vez, ele adquirira tentáculos. Começou uma expedição selvagem no corpo rechonchudo. Ela esquivava-se, tirava a mão esquerda da sua nádega direita, recusava a direita que subia por baixo da blusa, agarrava a nova investida da esquerda, antecipava-se à malícia da direita.

Até que se impôs diante do tarado:

― Olha só, se vai ser assim, melhor nem ser!

Muito tranquilamente ele recuou. Então não seria. Estava fazendo um favor à gordinha, pensou. Agradeceu o chilique de castidade e abandonou a festa. Sem qualquer finesse.

6 comentários:

catarina disse...

Estava fazendo um favor à gordinha?

Anônimo disse...

(2)Favor à gordinha?
Só porque ela é gordinha tem que ceder ao seu bel-prazer é isso ?

Gustavo Jaime disse...

Catarina e Anônimo, não percam de vista que os textos aqui abraçam a ficção. Eles têm uma ínfima percentagem de realidade e nem tudo aconteceu comigo ou mesmo com alguém. Às vezes parto de um fragmento contado para criar o todo, às vezes invento personalidades e comportamentos. Repito: é ficção.

Um abraço! Fiquem bem!

Gustavo Jaime disse...

Ah, e não sejam ingênuos de acharem que não existem homens que pensam assim. E mulheres também. Foi isso que quis trazer à tona.

(Confesso: adoro uma polêmica!)

catarina disse...

imaginei que assim fosse, mas do lado das mulheres, despoleta uma certa reacção ao lê-lo, mesmo sendo um preconceito em formato de ficção. Acho muito bom que fales do tema, como de outros "tabus", e gosto ainda mais quando esclareces e elaboras a tua perspectiva sobre a questão, porque quando não o fazes, parece-me que podes incorrer no risco de reforçar ou reafirmar o preconceito. É apenas uma opinião.

catarina disse...

quero polemizar. abraço até brasília