sábado, 26 de fevereiro de 2011

Retorno à cidade feiticeira


Com mais de um ano de atraso, ele estava de volta. Caminhava pelas ruas em que, num certo domingo de inverno, chegou a pensar que fosse imortal. Regressava à cidade bruxa, à cidade feiticeira de Gaudí, de Miró, de Zafón.

Passaram-se 13 meses desde que escutara aquela voz doce em seu ouvido dizer: “Hasta mañana”. Agora, o amanhã era hoje e tudo se apresentava diferente da promessa. Seus olhos buscaram as lembranças na Plaça de Catalunya, reviraram o Barri Gòtic e pousaram perdidos no Mediterrâneo. Nenhum sinal dela.

Tinha Barcelona toda à frente, bela e desnuda, menina-mulher com suas curvas insinuantes, pronta para que ele reescrevesse sua história num misto de fábula e lógica. O vento ameno da primavera ainda virgem acariciava seu rosto. Teve a sensação da eternidade novamente.

“Não me atrasei”, concluiu sereno enquanto subia La Rambla. Chegava a tempo. O destino esperava-o fumando um Chesterfield e lendo o La Vanguardia em alguma esquina da cidade. Só não sabia ainda em qual.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Não deu pra dar


Tinha deixado tudo pronto para o fim de semana. O namorado vinha de Belo Horizonte, onde vivia há alguns meses. Separou a melhor lingerie, recheou o quarto com velas aromáticas e comprou umas camisinhas diferentes. Era a primeira vez, aliás, que comprava preservativos.

― Ah, isso não tem erro ― despreocupou a amiga. ― Contanto que não estoure, tá tudo bem.

― Que assim seja, porque tive de dar um tempo com a pílula... ― revelou.

“Antes tivesse ficado grávida”, pensaria depois, ao lembrar da conversa. Com o ambiente propício e as dezenas de dias na seca, concordaram em pular as preliminares. Ele foi logo arrancando a lingerie aqui, ela tirando calça-camisa-cueca ali. Ele alcançou o pacote de camisinha, ela rasgou com os dentes e fez questão de colocá-la.

― Você comprou aquelas sem lubrificante, né amor? ― ele perguntou.

― Ah, nem vi. Comprei umas lá, que dizem ser boa ― relatou, enquanto beijava o abdômen-tórax-pescoço do rapaz.

Foi nesse mesmo instante que ele começou a sentir uma coceira descomunal. Tinha alergia ao espermicida.

― Cadê?! Cadê a embalagem?! Você só comprou dessas? ― desesperou.

Só. Pior de tudo, ela raciocinou, é que com os comichões a noite estava a perigo. Levantou para buscar um pouco de água e tentar aliviar a coceira, mas tropeçou nas velas, que tombaram no tapete. Correu para pegar logo um balde de água e conter o fogo.

O cenário ficou ainda pior quando o editor do jornal telefonou, impaciente. Ela tinha se esquecido que estava de plantão.

― Uma torre de energia caiu e metade da cidade está sem luz! Vai já para a redação! ― ordenou e desligou, sem se importar em escutar o “ok” dela.

Largou o namorado com a coceira e as chamas. O fogo perpetuava por dentro.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O milagre de despir uma mulher


A experiência mais marcante na vida de um homem é a de despir uma mulher pela primeira vez. Ele recordava-se, agora, do seu debut. Tinha pouco pêlo no rosto, as mãos trêmulas e o coração a debater-se dentro do peito.

― Relaxa... ― ela disse de um jeito acolhedor.

A cada peça de roupa removida, suas batidas multiplicavam. Lembrava quando deslizou a alça do sutiã pelos ombros nus – até hoje era algo que se divertia fazendo – e descobriu como tesouros no fundo do mar a marquinha de biquíni e os biquinhos dos peitos duros. Aquela era, até então, a imagem mais transcendental de toda a sua existência.

Desabrochou cada botão da calça parcimoniosamente, mas chacoalhava dos pés à cabeça. Escorregou o jeans justo pelas coxas lisas, superou joelhos, canelas e pés bem cuidados... O mundo refazia-se à sua frente. A calcinha era azul-calmo como o céu. Estava hipnotizado pela visão dela seminua, com seus seios firmes e o quadril confiado a ele.

Como um órfão da primeira vez que despira uma mulher, vivia tentando repetir aquele momento mágico. Mas o milagre era único – e desde aquela noite começou lentamente a encaminhar-se para a própria morte.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O selinho da discórdia


― Um cara me beijou ― ela contou ao namorado. ― Mas ele é gay.

Atribuiu o entendimento confuso à ligação ruim. “Repete”, ele pediu.

― É isso mesmo. Um cara me deu um selinho. Eu tava num bar bebendo com o pessoal e na despedida ele me beijou. Mas relaxa, porque ele é gay. Só não sabe ainda.

Aquela história fazia ainda menos sentido agora. Ela quis mudar de assunto, mas foi interrompida:

― Pera lá! Se ele é gay, por que que te beijou afinal?

― Foi um selinho. Ele veio e me deu um selinho! Me pegou desprevenida.

― Sei...

― Que homem despede de mulher com um selinho? Que eu saiba não há coisa mais gay que isso!

― Ah é? Se você tá falando...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Sexo com ex


Por que o sexo com o ex-namorado tinha sido tão bom? Passaram quatro anos juntos e a melhor vez foi aquela, apenas dois meses depois do rompimento. Não tiveram qualquer pudor de se entregar, de inventar posições, de transpor as mesmices que às vezes os enfadava em silêncio.

Eram excelentes na época de namoro. O problema não era a falta de intimidade ou de encaixe. A rotina tinha chegado até eles, implacável, e tornara o sexo coisa maquinal, automática, desinteressante.

Agora, deitada na cama ao lado do ex, após libertarem-se um no corpo do outro, pensava que a redenção deles estava mais distante. Haviam se tornado dois estranhos, que conhecem muito bem os prazeres e os desprazeres mútuos. “O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança”, recordava de ter lido no livro ganho no último aniversário de namoro.

O amor já tinha partido. Continuaram a se ver uma vez na semana até que cada um tomou seu rumo, naturalmente. Porém lembravam-se muito mais do sexo depois do que durante os quatro anos juntos.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Acionado o código M.S.


― Aí, conheci uma M.S. que é o teu número! ― afirmou eufórico, surgindo como um ninja na frente da mesa de trabalho do amigo.

― Ah é? Quanto tempo? ― ele quis saber, refeito do susto.

― Cinco. Ela já costuma sair e tem com quem deixá-lo.

― Maravilha. Menino ou menina?

― Menina.

― Perfeito!

O código entre os dois tinha sido criado num happy hour semanal, no mesmo boteco foleiro de sempre. O M.S. representava mãe solteira. “A melhor coisa que há”, segundo ele. O amigo até arrepiava e dispensava esse abacaxi. Ficaram combinados que a M.S. que cruzasse seu caminho seria reservada ao colega.

― Até hoje não entendi essa sua predileção, mas tudo bem ― admitia.

― Já te disse: a mãe solteira não enrola, não faz jogo e, se acontece de se entregar, vem com tudo, pra tirar o atraso. Além disso, ela já tem de quem cuidar e não fará de ti um bebezão, como a maioria delas faz ― explicava sob o olhar resignado do outro.

― Mas e a responsabilidade, meu velho? Ela tem uma criança. É coisa séria. Depois tem o pai, a família... Você vai herdar uma confusão sem tamanho...

― E o que somos todos nós num relacionamento se não desordens ambulantes? Prefiro uma mulher adulta com uma criança que uma mulher-criança, que terei de desempenhar papel de pai. Isso sim é excesso de responsabilidade.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O mal do mau hálito


Uma pesquisa com 2,5 mil mulheres europeias (de Alemanha, Áustria, Espanha, Portugal e Suécia) apontou que a característica do homem que mais inibe a relação sexual é o mau hálito. Quase 30% disseram que o bafo podre é um antiafrodisíaco fatal. Aparecem, depois, a preguiça (16%) e a arrogância (15%).

Destas duas situações, qual será a mais desafiadora para a mulher:

- transar com o rapaz de pênis pequeno e higiene bocal em dia?
- transar com um muito bem-dotado e péssimo hálito?

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Pintor de palavras


“Quem te deu o direito? Cadê a permissão para romper a minha calma, invadir a tranquilidade que tanto lutei para conquistar? Vieste sem avisar, decoraste meia dúzia de palavras bonitas, disseste tonterías... e achaste que bastava.

Eu tenho a ele. Ele é real, é de carne e osso. Tu não. És um sonho, somente uma ilusão longínqua e passageira, com este jeito seguro, esta convicção leviana e tão sem razão. Construí uma história e, pela primeira vez na vida, sinto-me cuidada. Ele é real. Tu não.

Poderia dar certo, é verdade. O tempo diria. Talvez nunca saberemos. O único e verdadeiro amor é o impossível – foste tu que me ensinaste isso, lembras? E se senti qualquer coisa por ti, se te quis com ardor naquela noite e contemplei o teu sorriso, foi mais sensato tudo permanecer na fantasia. A realidade é um veneno, é uma bofetada na cara, um soco no estômago. Apaguei os teus e-mails.

Melhor assim. Estou feliz... Pensaste o quê? Que iria acabar tudo? Que o deixaria, que trocaria o certo pelo duvidoso? Estiveste longe – e agora está mais longe ainda. Já passou. Não há porque tocarmos de novo no assunto. És um pintor. Um pintor de palavras. E estás fadado à arte, nada mais. Estás fadado ao romance apenas no papel.”

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O que atrai o macho? (Parte 4/4)


Ânderson não era assim tão garoto. Tinha quase 30 e os sonhos cada vez mais distantes de se concretizarem. Era o “carregador de piano” dos peladeiros. O fôlego impressionava: era capaz de correr cinco quarteirões, jogar futebol por uma hora e ainda ter pique para a meia-maratona de Nova York.

― Gosto de nuca ― libertou no susto.

― Sério? Nuca? ― estranhou Dinho, com uma gargalhada bonachona.

― Concordo com as pernas, os peitos e o olhar. Mas para mim nada bate a nuca. É que as próprias mulheres se esquecem de saber com os homens o que eles gostam e ficam nos achismos delas. Reparem quantas, criminalmente, escondem a sua parte mais sensual. A nuca é o termômetro da entrega. Um doce sopro arrepia até a alma feminina, umas mordidelas e a mulher é sua para sempre por uma noite. A mulher que expõe e se expõe na nuca enfeitiça o homem e a si mesma. Saem os dois vitoriosos. Por isso, a nuca é sublime, é o que abre a trilha do prazer e, por conseguinte, a da felicidade ― poetizou.

Ouviram-se algumas palmas. Jairo brincava com o estilo lírico daquele brucutu de chuteiras. Riram-se todos e, quase ao mesmo tempo, agarraram seus copos e tomaram os últimos goles de cerveja. Estava tarde. A morena, musa do tema da noite, levantou-se para ir embora.

Quando margeou a mesa dos amigos, os quatro rapidamente lembraram-se das zonas de desejo de cada um. Avaliaram pernas, peitos, olhos e nuca com precisão cirúrgica. Assim que ela passou, deram uma checada na parte de trás da carne.

Endireitaram o pescoço, cruzaram as vistas e se depararam com a verdade uníssona daquele instante: nada supera uma boa bunda.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O que atrai o macho? (Parte 3/4)


― É, a gente tava falando sobre o que é mais atraente numa mulher. Eu digo que são as coxas e o Dinho os peitos. Melhor: o cruzar de pernas e o decote ― precipitou-se a explicar Jairo.

O alagoano Donizete Pontes não gostava do nome, por isso o pessoal tratava-o apenas por Pontes. Alguns por sr. Pontes, mas isso no dia-a-dia corporativo. Era o mais velho do quarteto e ainda conservava uma saúde de Niemeyer. A fama de chato e reclamão do centroavante que vivia de lances esporádicos se restringia às quatro linhas.

― Sou da velha escola, rapazes. Daqueles que ainda cumprimenta as mulheres com um leve beijo nas mãos. E as encara. Então nada mais fatal que o olhar. Vocês falam de pernas e peitos porque são jovens... Mas essas coisas passam, sucumbem ao tempo. O olhar não. O olhar é perene. Minha primeira esposa tinha os olhos tão intensos que me roubou o coração e nunca mais consegui amar de novo. As outras três mulheres que tive só sabiam usar o artifício visual para satisfazer seus desejos físicos e materiais ― desabafou.

Ânderson ainda pensava nas palavras de Pontes, quando o próprio velhaco pigarreou e deu-lhe um tapa camarada nas costas.

― E você, hem garoto? Diz lá o que mais preza numa boa mulher.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O que atrai o macho? (Parte 2/4)


Osvaldo, ou Dinho, era o camisa 10 da turma. O mais disputado na pelada, normalmente o primeiro a ser convocado pelo ganhador do par ou ímpar. Era novo, na idade e no setor.

― Peitos... ― sentenciou.

― Nunca que superam as pernas ― desdenhou Jairo, ainda injuriado com Dinho pelo drible desconcertante que tomara na partida e pelas gozações a tiracolo.

― Nada supera um decote, Jairão. Pensa comigo: uma mulher consegue tudo com bons peitos. Vocês leram sobre aquelas gêmeas do nado sincronizado? Então, elas colocaram silicone porque disseram que tinham perdido vários trabalhos de modelo por não terem peito suficiente. Podem gostar mais ou menos, mas um decote tem seu valor. Qualquer homem há de pender uma baba elástica diante dele ― concluiu.

― Vocês só podem estar brincando! ― rematou Pontes, que acabara de voltar do banheiro e passava as mãos nos calções para secá-las. ― Será que ouvi direito?

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O que atrai o macho? (Parte 1/4)


Toda quinta, após o futebol noturno, os quatro amigos reuniam-se para o churrasco regado à cerveja. Às vezes, saindo da rotina, preparavam uns mariscos e umas ostras ao bafo. O assunto raramente fugia do jogo e do trabalho na repartição pública. Quando fugia, era para falar de mulheres.

Naquela noite, optaram pela terceira opção. Foi Jairo, zagueiro corpulento, no alto dos seus 34 anos e cabelos tingidos, quem partiu para o ataque:

― Pernas... ― balbuciou.

― O que, Jairão?! ― perguntou Ânderson, sem entender se o amigo delirava por causa da bebedeira ou da pancada na cabeça numa disputa de bola.

― Qual é a coisa que mais atrai vocês numa mulher? Pra mim são as pernas. Olha aquela morena lá atrás... Ei! Ei! Olhem discretamente... Viram que coxas lindas? E o jeito dela cruzar aquelas pernas... Meu Deus! Não há arma mais letal numa mulher que essa. Se elas soubessem o poder que têm no simples ato de cruzá-las e descruzá-las estávamos condenados à servidão eterna ― vaticinou.

― Pois saiba que há coisa mais tentadora numa mulher que as pernas... ― interveio Osvaldo, com uma longa pausa folhetinesca.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Dúvidas de um sapo encalhado


O que buscam as mulheres, afinal? O canalha ou o bonzinho? O homem de “pegada” ou o gentil e educado? Elas não sabem ao certo, e se têm um, querem o outro; se têm o outro, querem o um. Reclamam da poligamia masculina, mas vivem a encontrar brechas em seus anseios monogâmicos:

― Ah, não! Ele era molenga demais.

― Ah, não! Ele era mulherengo demais.

― Ah, não! Ele era muito devagar.

― Ah, não! Ele era muito afoito.

Mulheres ainda vivem na sombra do príncipe encantado. E quando beijam sapos, por carência ou por compaixão, querem que eles se transformem, no mesmo instante, naquilo que desejam desde os 12. Aos 12 anos, nós só queremos ser jogadores de futebol ou super-heróis de prédio.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Aliança: isca de mulher


Comprou uma aliança. Não foi difícil escolher. Certa tarde foi ao centro da cidade, entrou na primeira joalheria meia-boca e pediu pelo anel mais reles.

― De casamento? Noivado? Compromisso? ― inquiriu o vendedor semicareca, com suor a deslizar pelas têmporas.

― De amante ― respondeu, com um sorriso malicioso pousado no canto dos lábios.

Era uma aliança para fingir que tinha esposa, para forjar responsabilidade, enganar quanto aos cuidados conjugais. Mas, também, para emoldurar a trama de que era infeliz e carente, que já não se entendia com a mulher na cama, que tinha casado jovem e ela tinha sido a única paixão na sua vida.

Com o roteiro comprado pela falsa amante, dispensaria qualquer compromisso e driblaria as cobranças. Podia ir embora logo após o sexo, alegando que não queria dar motivos para a esposa desconfiar. Podia sumir por semanas e atribuir dificuldades em casa. Figurava o plano infalível.

― Mas você não tem vergonha na cara? Isso é sacanagem, pô! ― repudiou um amigo, que soube da trapaça.

― Sacanagem por quê? Só estou proporcionando a aventura e a fantasia que essas mulheres buscam. Melhor fazer isso sem magoar ninguém real, a não ser minha esposa fictícia. No fim das contas, saímos todos ganhando: eu e elas. Sem a mentira o mundo seria de uma frigidez entediante.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A última vez que a viu


Aquele foi o último sábado em que a viu. Ela não retornava suas ligações e ele decidiu sair um pouco à rua para espairecer. As nuvens cinzentas prenunciavam, desde quinta, um aguaceiro bíblico. Mesmo com o alerta, ignorou o guarda-chuva atrás da porta.

Percorreu a Rua do Alecrim encarando montras e clientes das tascas. Numa delas, dava na tevê o Sporting-Paços Ferreira. Recuou o pescoço para verificar o placar e foi seduzido por aquele perfume dos caracóis. Chegou à Baixa lotada de nativos e turistas, desviou-se à frente de A Brasileira, dobrou à esquerda nos Armazéns do Chiado e desceu a Garret para repousar, entre pombos e loucos, num banco de mármore da Praça Dom Pedro IV.

Com o coração ferido e sob a sinfonia da flauta-pan, observou as pessoas a passearem e os casais a se amarem. Tentou suspender as memórias dela. A primeira gota doce atingiu-lhe em cheio a testa e deslizou pelo sobreolho direito. O segundo vestígio do temporal trouxe a enxurrada subitamente.

Pareceu uma miragem. Sua visão turva demorou a focá-la abraçada a um homem debaixo da marquise do café Nicola. Ela beijou o estranho de um jeito brando e deixaram escapar dois sorrisos cúmplices de quem se surpreende pela chuva e pela paixão, ambas a avançar sem aviso.

Anestesiado, fez dos pingos suas abundantes lágrimas silenciosas. O futuro era aquele guarda-chuva fechado, recostado na parede de seu rés-de-chão.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A bonita é que sofre mais


Retornava no metro absorto em seus delírios quando se atraiu pela conversa de duas garotas:

― A mulher bonita sempre diz não de primeira ao homem que a aborda. Ela vai rejeitá-lo com automatismo férreo, justamente porque sabe que é bonita e pode ter quem quiser, a hora que quiser. Até o mesmo cara, se ela mudar de ideia dois minutos depois da negativa ― defendia uma.

― Claro que não... A mulher bonita é um poço de desamparo, uma ilha de solidão; pedaço de carne cercado por homens frouxos e pusilânimes por todos os lados. Ela sente-se amaldiçoada pela beleza que afugenta o sexo masculino, que suscita o medo patético deles ― rebatia a outra.

Na mesma hora, ele desencravou da memória as palavras certeiras de Nelson Rodrigues: toda mulher bonita é um pouco a namorada lésbica de si mesma, e compreendeu que não só porque o espelho lhes é presente e confidente.

Antes de saltar, apanhou no eco do vagão a conclusão weberiana:

― As bonitas são as que mais sofrem. De uma maneira ou de outra.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Carne de pescoço


Naquela noite, viu-a adormecer no banco do carro. Observou os lábios finos entreabertos e passeou os nós dos dedos na pele macia do seu rosto. Afastou a mecha de cabelo negro da pálpebra pesada e guardou-a atrás da orelha esquerda para que pudesse contemplar por inteiro todos os contornos suaves.

Assistia ao sono angelical com sobriedade cósmica, tentando solucionar os enigmas terrenos da conquista. O que ela tinha naquele jeito de sorrir, naquele olhar infinito, na espontaneidade do toque, que o fizera se encantar vertiginosamente? Reteve a atenção no pescoço dela. Beijou-o com insaciável carinho e ouviu uma leve gemida de prazer.

Aos poucos, sua vista também pesou e ele desfaleceu lentamente. Quando despertou, com o incômodo dos raios solares e o relógio cravado em 10h27, estava em seu quarto. Sem ela. Sozinho. Anêmico. Apenas a lembrança mágica do pescoço e a confusão se havia sido sonho ou realidade.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Sexo anal (Parte 2)


“Ah, os tabus de sexo...”, pensou durante os breves segundos em que ela expôs suas interrogações como uma metralhadora giratória. Terminou de mastigar três batatas fritas, engoliu-as a seco, lambeu os beiços de sal e discursou:

― Poder, Flavinha. É tudo questão de poder. O homem gosta tanto do sexo anal porque lhe dá a sensação de possuir a mulher, de domínio sobre ela. É uma coisa de submissão, sabe? De passividade, inclusive. É a nossa veia instintiva, nosso lado selvagem, nosso regresso às cavernas...

Escovou os dentes com a língua e continuou:

― Além disso, o fato de a mulher topar o sexo anal mostra que existe uma entrega dela, uma certa doação total. Porra, isso excita o cara! Tem muito a ver com a intensidade do negócio, com uma satisfação psicológica, muito além do prazer carnal, percebe?

Ela pareceu consentir. Nas matérias sexuais, o momento seguinte à retórica é sempre o mais revelador. Permaneceu muda. Devia estar pensando em alguma experiência recente, algum caso que se deu com ela, alguma proposta feita ou que viria a acontecer. Voltou a recostar na cadeira, mais relaxada, e pediu outro Sex on the beach.

Ainda pensaria um bocado no tema.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sexo anal (Parte 1)

― Uma outra hora quero te fazer uma pergunta... É uma dúvida que tenho ― disse ela, ao final do seu drink pomposo.

Outra hora que nada. Convenceu-a de ser naquele instante. O que é que fosse para ser questionado, tinha local e hora: aqui-agora.

― Manda lá, vai, sem enrolação. Também não precisa ficar tímida. Eu gosto das dúvidas mais cabeludas ― ponderou.

Ela relaxou e sorriu sem graça. Apoiou os cotovelos no limite da mesa, inclinou o corpo levemente para frente e bombardeou em voz baixa:

― Os homens têm mais prazer no sexo anal? Isso é verdade? É por que é mais apertado? É mais excitante? E se a namorada não libera, o cara acha ruim?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A impossibilidade de um amor de livro


Carlos era um sujeito lúcido. Tanto que virou uma espécie de guru para os assuntos de cariz romântico. Conheceram-se numa primavera febril no Bairro Alto, reduto boêmio de Lisboa. Ligeiramente influenciado pelos panachés e kalashnikovs tomados ao longo da noitada, ele escancarou ao novo amigo:

― É, Carlitos... Ainda penso nela...

Pocas cosas enganam más que las recordaciones, hombre! ― retrucou num portunhol de desenho animado.

Carlos era de Barcelona e cursava, na capital portuguesa, um mestrado em Literatura e Cultura, com especialização em Estudos Românicos. Tinha a fala comprida, mesmo quando sóbrio.

O corazón de la fêmea es un labirinto de sutilezas que desafia la mente grossera do macho trapacero. Se quieres realmente possuir una mujer, tienes que piensar como ella, e la primera cosa es conquistarle la alma ― conduzia pacientemente, enquanto trincava a tosta de frango da Tia Matilde.

Ele contou a Carlos que tentara de tudo. Tinha sido verdadeiro até o último fio de esperança, mas passou-se por aldrabão. A amada pedia que ele não a procurasse mais.

― Escucha, la mujer desea o contrário de lo que piensa o declara.

― Pois eu devia ter batalhado, Carlitos, devia ter corrido atrás... Deixei-a pensar na nossa situação e o tempo simplesmente escorreu pelos dedos.

Corazón caliente, mente fria. El código del sedutor ― apunhalou.

Quando a história tomava rumos lamentosos, Carlos vestia-se de conselheiro:

Nunca se fie en las que dejan que las apalpem a las buenas a la primera. Pero menos ainda en las que necesitan que un padre, un sacerdote, les dê la aprovación.

Já às tantas no cerão sentimental, Carlos olhou-o de esguelha e percebeu a paixão de livro que ele empreendia como um fardo hercúleo.

La gente no sabe lo que es sede até beber por la primera vez ― disse, engolindo o último rasto de ginjinha do copo de plástico e despedindo-se com qualquer fala em catalão, antes de sumir Calçada da Glória abaixo.

Ele permaneceu sentado, em silêncio, observado apenas pela empregada nanica que varria o local e começava a empilhar as cadeiras.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Boa como milho


Os portugueses têm uma expressão engraçada para exaltar uma mulher. “És boa como milho!”, dizem. Será milho uma coisa tão estupenda assim? Cozido, com sal e manteiga, é mesmo suculento. O doce, em conserva, é uma delícia de comer na salada, no arroz, com carne moída, no cachorro quente ou a colherada. A semente aquecida no óleo fica ainda melhor na forma de pipoca. E ainda tem os salgadinhos de milho, a farinha de milho, o bolo de milho.

Ainda assim, por que não dizer logo de uma vez: “És boa como chocolate, pá!”. Acho que elas se derreteriam muito mais fácil pelo elogio. Fica a dica.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O melhor a acreditar


É melhor acreditar que ela ainda recorda quando ela não responde. Melhor acreditar que tem medo de se machucar, que fugir pode ser covarde, mas serve para colocar as ideias no lugar.

Quando ela não responde, melhor acreditar que é porque está a pensar. Que ela pega o telefone e começa a teclar o número, mas desiste no meio. Pra que trocar o certo pelo duvidoso, a realidade pela quimera? Melhor acreditar que ela não quer se incomodar, quando ela não responde.

Todas essas explicações servem para apaziguar a alma, para admitir que o silêncio é excesso de dizeres e nunca falta de palavras. Quando ela não responde, melhor acreditar no que ficou de bom que desacreditar na sinceridade prévia. Melhor conservar o desvario do passado que descobrir a aridez no futuro.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Ménage do capeta


Nove em cada 10 homens deseja dividir a cama (sofá, mesa, bancada, tapete, relva ou areia) com uma dupla de fêmeas. O amigo desta breve história era diferente. A sua fantasia envolvia ele, uma garota e outro homem.

― Pensa bem: quando tu tás com duas raparigas, tás submisso a elas. Elas que comandam a cena. Agora se tiveres em dois, a mulher é que fica submissa! Mas tem de ser um amigo, também não é assim...

A ideia soava grotesca. Grotesca e perniciosa. Soava e sempre soaria. Ele tinha tudo bem claro quando o assunto era sexo a três: duas mulheres ou nada. Colocar um homem no esquema desanimava-o solenemente. Seja amigo ou inimigo. Estranho ou conhecido.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Ménage com uma feia


Ainda sobre a experiência à trois, ele considerava a seguinte teoria: se era para cumprir o anseio com duas mulheres, permitia que uma delas até fosse feinha. Tudo bem, não dá para ser muito criterioso quando é remota a probabilidade de algo assim acontecer. Podia ser feinha, mas ao menos tinha de ser gostosa.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ménage de celebridades


― Eu já fiquei com uma amiga minha, uma vez, quando eu tinha 15, 16 anos. Nem lembro direito. Foi bacana... foi diferente, sabe?

A confissão da namorada, em pleno sol das quatro, o pegou desprevenido. Em questão de segundos, experimentou estados distintos de espírito. Primeiro ciúmes. Depois, excitação.

Daí para frente, virava e mexia ensaiava mentalmente a proposta:

― Linda, sabe aquela tua amiga, Carina? Por que você não a chama pra vir aqui hoje à noite? A gente come alguma coisa, assiste a um filme...

Vislumbrou no Vicky Cristina Barcelona a chance épica de encorajar a aventura a três. Logo que se anunciou o flerte lésbico na película, a namorada rematou, seca:

― Eu não divido homem meu com nenhuma mulher. Nenhuma! Mesmo se ele fosse o Javier Bardem! Brad Pitt e Johnny Depp nem se fala! Só o Gerard Butler... o Gerard Butler tudo bem. Mas só ele também.

― Que isso meu anjo? Não seja tão radical assim. Nem para apimentar a relação?

― Claro que não! Apimentar o quê? Então chama um homem, oras! Aí para mim ficaria quentíssimo. Por que sempre tem de ser duas mulheres?

― Mas você já se pegou com uma amiga...

― Eu beijei! Eu só a beijei... Que pegar o quê? Ah, e não tinha homem nenhum na parada. Éramos somente as duas, entenda.

― E se tivesse... por exemplo... eu?

― Eu, você e uma amiga?

― É...

― Bem, que eu saiba você não é nenhum Gerard Butler.

― Vocês também não são nenhuma Scarlett Johansson nem Penélope Cruz e não tou criando problema pro nosso ménage, tou?

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Sobre carência e necessidade


Ela cutucou o pensamento dele com o comentário.

― Mulher tem carência, homem tem necessidade.

Conversavam alguma coisa sobre término de namoro.

― Mulher não consegue tomar essas atitudes, fica toda enrolada, por isso namora cara que não gosta dela. Carência é foda.

E foi nesta deixa que surgiu a frase de impacto:

― Mulher tem carência, homem tem necessidade.

É como unir o útil ao agradável.