quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Carne de pescoço


Naquela noite, viu-a adormecer no banco do carro. Observou os lábios finos entreabertos e passeou os nós dos dedos na pele macia do seu rosto. Afastou a mecha de cabelo negro da pálpebra pesada e guardou-a atrás da orelha esquerda para que pudesse contemplar por inteiro todos os contornos suaves.

Assistia ao sono angelical com sobriedade cósmica, tentando solucionar os enigmas terrenos da conquista. O que ela tinha naquele jeito de sorrir, naquele olhar infinito, na espontaneidade do toque, que o fizera se encantar vertiginosamente? Reteve a atenção no pescoço dela. Beijou-o com insaciável carinho e ouviu uma leve gemida de prazer.

Aos poucos, sua vista também pesou e ele desfaleceu lentamente. Quando despertou, com o incômodo dos raios solares e o relógio cravado em 10h27, estava em seu quarto. Sem ela. Sozinho. Anêmico. Apenas a lembrança mágica do pescoço e a confusão se havia sido sonho ou realidade.