segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A impossibilidade de um amor de livro


Carlos era um sujeito lúcido. Tanto que virou uma espécie de guru para os assuntos de cariz romântico. Conheceram-se numa primavera febril no Bairro Alto, reduto boêmio de Lisboa. Ligeiramente influenciado pelos panachés e kalashnikovs tomados ao longo da noitada, ele escancarou ao novo amigo:

― É, Carlitos... Ainda penso nela...

Pocas cosas enganam más que las recordaciones, hombre! ― retrucou num portunhol de desenho animado.

Carlos era de Barcelona e cursava, na capital portuguesa, um mestrado em Literatura e Cultura, com especialização em Estudos Românicos. Tinha a fala comprida, mesmo quando sóbrio.

O corazón de la fêmea es un labirinto de sutilezas que desafia la mente grossera do macho trapacero. Se quieres realmente possuir una mujer, tienes que piensar como ella, e la primera cosa es conquistarle la alma ― conduzia pacientemente, enquanto trincava a tosta de frango da Tia Matilde.

Ele contou a Carlos que tentara de tudo. Tinha sido verdadeiro até o último fio de esperança, mas passou-se por aldrabão. A amada pedia que ele não a procurasse mais.

― Escucha, la mujer desea o contrário de lo que piensa o declara.

― Pois eu devia ter batalhado, Carlitos, devia ter corrido atrás... Deixei-a pensar na nossa situação e o tempo simplesmente escorreu pelos dedos.

Corazón caliente, mente fria. El código del sedutor ― apunhalou.

Quando a história tomava rumos lamentosos, Carlos vestia-se de conselheiro:

Nunca se fie en las que dejan que las apalpem a las buenas a la primera. Pero menos ainda en las que necesitan que un padre, un sacerdote, les dê la aprovación.

Já às tantas no cerão sentimental, Carlos olhou-o de esguelha e percebeu a paixão de livro que ele empreendia como um fardo hercúleo.

La gente no sabe lo que es sede até beber por la primera vez ― disse, engolindo o último rasto de ginjinha do copo de plástico e despedindo-se com qualquer fala em catalão, antes de sumir Calçada da Glória abaixo.

Ele permaneceu sentado, em silêncio, observado apenas pela empregada nanica que varria o local e começava a empilhar as cadeiras.

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