sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Não deu pra dar


Tinha deixado tudo pronto para o fim de semana. O namorado vinha de Belo Horizonte, onde vivia há alguns meses. Separou a melhor lingerie, recheou o quarto com velas aromáticas e comprou umas camisinhas diferentes. Era a primeira vez, aliás, que comprava preservativos.

― Ah, isso não tem erro ― despreocupou a amiga. ― Contanto que não estoure, tá tudo bem.

― Que assim seja, porque tive de dar um tempo com a pílula... ― revelou.

“Antes tivesse ficado grávida”, pensaria depois, ao lembrar da conversa. Com o ambiente propício e as dezenas de dias na seca, concordaram em pular as preliminares. Ele foi logo arrancando a lingerie aqui, ela tirando calça-camisa-cueca ali. Ele alcançou o pacote de camisinha, ela rasgou com os dentes e fez questão de colocá-la.

― Você comprou aquelas sem lubrificante, né amor? ― ele perguntou.

― Ah, nem vi. Comprei umas lá, que dizem ser boa ― relatou, enquanto beijava o abdômen-tórax-pescoço do rapaz.

Foi nesse mesmo instante que ele começou a sentir uma coceira descomunal. Tinha alergia ao espermicida.

― Cadê?! Cadê a embalagem?! Você só comprou dessas? ― desesperou.

Só. Pior de tudo, ela raciocinou, é que com os comichões a noite estava a perigo. Levantou para buscar um pouco de água e tentar aliviar a coceira, mas tropeçou nas velas, que tombaram no tapete. Correu para pegar logo um balde de água e conter o fogo.

O cenário ficou ainda pior quando o editor do jornal telefonou, impaciente. Ela tinha se esquecido que estava de plantão.

― Uma torre de energia caiu e metade da cidade está sem luz! Vai já para a redação! ― ordenou e desligou, sem se importar em escutar o “ok” dela.

Largou o namorado com a coceira e as chamas. O fogo perpetuava por dentro.

Um comentário:

Leandro Afonso Guimarães disse...

Uma página de monumental folhetim!