sábado, 12 de fevereiro de 2011

A última vez que a viu


Aquele foi o último sábado em que a viu. Ela não retornava suas ligações e ele decidiu sair um pouco à rua para espairecer. As nuvens cinzentas prenunciavam, desde quinta, um aguaceiro bíblico. Mesmo com o alerta, ignorou o guarda-chuva atrás da porta.

Percorreu a Rua do Alecrim encarando montras e clientes das tascas. Numa delas, dava na tevê o Sporting-Paços Ferreira. Recuou o pescoço para verificar o placar e foi seduzido por aquele perfume dos caracóis. Chegou à Baixa lotada de nativos e turistas, desviou-se à frente de A Brasileira, dobrou à esquerda nos Armazéns do Chiado e desceu a Garret para repousar, entre pombos e loucos, num banco de mármore da Praça Dom Pedro IV.

Com o coração ferido e sob a sinfonia da flauta-pan, observou as pessoas a passearem e os casais a se amarem. Tentou suspender as memórias dela. A primeira gota doce atingiu-lhe em cheio a testa e deslizou pelo sobreolho direito. O segundo vestígio do temporal trouxe a enxurrada subitamente.

Pareceu uma miragem. Sua visão turva demorou a focá-la abraçada a um homem debaixo da marquise do café Nicola. Ela beijou o estranho de um jeito brando e deixaram escapar dois sorrisos cúmplices de quem se surpreende pela chuva e pela paixão, ambas a avançar sem aviso.

Anestesiado, fez dos pingos suas abundantes lágrimas silenciosas. O futuro era aquele guarda-chuva fechado, recostado na parede de seu rés-de-chão.

Um comentário:

Flora disse...

Ler isso ouvindo o fado do António Zambujo quase me fez chorar. ;]