sábado, 19 de março de 2011

Para foder, para casar


― Essa é pra foder... Essa é pra casar... Essa é pra foder... Essa é pra casar...

Tomavam uma cerveja na Barceloneta e definiam, com critérios muito próprios e específicos, que tipo de mulher era para uma noite e que tipo de mulher era para a vida toda.

― E por que não casar com uma que a gente gosta só de foder? Ou melhor ainda: só foder uma garota que a gente vê potencial pra casar ― ele perguntou, com uma inocência tocante.

― Tá brincando, né? Porra meu velho, isso é a regra básica de todo homem! Até as mulheres sabem disso e vestem-se de uma ou de outra personagem ― contestou o amigo, que intercalava a resposta com a busca frenética.

O semblante dele denunciou a falta de entendimento. “Até as mulheres sabem? Como assim?”, pensou. Como se lesse mentes, o amigo abandonou a rua e voltou-se a ele com uma explanação definitiva.

― É assim, ó ― disse, pacientemente ―, nenhuma mulher mostra-se dessa ou de outra maneira porque é seu jeito de ser. Não, senhor. A mulher que quer algo sério com o rapaz vai se fazer de difícil, vai adiar ao máximo o sexo, vai querer ser a “pra casar”...

Ajeitou-se na cadeira, lançou uma azeitona na boca e prosseguiu:

― Mas a mulher também consegue ser safada, também pode ser safada. E vou além: é muito mais safada do que a gente cogita. Daí então ela incorpora esse lado femme fatale, de que está disposta somente a sexo. O que, afinal de contas, não impede de ela ser para casar, mas não é isso que mostra no momento ― finalizou, desferindo um tapa na mesa e procurando com os olhos o empregado para pedir mais uma.

― Essa é de foder... ― foi o comentário que soltou, quase inaudível, antes de retomarem a atenção à passarela.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Aquele momento eternizado


O único ruído na praia deserta era o das ondas quebrando. Ela alcançou a mão dele, pousada na areia, e cobriu-a com a sua. O coração do rapaz abandonou o peito, escalou descontrolado a garganta e foi parar na boca.

― Há momentos da nossa vida que a gente sabe, simplesmente sabe, que nunca irá esquecer. Como um quadro que é pintado na mesma hora e pendurado na parede da memória ― ela balbuciou. ― Este é um desses momentos.

Seus olhos se buscaram. Ela sustentava um sorriso manso, sem mostrar os dentes. Os lábios pronunciavam-se quietos. Tinham um contorno perfeito. Ele contemplou o desenho da boca e o rosto angelical da garota enquanto esforçava-se para manter o coração no lugar de sempre.

A espuma lambeu docemente seus pés. Ela voltou a vista para o mar. Suas mãos continuaram apoiadas uma na outra, confundidas com os grãos prateados. Depois de anos, aquela ainda era a tela que ele enxergava no escuro.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Aprendendo com as libélulas


― Porra meu, aconteceu de novo!

Era a segunda vez que o amigo ligava para ele em menos de uma semana.

― Tudo bem, ela riu, nem esquentou, mas fiquei com aquela cara, né? Afinal, não tou mais na idade disso ― contou, com a voz estremecida.

“Acontece...”, ele balbuciou. Estava ocupado demais assistindo a um programa sobre o acasalamento das libélulas. O amigo metralhou:

― Eu sei que acontece, só que convenhamos: é culpa delas também! Claro que é! Naquela outra noite tava tudo certo e quando chegou a hora, eu empaquei. Fiquei lá, uns 10 minutos pra conseguir. Beleza, fiquei tanto tempo porque eu dispensei a ajuda dela e tal...

Antes de qualquer reação do outro lado do aparelho, o amigo retomou o fôlego.

― E ontem era de um modelo que nunca tinha visto! Que abre na frente, vê se pode?

― Quer saber, meu velho? Vai numa loja e compra logo todos os tipos de sutiãs que existem no mercado. Assim você não passa mais a vergonha de não conseguir vencê-los. Ou então compra uma tesoura e faz o estilo do sexo selvagem. Agora deixa eu ir que as libélulas têm muito a nos ensinar...

quarta-feira, 16 de março de 2011

A manequim sem rosto


Vivia perto de uma boutique chique. Por quatro dias seguidos, contemplou no contentor do lixo, entre caixas de papelão e sacos plásticos, aquela manequim acéfala, pálida e sem braços. Na sexta-feira, voltando do trabalho, parou e recolheu a mulher de fibra de vidro.

Desconhecendo a própria motivação, acomodou-a num canto da sala. Assistiam ao noticiário juntos, aos filmes do canal a cabo, ao futebol de quarta e de domingo. Vez ou outra, surpreendia a si mesmo com um comentário à boneca.

As semanas avançaram e a obsessão aumentou. Trajes femininos começaram a aparecer em seu roupeiro. De início, uns vestidos lisos e leves. Depois, coleções inteiras tiradas das magazines de moda, combinando com a estação do ano.

Todas as manhãs, entre a torrada com manteiga e o café com leite, dedicava meia hora para trocá-la e repassar em voz alta as novidades do jornal. Lia as tirinhas esperando que aquele corpo ganhasse rosto e braços, risse da situação toda e o envolvesse com gratidão por ter sido salvo de seu infortúnio.

terça-feira, 15 de março de 2011

Aroma fiel de prazer


Era um tipo olfativo. As mulheres conquistavam-no pelo cheiro natural que nascia no pescoço e ia até o cólon, pelo aroma que aturdia antes de um beijo, pelo olor de prazer que exalava da vagina molhada de excitação.

Um dia casou. Na igreja. Trezentos convidados, recepção em hotel de luxo. Carpaccio de avestruz e uísque escocês. Casou com aquela que o enlouquecera antes mesmo de roçarem os lábios. Aquela que só de dividirem o ambiente já o incidia a desejos eróticos lascivos. Casou, para além da bela e inteligente moça, com o deleite olfativo que ela o proporcionava.

Como num conto de fadas, a carreira deslanchou depois do matrimônio. Passou a representar a empresa em outras cidades. Quando voltava para casa, após dias e dias de ausência, recebia e era recebido por uma paixão ainda juvenil, ainda de primeiro encontro. O tesão pelo cheiro da esposa não cessava, não sucumbia ao tempo.

O segredo era simples. Ela sempre depositava na bagagem do marido uma calcinha com seu perfume íntimo e infalível. Escolhia uma nova peça para cada viagem, a usava por 24 horas e depois escondia no fundo da mala, entre as calças oxford e as camisas sociais. Como um cão que sabe o caminho do lar, não tinha como ele ser infiel ao próprio faro.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O veneno de se enganar


“Não sei bem o que você quer, mas deixe-a em paz”.

O e-mail incorporava esse tom. O namorado havia descoberto tudo. O romance shakespeariano ruía, desmoronava numa tragédia vil. Aquela paixão perfumada e proibida encontrava o seu destino fétido.

― Nada disso é real. E quando dermos com a cabeça no cimento será bem pior. Sabes disso, não sabes? ― ele a perguntou certa vez, acariciando com a ponta dos dedos o dorso nu e brincando com os calafrios que a incitava.

Agora viviam o risco do “nunca mais”. Do desfecho austero e fatal. Como ter notícias dela? Estava bem? Ele a teria feito algo de ruim, alguma ameaça? Fechou os olhos e lembrou-se do último encontro sorrateiro do casal, da poesia que brotou dos lábios finos e desenhados daquela mulher que parecia saída dos romances de Zafón.

― Se existe alguma coisa pior que enganar o mundo, é enganar a si mesmo...

Foi quando iluminou-se a convicção da resposta. Queria ela.

domingo, 13 de março de 2011

Despir uma mulher com os olhos


Os dois amigos vinham pela Carrer de Sant Salvador lembrando o jogo do Barça, o golaço do Messi, a atuação esplendorosa do Iniesta quando uma morena digna de publicidade de lingerie cruzou-lhes a frente.

Instantaneamente o assunto findou. Emudeceram. Não havia mais Messi ou Iniesta. Não havia mais magia blaugrana e chegaram mesmo a duvidar se alguma vez o próprio futebol existiu. Ela deteve-os com um “perdó” delicado e pediu informação. Queria saber da Plaça de Rius i Taulet, a da torre com o relógio.

Enquanto explicavam a vereda entre prédios gris, sentiram o perfume de seu cabelo negro e a inocência de seu sorriso branco colorirem a noite. Imaginaram aquela aquarela despida e exposta: a firmeza de seus seios, o desenho de seu umbigo, a textura de suas coxas, a curva de suas nádegas, a depilação que escolhia...

Ela agradeceu a ajuda e seguiu. A dupla, atônita, ainda acompanhou os movimentos de quadril até a musa sumir pela Carrer de Verdi. Ignoraram de vez a resenha esportiva e empreenderam o resto do trajeto num silêncio dissoluto. Num silêncio de fazer corar.

sábado, 12 de março de 2011

A última coisa dita


Fazia tanto frio que ele não podia sentir mais as mãos. Ela as recolheu entre seus braços e apertou-as forte contra o peito. Notou-lhe a pulsação fraca.

― Sabe ― murmurou, desviando o olhar para o horizonte infinito ―, a gente está sempre buscando a última frase. Estamos sempre à escolha da última coisa dita antes da morte. Algo que marque, que fique, que perpetue.

Estavam no seu lugar preferido de Barcelona: o Parc Güell. O azul do mar se misturava ao céu, e vice-versa. Entre montanha e água, erguiam-se torres, palácios e histórias. Ele franziu a testa. Aquelas palavras confundiram-no, e ela percebeu.

― Não se espante. É Nelson Rodrigues. Sabes mais que ninguém como ele conseguia ser trágico na sua narrativa. Achei que deverias ouvir isso ― afirmou, levando as mãos acalentadas às suas bochechas para verificar se já estavam quentes.

― Há ainda as mortes simbólicas ― ela continuou. ― E, de toda maneira, as últimas palavras também servem para esse caso.

Beijou-lhe então as palmas das mãos com carinho materno e pôs-se a descer a trilha. O amanhã se despistava. Ele levantou e saltou. Só se escutou o vento.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Estou gorda? (Caso 3)


― Tou gorda?

― Um bujãozinho.

― Fala sério! Tou me sentindo cheia, flácida, pelancuda. Olha aqui, ó, não tinha esse pneu! Muito menos essa banha horrível.

― Relaxa, eu também não tinha essa pança de chope.

― Não é piada. Eu tou gorda sim, sei que tou.

― Então o que adianta perguntar pra mim?

― Ao menos diga que tou linda assim, como um consolo ou coisa do tipo.

― Tá linda assim, meu amor.

― Gorda?

― Um bujãozinho sexy.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Estou gorda? (Caso 2)


― Tou gorda?

― Não ― respondeu de supetão.

― Mas como você sabe se nem olhou pra mim?

― É que olhei ontem e anteontem, e você não tava. É impossível que esteja hoje.

― Olhou ontem e anteontem por quê? Por acaso pra conferir se engordo com o passar dos dias?

― Exatamente. Costumo fazer um balanço semanal da situação.

― Deixa de graça, vai. Uma mulher achar que tá gorda é igual a um homem achar que tá ficando careca.

― A diferença é que não temos nada a ver com os quilinhos a mais de vocês. Já o contrário...

quarta-feira, 9 de março de 2011

Estou gorda? (Caso 1)


― Tou gorda?

Foi pego de surpresa, enquanto arrumava a cama. Olhou para ela.

― Se você olhou é pra ver se tou mesmo. Tou, não tou? Eu sabia! E você nem é capaz de mentir, de dizer que “não” só pra me fazer feliz. Nossa, eu tou uma baleia!

Ele permaneceu mudo. Afofou os travesseiros, jogou-os por cima do lençol esticado, agarrou-a por trás e derrubou-a na cama.

― Odeio as coisas metodicamente certas ― sussurrou na concha do ouvido dela, ao passo que deslizava sua saia recém-vestida.

terça-feira, 8 de março de 2011

Tão longe, tão perto


― Um dia ainda vou juntar tudo que tenho e sair daqui, sabe? ― disse o amigo, procurando na rádio uma música que prestasse.

― Vai nada. Você vive dizendo isso, mas sempre inventa desculpas e mais desculpas pra ficar. E olha pra frente, rapaz, enquanto tá dirigindo!

― Porra, não são desculpas. É que coisas surgem no meio do caminho e daí não posso deixar de aproveitar as oportunidades ― tinha conseguido sintonizar Stay, do U2.

― Deixa aí, deixa aí... curto demais essa música. Mas, na boa, o que essas oportunidades te trouxeram até hoje? ― ele inquiriu.

― Muita coisa!

― Sim, muita coisa como a vontade de juntar tuas tralhas e mudar, fugir, sair daqui, por exemplo? Pode virar já a próxima à direita...

― Beleza. Não, essa vontade já é antiga ― firmou, batucando no volante os acordes do refrão. ― Você sabe, não se alterou com o passar dos anos.

― Justamente. Tu continuas com a mesma vontade, mas os anos vão passando. É aqui, chegamos. Mas deixa acabar a música antes de descermos.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Coisa normal é broxar


― Duvido... ― ela contestou, enquanto abotoava o sutiã.

― Eu juro, é a primeira vez que rola isso comigo.

Estavam nos amassos quentes e, na hora “H”, nada. Tentaram alguns truques e, mesmo assim, nada. “Coisa normal, acontece com todo homem em algum momento da vida”, consolou-se. Mas é algo que nunca se espera.

Mentiu quando disse que era a primeira vez. Já lá ia para a terceira ou quarta.

― Relaxa, não tem problema ― ela contemporizou, achando por alguns segundos que o problema, na verdade, podia ser ela.

Ele ficou deitado, nu, pensando nas causas: estresse no trabalho, bebida em excesso, falta de tesão, receio de não dar conta do recado, quebra do clima para colocar o preservativo... Nada parecia fiável. Nada parecia ao menos uma desculpa.

― Nos vemos de novo? ― ele arriscou.

― Desse jeito não dá...

― Mas você disse que não tinha problema.

― Falo da mentira. Por mais difícil que seja admitir uma broxada, ao menos espero um cara que seja sincero comigo. Desse jeito não dá... ― e saiu, pegando sua bolsa.

domingo, 6 de março de 2011

Fantasia de Carnaval


― É serio isso?

― O quê?

― Que você voltou por causa dela?

― Por causa de quem?

― Você sabe.

― Não.

― E o que é isso?

― Isso o quê?

― Que você está usando. Esta fantasia.

― É Carnaval...

― Eu sei. Mas o que é?

― Dom Quixote.

― Hmmm.

sábado, 5 de março de 2011

O amor só acontece em filme


― Você já viu aquele filme que o pai do personagem principal morre e ele conhece uma comissária de bordo, daí ele viaja para a cidade que o pai vai ser enterrado...? ― ela perguntou enquanto buscavam um banco para descansar na Plaça d'Urquinaona.

Ele suspirou pensativo, coçando o topo da cabeça, divertido pelo jogo de memória.

― Sei... é o... como é mesmo o nome...? Elizabethtown! Com o Orlando Bloom e a Kirsten Dunst. Não é isso?

― É! Isso mesmo. Um dia desses revi aquela cena do telefonema, sabe? Que eles ficam horas e horas conversando, logo quando acabam de se conhecer no avião...

― Hum. E daí?

― Daí que me deu uma vontade danada de viver algo parecido com aquilo.

― O quê? Essas coisas que só acontecem nos filmes? ― contestou com ceticismo, tentando provocá-la ao máximo. ― Vocês mulheres quando têm essa chance desperdiçam, e depois ficam choramingando que nada acontece, que homens românticos e apaixonados não se criam mais. Se um cara faz isso na vida real vocês logo acham que ele está desesperado, ou é grudento demais, louco, mentiroso... Ou tudo junto.

Ela levantou e começou a caminhar em direção à Via Laietana. Ele ainda a seguiu com o olhar, mas o movimento dos carros fez com que a perdesse no horizonte cinzento. “Talvez tenha sido duro demais”, pensou antes de distrair-se com um cão urinando no pneu de sua bicicleta.