quarta-feira, 16 de março de 2011

A manequim sem rosto


Vivia perto de uma boutique chique. Por quatro dias seguidos, contemplou no contentor do lixo, entre caixas de papelão e sacos plásticos, aquela manequim acéfala, pálida e sem braços. Na sexta-feira, voltando do trabalho, parou e recolheu a mulher de fibra de vidro.

Desconhecendo a própria motivação, acomodou-a num canto da sala. Assistiam ao noticiário juntos, aos filmes do canal a cabo, ao futebol de quarta e de domingo. Vez ou outra, surpreendia a si mesmo com um comentário à boneca.

As semanas avançaram e a obsessão aumentou. Trajes femininos começaram a aparecer em seu roupeiro. De início, uns vestidos lisos e leves. Depois, coleções inteiras tiradas das magazines de moda, combinando com a estação do ano.

Todas as manhãs, entre a torrada com manteiga e o café com leite, dedicava meia hora para trocá-la e repassar em voz alta as novidades do jornal. Lia as tirinhas esperando que aquele corpo ganhasse rosto e braços, risse da situação toda e o envolvesse com gratidão por ter sido salvo de seu infortúnio.

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