segunda-feira, 14 de março de 2011

O veneno de se enganar


“Não sei bem o que você quer, mas deixe-a em paz”.

O e-mail incorporava esse tom. O namorado havia descoberto tudo. O romance shakespeariano ruía, desmoronava numa tragédia vil. Aquela paixão perfumada e proibida encontrava o seu destino fétido.

― Nada disso é real. E quando dermos com a cabeça no cimento será bem pior. Sabes disso, não sabes? ― ele a perguntou certa vez, acariciando com a ponta dos dedos o dorso nu e brincando com os calafrios que a incitava.

Agora viviam o risco do “nunca mais”. Do desfecho austero e fatal. Como ter notícias dela? Estava bem? Ele a teria feito algo de ruim, alguma ameaça? Fechou os olhos e lembrou-se do último encontro sorrateiro do casal, da poesia que brotou dos lábios finos e desenhados daquela mulher que parecia saída dos romances de Zafón.

― Se existe alguma coisa pior que enganar o mundo, é enganar a si mesmo...

Foi quando iluminou-se a convicção da resposta. Queria ela.

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