sábado, 12 de março de 2011

A última coisa dita


Fazia tanto frio que ele não podia sentir mais as mãos. Ela as recolheu entre seus braços e apertou-as forte contra o peito. Notou-lhe a pulsação fraca.

― Sabe ― murmurou, desviando o olhar para o horizonte infinito ―, a gente está sempre buscando a última frase. Estamos sempre à escolha da última coisa dita antes da morte. Algo que marque, que fique, que perpetue.

Estavam no seu lugar preferido de Barcelona: o Parc Güell. O azul do mar se misturava ao céu, e vice-versa. Entre montanha e água, erguiam-se torres, palácios e histórias. Ele franziu a testa. Aquelas palavras confundiram-no, e ela percebeu.

― Não se espante. É Nelson Rodrigues. Sabes mais que ninguém como ele conseguia ser trágico na sua narrativa. Achei que deverias ouvir isso ― afirmou, levando as mãos acalentadas às suas bochechas para verificar se já estavam quentes.

― Há ainda as mortes simbólicas ― ela continuou. ― E, de toda maneira, as últimas palavras também servem para esse caso.

Beijou-lhe então as palmas das mãos com carinho materno e pôs-se a descer a trilha. O amanhã se despistava. Ele levantou e saltou. Só se escutou o vento.

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