sábado, 30 de abril de 2011

Não é quem, é quando (2)

O som bruto da cidade chegava distante no quarto semiescuro do sexto piso. Podia-se ouvir com mais realidade a voz abafada de Sam Cooke, em You Send Me, florescendo na sala. Ana terminava o seu Marlboro Light. Tinha a cabeça no tórax desnudo de Binho e um cinzeiro improvisado jazia sobre o umbigo do rapaz. Ele acariciava as mechas castanhas da moça, deixando que o cansaço aos poucos o levasse.

— Não é quem, Binho. É quando — murmurou Ana.

— Ahn? — gemeu o homem, sem reconhecer-se naquele ruído.

— Vi isso num filme. Que não é a pessoa, que não é isso que dita se um relacionamento vai acontecer ou não. É o tempo. Tudo se resume ao tempo. Se duas pessoas se conhecem, mas estão num tempo distinto, se uma quer namorar e a outra quer estar solteira, se uma quer casar e a outra comprar uma bicicleta, então nunca dará certo — explicou.

O ponto final coincidiu com o término da canção. O nada envolveu o ambiente. Ana chupou o cigarro uma vez e assoprou a fumaça para o alto, erguendo o queixo como uma Cleópatra de película antiga.

— Binho? — chamou.

— Oi.

— Está dormindo?

— Não.

A mulher virou-se para se certificar. Ele arregalou os olhos num esforço hercúleo para fazer jus à resposta. Ela sorriu, apagou a bituca, depositou no chão a tampa de Nutella com as cinzas e voltou a aconchegar a cabeça na posição anterior.

— Você também acredita nisso? — perguntou, roçando o cabelo bagunçado nas mãos do rapaz.

— Em quê?

— Que não é quem, mas quando.

— Acredito que o quem muitas vezes supera qualquer coisa. Se for a pessoa certa não vai ter essa de tempo.

— E como saberemos que é a pessoa certa sem ter tempo?

— Sentindo, ué...

— Sentindo? Não sei. Acho utópico demais, só dá certo no cinema americano. Ainda mais hoje, que o peso da carreira, da liberdade, dos ideais, da vontade própria é tudo muito forte, muito decisivo. As pessoas não se dão mais ao luxo de sentir, Binho. Elas fazem escolhas.

— Então há um paradoxo — disse o homem, subindo um pouco mais e ajeitando-se na cama.

— Um paradoxo? Como assim?

— Ouço sempre por aí, de amigos e de amigas, que eles querem encontrar uma pessoa bacana, alguém para estar junto e tal. Não há pureza nessa busca?

— Pode até haver pureza, mas só se os interesses coincidirem. E quem dita esses interesses é o tempo de cada um. Duas pessoas não vão se juntar e se entregar caso uma queira priorizar uma coisa, a vida profissional por exemplo, e a outra queira constituir família. Não concorda? — completou Ana, desvencilhando-se dos braços do rapaz e virando-se de bruços. Atracou os cotovelos no colchão.

Num V invertido, ela sustentava o queixo com as mãos. A cama ainda balançava e rangia com a ação repentina e brusca. Ana tinha as pernas dobradas e girava os tornozelos alternadamente, para um lado e para o outro. Binho se viu diante da Lolita de Nabokov.

— Você está falando do filme ou da gente? — ele perguntou com malícia.

A jovem fitou os olhos negros do rapaz e surpreendeu-se com um rosto cansado. Ele parecia mais velho que nunca na meia-luz. Desviou a mirada para o relógio digital que piscava três e trinta e três em vermelho. Binho continuou.

— Sei que nos conhecemos há pouco tempo e sei que você não quer nada sério, o que eu não sei é se a gente ganha ou perde com isso, com essa teoria do quem e do quando.

— Isso é impossível saber — a resposta soou seca, apesar de não ser a intenção.

— Pois para mim o quem faz o quando.

— Não diga bobagem, Binho. Você sabe que não é verdade. Se eu me mudar para o Iraque na semana que vem e você estiver a ponto de conseguir aquele cargo que sempre almejou, você acha que uma relação entre nós dois vai dar certo? Claro que não, porque o nosso quando será distinto.

— Se eu achar que vale a pena irei contigo.

— O quê?

— Se achar que você é o quem, iria sem pensar duas vezes.

— Você é louco...

— Não, eu sinto. Só isso. Estou cansado de fazer escolhas, Ana. Falta-nos sentir e seguir a intuição, não é isso? A vida é assim. Por isso, para mim, o quem supera o quando nesses casos. O quem pode perder várias batalhas, mas ao vencer uma, uma só que seja, valerá por toda a guerra.

A moça deixou o rosto escorrer pelas mãos e a cabeça deslizar lentamente até encontrar o colchão. Encostou-o a orelha direita e, quase ao mesmo tempo, sentiu o bafo de Binho aquecer sua nuca. O rapaz havia mudado a posição com agilidade felina e se sustentava pelos braços por cima de Ana. Ela se arrepiou com o contato. Seus corpos se encaixaram e a mulher soltou um gemido suave de prazer.

Com Binho dentro de si, Ana teve a sensação de ser aquele quarto semiescuro do sexto piso: blindado dos sons da rua e distante das canções românticas, mas ainda assim esquivando-se do silêncio sepulcral da madrugada.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Se arrependimento matasse...

— Eu sinto a sua falta.

Do outro lado da linha, a voz de Lurdes tremia. As lágrimas deslizavam por suas bochechas pálidas enquanto ela enrodilhava o cabelo. A TV muda mostrava um filme de terceira categoria.

— Não pensei que seria assim, mas sinto.

Rodrigo não sabia o que responder. Foi Lurdes que quis terminar o namoro três meses atrás. Ele já tinha preparado o pedido, reservado mesa no Antiquarius, comprado a aliança de ouro branco conforme a vontade da moça. Tinha gravado as iniciais L&R. Então Lurdes abriu mão. De tudo. Do emprego na construtora, de São Paulo, de Rodrigo.

— Melhor desligar — ele disse.

Ela não conseguiu emitir um som. Nem de sim, nem de não. O dedo parou num caracol. Apertou os olhos e desprenderam-se mais gotas. Foi nesse instante que soube que havia perdido Rodrigo. Foi nesse instante que um arrependimento mordaz rompeu sua barriga e subiu até a garganta. Lurdes tentou engolir a saliva, respirar normalmente, mas o futuro estava entalado em sua glote. Piscou debilmente e apoiou a testa com a mão já sem serventia para o cabelo.

— Lu, me ouviu? É melhor eu desligar. Não tem porquê nos falarmos de novo. Eu comecei a superar tudo isso, foi muito difícil, mas estou melhorando a cada dia — ponderou Rodrigo, andando de um lado para o outro na cozinha medindo seus passos nos azulejos.

Então era assim, ela pensou. O fim tinha esse sabor nauseante. Percebeu que a sensação de três meses atrás, no término oficial, não havia sido nada comparada a esta falta de perspectiva que agora a aturdia e baqueava. A palavra nunca rompeu o seu peito. Alcançou o controle remoto e apagou a TV, que estampava uma família feliz num típico carro americano. Levantou-se de supetão para abrir a janela. Tonteou.

— Rodrigo... — foi o que conseguiu balbuciar.

A brisa percorreu a sala de uma vez. A cortina branca de cetim embalou o ventre de Lurdes. A palavra nunca teimou em permanecer no ambiente. Lá fora a vida parecia a de sempre. Uma jovem ajeitava a bolsa no ombro para poder acender o cigarro. A mãe passeava com o bebê no carrinho. O homem brincava de bola com dois garotos trajados ainda com o uniforme de escola.

— Eu te amo, Rodrigo. Eu sei que te amo — ela completou.

— Eu já soube isso. Hoje não mais, Lurdes. Hoje não mais... — e desligou.

A moça permaneceu uns dois minutos com o telefone apoiado no ouvido. O sinal findou, a linha silenciou, o pensamento de Lurdes emudeceu. Ela devolveu o aparelho à base, apanhou as chaves na mesa de centro, vestiu o casaco preto em sarja e saiu. A palavra nunca a seguiu. Lurdes mal encostou o indicador no botão com seta para baixo e se lembrou que o elevador estava em manutenção.

Suspirou em dois tempos. Desceu os seis lances de escada mecanicamente. Só notou o filete vermelho escorrendo pela coxa direita quando venceu a pesada porta de entrada e alcançou a rua. Tonteou. A visão enegreceu e Lurdes rodou sobre o próprio eixo. Caiu desmaiada, amparada pelo rapaz que distribuía publicidade de automóveis.