quarta-feira, 20 de abril de 2011

Se arrependimento matasse...

— Eu sinto a sua falta.

Do outro lado da linha, a voz de Lurdes tremia. As lágrimas deslizavam por suas bochechas pálidas enquanto ela enrodilhava o cabelo. A TV muda mostrava um filme de terceira categoria.

— Não pensei que seria assim, mas sinto.

Rodrigo não sabia o que responder. Foi Lurdes que quis terminar o namoro três meses atrás. Ele já tinha preparado o pedido, reservado mesa no Antiquarius, comprado a aliança de ouro branco conforme a vontade da moça. Tinha gravado as iniciais L&R. Então Lurdes abriu mão. De tudo. Do emprego na construtora, de São Paulo, de Rodrigo.

— Melhor desligar — ele disse.

Ela não conseguiu emitir um som. Nem de sim, nem de não. O dedo parou num caracol. Apertou os olhos e desprenderam-se mais gotas. Foi nesse instante que soube que havia perdido Rodrigo. Foi nesse instante que um arrependimento mordaz rompeu sua barriga e subiu até a garganta. Lurdes tentou engolir a saliva, respirar normalmente, mas o futuro estava entalado em sua glote. Piscou debilmente e apoiou a testa com a mão já sem serventia para o cabelo.

— Lu, me ouviu? É melhor eu desligar. Não tem porquê nos falarmos de novo. Eu comecei a superar tudo isso, foi muito difícil, mas estou melhorando a cada dia — ponderou Rodrigo, andando de um lado para o outro na cozinha medindo seus passos nos azulejos.

Então era assim, ela pensou. O fim tinha esse sabor nauseante. Percebeu que a sensação de três meses atrás, no término oficial, não havia sido nada comparada a esta falta de perspectiva que agora a aturdia e baqueava. A palavra nunca rompeu o seu peito. Alcançou o controle remoto e apagou a TV, que estampava uma família feliz num típico carro americano. Levantou-se de supetão para abrir a janela. Tonteou.

— Rodrigo... — foi o que conseguiu balbuciar.

A brisa percorreu a sala de uma vez. A cortina branca de cetim embalou o ventre de Lurdes. A palavra nunca teimou em permanecer no ambiente. Lá fora a vida parecia a de sempre. Uma jovem ajeitava a bolsa no ombro para poder acender o cigarro. A mãe passeava com o bebê no carrinho. O homem brincava de bola com dois garotos trajados ainda com o uniforme de escola.

— Eu te amo, Rodrigo. Eu sei que te amo — ela completou.

— Eu já soube isso. Hoje não mais, Lurdes. Hoje não mais... — e desligou.

A moça permaneceu uns dois minutos com o telefone apoiado no ouvido. O sinal findou, a linha silenciou, o pensamento de Lurdes emudeceu. Ela devolveu o aparelho à base, apanhou as chaves na mesa de centro, vestiu o casaco preto em sarja e saiu. A palavra nunca a seguiu. Lurdes mal encostou o indicador no botão com seta para baixo e se lembrou que o elevador estava em manutenção.

Suspirou em dois tempos. Desceu os seis lances de escada mecanicamente. Só notou o filete vermelho escorrendo pela coxa direita quando venceu a pesada porta de entrada e alcançou a rua. Tonteou. A visão enegreceu e Lurdes rodou sobre o próprio eixo. Caiu desmaiada, amparada pelo rapaz que distribuía publicidade de automóveis.

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