sexta-feira, 20 de maio de 2011

“O medo nos fará continuar cegos”

As palavras de André nunca mais se apartaram de mim depois do que aconteceu naquela tarde. As pessoas não se olham mais nos olhos, disse com a visão perdida nos carros que passavam. Entreguei-lhe o livro que há tempos me pedia emprestado e despedi-me com  um cumprimento forte, mas corriqueiro, e um tapa camarada no seu ombro direito. Foi a última vez que nos vimos.

Seis horas depois André foi atropelado. Morreu debaixo de um Ford F1000 modelo 1991 quando decidiu atravessar a rua pela frente do ônibus parado no ponto. Queria ganhar uns segundos e perdeu toda a vida. As pessoas não se olham mais nos olhos, disse meu amigo, e um dos principais motivos é a pressa, completou. A camioneta vinha a menos do limite da via: sessenta quilômetros por hora. Imagino se o motorista ainda chocou-se com a mirada aterrorizada de André antes de acertar-lhe em cheio. Foi a primeira e última vez que se viram.

Recordo de suas pernas descobertas pelo pano que cobria o cadáver. Mas isso foi no dia seguinte, no jornal da tevê. Não me lembro, apesar de fazer um esforço imenso, como soube da notícia do acidente. Às oito já estava adormecido no sofá. Sonhei que me afogava num poço profundo e despertei de sobressalto, ofegante e suado. Alguns minutos depois, creio – porque a recordação que tenho mais forte é a do sonho –, recebi a ligação de uma colega anunciando a morte. Só chorei no dia posterior, quando reconheci a bermuda que André trajava no instante fatal. Ao lado do corpo envolto por sangue, o livro emprestado.

O maior dom de André era conversar sozinho. Às vezes, no silêncio das provas, ouvia-o se insultar de um modo debochado, espontâneo. Você é muito burro André, dizia quando não sabia responder a uma questão. Eu sorria na cadeira da frente, imaginando que seus olhos infinitos também se divertissem com aquilo. Agora eu que lhe digo em silêncio: Você foi muito burro André. Mas todos nós somos burros em distintos momentos da vida, em muitos momentos da vida. Alguns dão o azar de ser justo quando não se deve sê-lo.

Hoje busco por todo lado olhos que me salvem de mim mesmo e da nossa solidão coletiva, olhos que me redimam da bênção de não ter sido eu a apanhar aquele ônibus e cruzar a rua apressado. Carrego as palavras simples, e ainda assim poderosas, que André recitou ao despedir-se na porta da escola. Sorrio com o olhar, como ele fazia de maneira terna, mesmo quando ninguém está por perto. E repito alto, quando quero tirar o peso de uma situação ruim: Você é muito burro, muito burro.

Porém recordei-me do André e desta história porque ontem, após quinze anos, resolvi comprar outro exemplar do livro que se foi junto ao meu amigo. Quando a mirada delicada da vendedora deteve-se sobre a minha, perguntei-a com a voz trêmula se tinha o Ensaio sobre a cegueira. Sim, me disse carinhosa, aguarda só um segundo que já vou pegar. Retornou com a obra e um sorriso. No caminho para casa vi o papel solto, com seu nome e número de telefone, marcando a página cento e trinta um. Engraçado, chama-se Andréa.

terça-feira, 10 de maio de 2011

A perda é quando se encontra

— O que foi? — Pedro a espiava com o canto do olho enquanto caminhavam pensativos pelo parque. Tinha as mãos socadas no bolso da calça e os ombros encolhidos. Lya tomava um sorvete de chocolate com menta.

— Nada — respondeu a garota.

— Diz, Lya, por que estás me olhando assim? Aconteceu alguma coisa?

— Estou pensando... Bem, estou pensando em como será quando te perder — titubeou, entre uma pequena pá e outra levadas à boca. Fazia um calor infernal.

— Me perder? Como assim? Tu nunca irás me perder.

— Eu já te perdi, Pedro.

— Como é? — ele parou de súbito, arqueando os cotovelos e elevando o volume dos bolsos com as mãos. Lya continuou no mesmo passo.

— Eu já te perdi. No momento em que começamos a viver algo, no primeiro instante em que realizamos os nossos desejos, aí, justo aí, passamos a não pertencer mais um ao outro. Nos perdemos – concluiu, mordendo uma lasca do cone.

— Deixa de ser tonta, Ly. O que é que estás dizendo? Que não deveríamos ter vivido nada do que vivemos?

— Ah, deixa para lá... — ela sentou-se bruscamente num banco próximo ao casal que treinava malabarismos com pinos.

— Deixa nada para lá. Eu agora quero entender — apesar da rigidez no timbre da voz Pedro tinha o semblante compreensivo. Demorou uns segundos em pé antes de ceder ao descanso.

— Claro que não estou dizendo que não deveríamos ter vivido tudo isto — Lya argumentou, partindo o fundo do cone com os dentes e sugando o resto do sorvete. — Vivemos e está sendo maravilhoso. Estou só dizendo que o que não é materializado é sempre imortal, sempre eterno, enquanto a realidade é perecível. Só recordamos o que nunca aconteceu.

— Pois irei recordar de ti para sempre. E acontecemos — disse ele, buscando o olhar perdido da moça. Ela retribuiu com um pequeno sorriso. A franja tapava parte da sua visão.

— Não leve para o lado pessoal, Pedro. Só tenho medo de como será quando não estiver mais contigo.

— Do mesmo jeito que foi antes.

— Já me acostumei com a tua presença... — balbuciou, dobrando metodicamente o guardanapo sem aperceber-se do que fazia.

— Esse é justamente o fármaco de qualquer relacionamento: a sua saúde e a sua doença.

— O que dizes?

— Que o costume, ao mesmo tempo em que cria o conforto e as intimidades, nos acomoda. Se mencionavas a perda, e a temia, acho que é mesmo assim que o fim se inicia: com o costume à presença.

— Talvez tenhas razão... — ela concordou, esgotada.

Os dois permaneceram mudos por alguns segundos.

— Pedro?

— Quê?

— Preciso te contar uma coisa.

— Diz.

— Já está na hora de despertares.