terça-feira, 10 de maio de 2011

A perda é quando se encontra

— O que foi? — Pedro a espiava com o canto do olho enquanto caminhavam pensativos pelo parque. Tinha as mãos socadas no bolso da calça e os ombros encolhidos. Lya tomava um sorvete de chocolate com menta.

— Nada — respondeu a garota.

— Diz, Lya, por que estás me olhando assim? Aconteceu alguma coisa?

— Estou pensando... Bem, estou pensando em como será quando te perder — titubeou, entre uma pequena pá e outra levadas à boca. Fazia um calor infernal.

— Me perder? Como assim? Tu nunca irás me perder.

— Eu já te perdi, Pedro.

— Como é? — ele parou de súbito, arqueando os cotovelos e elevando o volume dos bolsos com as mãos. Lya continuou no mesmo passo.

— Eu já te perdi. No momento em que começamos a viver algo, no primeiro instante em que realizamos os nossos desejos, aí, justo aí, passamos a não pertencer mais um ao outro. Nos perdemos – concluiu, mordendo uma lasca do cone.

— Deixa de ser tonta, Ly. O que é que estás dizendo? Que não deveríamos ter vivido nada do que vivemos?

— Ah, deixa para lá... — ela sentou-se bruscamente num banco próximo ao casal que treinava malabarismos com pinos.

— Deixa nada para lá. Eu agora quero entender — apesar da rigidez no timbre da voz Pedro tinha o semblante compreensivo. Demorou uns segundos em pé antes de ceder ao descanso.

— Claro que não estou dizendo que não deveríamos ter vivido tudo isto — Lya argumentou, partindo o fundo do cone com os dentes e sugando o resto do sorvete. — Vivemos e está sendo maravilhoso. Estou só dizendo que o que não é materializado é sempre imortal, sempre eterno, enquanto a realidade é perecível. Só recordamos o que nunca aconteceu.

— Pois irei recordar de ti para sempre. E acontecemos — disse ele, buscando o olhar perdido da moça. Ela retribuiu com um pequeno sorriso. A franja tapava parte da sua visão.

— Não leve para o lado pessoal, Pedro. Só tenho medo de como será quando não estiver mais contigo.

— Do mesmo jeito que foi antes.

— Já me acostumei com a tua presença... — balbuciou, dobrando metodicamente o guardanapo sem aperceber-se do que fazia.

— Esse é justamente o fármaco de qualquer relacionamento: a sua saúde e a sua doença.

— O que dizes?

— Que o costume, ao mesmo tempo em que cria o conforto e as intimidades, nos acomoda. Se mencionavas a perda, e a temia, acho que é mesmo assim que o fim se inicia: com o costume à presença.

— Talvez tenhas razão... — ela concordou, esgotada.

Os dois permaneceram mudos por alguns segundos.

— Pedro?

— Quê?

— Preciso te contar uma coisa.

— Diz.

— Já está na hora de despertares.

Um comentário:

Sofia Rodrigues disse...

"Só recordamos o que nunca aconteceu." É assim que o Zafón começa "Marina".