sábado, 30 de julho de 2011

Barbárie (Parte 2)

Olá, como estás? Recebi o regalo. Me caiu muito bem, obrigado! Ainda no me enviaram o libro que te prometi. Creo que Paulo, o escritor, está viajando, pues ainda no me contestou. A veces, ele fica fora por meses. Debe ser eso. Aqui no há nada de novo. Os turistas vêm e se vão, como siempre.

Os espero para o vuestro passeo pelo deserto.

Um saludo cordial,
Abdel Khalik
17/9/2008

Nota: Desculpe a mezcla de castellano e portugués. Vivi um ano em Lisboa, mas já há muito tempo. Miguel Torres.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Barbárie (Parte 1)

— É Paulo, certo? Qual é o nome do homem, afinal?

— Sim, sim, Paulo — me respondeu — Paulo Roberto Lima. Esse é o seu nome completo. Escreve aqui que é da parte de Abdel Khalik. K-h-a-l-i-k.

Eu segurava a caneta na mão esquerda diante do olhar atento de Abdel. A cada letra desenhada na folha virgem escutava seu coração palpitar mais forte ao meu lado. Às vezes hesitava na redação. Parava um instante para pensar em como concatenar aquelas idéias que não eram minhas, e ele ficava sem respirar, me olhando apreensivo pelo intervalo de tempo que a tinta se calava. Quando voltava a tocar as linhas, Abdel suspirava de alívio e se aproximava mais do papel.

— Já está! — lhe disse, passados cinco minutos deste jogo. Após o meu anúncio, notei que ele ainda parecia hipnotizado. Quando ia lhe perguntar se sabia ler, uma mão ágil arrancou o texto do balcão e o homem começou a dar vista d’olhos. Seus lábios se moviam descoordenados, como se repetissem uma oração própria.

— Você disse que já enviei a encomenda? — esticou a folha até mim — Desculpe, é que não entendo português — completou, percebendo que seu movimento tinha soado um tanto impetuoso.

Confirmei com a cabeça e lhe dediquei um sorriso amigável, caminhando de costas até a saída. Tinha pressa. Não sei porque, mas a tinha. Com sorte meu amigos me esperam lá fora, pensei. Abdel largou o papel sobre uma mesa e veio a mim, visivelmente mais relaxado.

— Fique para o chá — me convidou, enquanto arrumava alguns itens da loja no caminho até a porta. — Por que já vai? Você é meu convidado de honra amigo, por favor.

Suas palavras eram sinceras. Tudo naquele homem parecia estar distante de qualquer maldade. Mas o meu problema não era a crueldade. Nunca foi. Pelo contrário: sempre fugia da generosidade, da disponibilidade de espírito das pessoas. A maldade tem cara, tem rosto, tem bilhete de identidade; a bondade não. Para mim, alguém muito solícito é uma armadilha das mais fatais.

Por que já vou?, repeti a mim mesmo em silêncio. Talvez por isso, talvez por receio de que Abdel fosse apenas outro vendedor astuto com poder de retórica e vontade de me empurrar a comprar uns produtos marroquinos. Levava cinco dias no país e desde o primeiro segundo tinha aprendido que qualquer coisa que se faz ou pede, mesmo uma informação na rua, custava uns tantos dinares.

— Olha, não quero lhe vender nada — sua voz tonitruante interrompeu meus pensamentos — Para mim não é o dinheiro que importa. Sou berbere, ou seja, bárbaro. Gosto de conhecer gente, fazer amigos. Fique um pouco, vamos lá, não vai lhe custar nada.

— É que meus amigos me esperam... — balbuciei.

— Bem, pode chamá-los também! — me cortou Abdel, envolvendo meus ombros com seu braço largo, num gesto natural. Obedeci sem ser capaz de dizer não à sua cordialidade, esgotado do medo que nos invade e nos faz negar tudo a todos e a todo momento. 

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Só se pensa... naquilo

Venhamos e convenhamos, depois dos 25 o homem só pensa única e exclusivamente numa coisa: sexo. Não somos capazes de driblar essa obsessão nem quando saímos para comprar um pão. Vejam vocês que os assuntos nas mesas de bar são sempre sexo, sexo e sexo. E quando digo homem, faço uma retificação justa – homem e mulher de ambos os gêneros. Somos uns tarados de babar na gravata. Qualquer minimalismo na rua, um olhar trocado, um toque acidental de braços, uma coxa à mostra é um afrodisíaco infalível para nossos desejos mais primitivos.

Reparem no vaivém do metrô, no entra e sai de gente, nas pessoas que quase se sentam umas no colo das outras. Aquilo é um antro de selvageria contida, uma bolha de ar pornográfica pronta a estourar – e diria mais: todo e qualquer vagão do transporte público é um espaço em potencial para uma orgia dionisíaca, um bacanal anterior ao próprio Marquês de Sade.

Dirão vocês, leitores: — O ônibus também carrega esta tensão sexual em seus sacolejos intermináveis! É verdade. Mas o metrô nos inflige estar cara a cara com o objeto cobiçado, nos obriga a afrontar por minutos a nossa face mais instintiva. Lembro de uma mulher de uns 40 anos de idade, uma mulher de negócios em seu tailleur escuro e salto fino, que me encarava a cada trinta e dois segundos cronometrados. Já me sentia despido, desnudo, despojado – e confesso: também a desejei nua, indolentemente, incessantemente.

Quando estava na faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa o que mais me impressionava não eram as aulas do professor Adriano Duarte Rodrigues ou do Jacinto Godinho; eram os hormônios pulsantes na esplanada. Explico – antes ou depois das aulas, mesmo durante, os estudantes reuniam-se no pátio para conversar, tomar um café ou uma cerveja (sim, vendiam cerveja na faculdade) e exercitar o flerte. Sempre senti naquele ambiente uma incontrolável volúpia libidinosa.

Se baixasse o reitor, com sua careca de Hercule Poirot e seu poder categórico de estadista, como uma espécie de divindade catedrática, e anunciasse grave e fatal que tudo e qualquer coisa estava liberado na esplanada, tenho a convicção freudiana de que não sobraria um aluno com roupa. Uma alma viva coberta. E então as ciências sociais e humanas se transmutariam em algo muito melhor, muito mais sublime, muito menos hipócrita.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Um papo com Nelson Rodrigues*


— Alôôô?
— Olá, boa tarde. Por favor, o Nelson está?
— O Nelson? Está sim. Está no terreno ao lado, com a cabra vadia. Quer que eu o chame?
— Se não for incomodar...
(...)
— Pois não?
—Nelson? Aqui quem fala é o Gustavo, tudo bem?
— Quem?
— É o Gustavo. Você não me conhece, mas sou um grande fã seu.
— Fã? Quantos anos tens?
— Aaaan... 26...
— És tão novo ainda para saber essas coisas. O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: — o da imaturidade. Ele só pode ser levado a sério quando fica velho.
— Quando escreveu a sua primeira peça, o senhor tinha quase isso, não? Foi aos 29, creio.
— Sim... A mulher sem pecado...
— Estou quase lá! E sem projetos ou perspectivas.
— Ora, aos 26 que somos todos nós e cada um de nós? Muito pouca coisa. O jovem está sempre no dilema: — ou é um génio ou um bobo, ou um Rimbaud ou um débil mental, desses que babam. Depois é que a vida, o tempo vão retocando a nossa crassa e inepta pessoa.
— Só que vida e tempo estão passando...
— E de que tens pressa? Acho a velocidade um prazer de cretinos. Eu ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.
— Aqui em Portugal é eléctrico, Nelson. Bonde é eléctrico.
— Estás em Portugal? Eu sempre senti uma ávida nostalgia assim que deixava o Rio. E o que inventas por aí?
— Vim fazer um mestrado em Jornalismo, conhecer uma cultura diferente, novas formas de pensar, de sentir.
— Corajoso da sua parte. O medo costuma ser um grande e eficaz nivelador. Via de regra, só o heroísmo é afirmativo, é descarado. O herói tem sempre uma desfaçatez única. Mas a covardia, não. A covardia acusa uma vergonha convulsiva.
— Na verdade só quis aproveitar o mundo, ser coerente com a idade e o momento.
— Toda coerência é, no mínimo, suspeita.
— Não sei se esta minha inquietação, de certa forma uma ambição, é boa ou ruim.
— O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza.
— Eu busco o contrário, mas é tão difícil lutar contra a insensibilidade, o caráter perecível das relações, a escassez de amor...
— Ah, realmente! Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias!
— Elas também já não são como antes, Nelson. Muita coisa mudou...
— Diz isso porque deve ter tido uma desilusão amorosa. Fique tranquilo porque qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado. Mas num casal, pior que o ódio, é a falta de amor.
— Com certeza é a pior forma de solidão que há!
— Não, a pior forma de solidão é a companhia de um paulista.
— Hahaha! Não digas isso! Tenho um grande amigo paulista. E existe uma forma boa de solidão?
— Claro. A perfeita solidão há de ter pelo menos a presença numerosa de um amigo real.
— Pois tenho me sentido mais só que se fosse vaiado por milhares de pessoas no Maracanã lotado.
— No Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio e, se quiser acreditar, vaia-se até mulher nua. Porém não esqueça que a grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre que a grande apoteose.
— É que quando está tudo bem, raramente paramos para analisar e valorizar. Mas daqui a nada essa fase difícil passa...
— Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem.
— E eu estou sempre falando nas saudades da família, na ausência dos amigos, no coração desamparado, no emprego chato e burocrático... Tem sido uma prova e tanto este período. É muito fácil cair no ridículo.
— Amigo, eis a verdade: só os imbecis têm medo do ridículo.
— Não tenho medo, mas passo por cada uma. Preciso retreinar meu olhar e readquirir o gosto pelo que acontece à minha volta.
— Faça isso. É um exercício crasso! No dia em que a criatura humana perder a capacidade de admirar, cairá de quatro, para sempre. E o mal de todos nós, a nossa crise, a nossa doença, é o seguinte: — admiramos pouco, admiramos de menos. Em redor de nós, tudo nos convida, tudo nos induz ao espanto. E, no entanto, examine esse povo que vai passando, com algo de fluvial no seu lerdo escoamento. Ninguém admira nada, ninguém admira ninguém. Essa impotência de sentimento, esse tédio de alma, essa anestesia coletiva e alvar traduz um desinteresse vital tremendo.
— Puxa, depois dessa fiquei até sem palavras. Tenho que ir, Nelson. Um abraço!
— Boa sorte. Afinal, sem o mínimo de sorte, o sujeito não consegue nem chupar um Chica-bon, o sujeito acaba engolindo o pauzinho do Chica-bon!
— Vira essa boca pra lá. Parece história de A vida como ela é...

* Publicado a 02-07-2009, em www.dalemar.blogspot.com 

domingo, 10 de julho de 2011

O pescador de desejos (Parte 2)

Ainda não havia contado que eu e Catarina não estávamos mais juntos, que aquela garota que supus ser a mulher do resto da minha existência tinha me deixado pelo seu professor de inglês, um australiano com aspecto de surfista. Talvez fosse o contrário: um surfista com aspecto de australiano. Já tinha se passado quinze dias desde a ruptura, após dois anos e meio de relação. Para eles, Catarina era o modelo ideal de namorada. Para mim, era uma vaca que havia destroçado meu coração.

― Às doze ― respondi monocórdio. ― Vou sozinho.

― Aconteceu alguma coisa? ― a voz do outro lado retomou o volume normal, com toda a carga de preocupação peculiar aos progenitores.

― Catarina tem um compromisso no domingo, não sei bem o que é, mas não poderá ir. Melhor assim, nos sobra mais comida ― brinquei com a sensação vazia de não haver ironia alguma naquelas palavras.

Foi então que, enquanto desistia de encontrar um banco e me acomodava na fonte ao lado de uma das imagens de um pequeno anjo negro, avistei aproximar-se um senhor coxeando da perna direita. Tinha os cabelos grisalhos e um bigode de Dalí. Trazia na mão um cabo de vassoura com um pedaço de madeira encaixado. Na ponta do artefato estava a base cortada de uma garrafa de plástico de tamanho médio. Não era necessário ser nenhum expert da engenharia para desenvolver aquela ideia simples. No entanto, ainda não imaginava a sua utilidade prática – até que o homem encostou-se à fonte e começou a tentar apanhar as moedas atiradas na água.

Como se manejasse um pincel grande, fazia desenhos invisíveis no fundo. Tinha dificuldade para se apoiar na pedra devido ao seu corpo frágil, mas seguia pintando a tela imaginária. Alguns curiosos paravam para observar a sua ação. O casal de atletas lançou uma piada e se perdeu entre as árvores. O menino apertou a mão da mãe olhando-a com cara de interrogação. Ela ignorou e continuou o caminho, aumentando ainda mais a curiosidade do filho. Por fim, uma senhora ameaçou chamar a polícia. O pescador deu de ombros e seguiu sua pretensão de colher os desejos.

― Eduardo? Estou falando com você. Está aí?

A pergunta enfática no auricular me despertou. Meu pai ainda estava na linha e eu havia esquecido. Pedi desculpas e disse que tinha de desligar, que domingo nos víamos, que precisava confessar-lhes uma coisa. Não dei a oportunidade de resposta. O pescador recolheu a sua vara e tirou de dentro da garrafa um níquel. Meteu-o dentro do bolso, fincou mais o pedaço de madeira e tornou a lançar o cabo de plástica à água. Por quarenta e cinco minutos ficamos os dois naquele ofício. Sentia-me cúmplice do seu crime, ainda que em nenhum momento minha presença ali tivesse sido notada.

Enquanto as pessoas passavam com ar de juízo, eu tinha a convicção de que aquele homem não sacava dinheiro ou muito menos furtava sonhos. O velho coxo realizava-os à sua maneira, eternizava-os reduzindo-os à realidade. Na melhor das hipóteses, estava limpando a fonte e arrumando espaço para mais pedidos.

Quando o sol começou a baixar, mirei o relógio e cri que devia ir embora. Abri a carteira, colhi uma moeda de dois reais e apertei-a na mão, cerrando a vista. Atirei-a de costas, sem olhar para trás, e segui indiferente, desejando com toda a minha força que aquela vaca e seu príncipe encantado fossem infelizes para sempre.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Os pescador de desejos (Parte 1)

O que mais me incomodava nas pescarias da infância é que nunca conseguia apanhar um único e miserável peixe. Ficávamos horas e horas estáticos, em silêncio fúnebre, e ia embora sem assassinar uma vida aquática sequer. Lembro-me que certa vez minha irmã pescou uma tartaruga, na realidade um filhote de tartaruga, e isso foi um triunfo para gente. Agora, vinte anos depois, a pescaria me ressurgia com a imagem daquele velho homem debruçado sobre a fonte com uma vara improvisada. Não pescava peixes, pescava desejos.

Alguns minutos antes, por pura coincidência, conversava ao celular com meu pai sobre sua última aventura no rio Paraguai.

— Mas você não é um pescador ativo — questionei, como se tivesse qualquer importância o que somos ou não habituados a fazer após os sessenta.

Recordo-me de duas ou três vezes que ele havia ido com seus amigos a uma outra expedição, no Araguaia, quase uma década atrás. Essas ocasiões tinham pouco ou nada a ver com a arte de jogar uma isca à água. Todos se reuniam num sítio bonito nas proximidades do rio e bebiam enquanto contavam piadas e diziam bobagens. Uma vez, quando tinha oito ou nove anos, os homens levaram as esposas e os filhos, e as únicas duas memórias que tenho são da minha irmã lançando a pequena tartaruga de volta ao seu hábitat e de um ataque surpresa de morcegos.

No entanto, o entusiasmo do outro lado da linha garantia que agora tinha sido diferente, que tinha ocorrido, realmente, uma pescaria. Meu pai contou-me que durante uma semana ele e os amigos apanharam mais de duzentos quilos de jaú, uma espécie tão comum no rio Paraguai como os borrachudos e os pernilongos. Não é mentira, te mostro as fotos assim que as tiver, disse-me ao telefone. Cada um levou uns vinte quilos de peixe para casa, explicou enquanto eu buscava com o olhar um banco vazio no parque. Vinha do trabalho e antes de regressar à casa decidi passear um pouco pela cidade e respirar ar puro. Talvez simplesmente fugisse da solidão de meu apartamento. Era um agradável final de dia de primavera e o sol ainda tardaria a se pôr. Meu pai prosseguiu eufórico, falando dos peixes:

— Já estão no congelador e quando vierem aqui no domingo vamos prepará-los, ok? Faço do jeito que quiser. Vou comprar as batatas e os pimentões amanhã de manhã. Que horas vocês vêm? Já sabem? Porque não esquece que a sua mãe é um tanto sistemática com os horários — baixou o tom da voz a uma altura quase inaudível — Ela gosta de organizar tudo antecipadamente, nos mínimos detalhes.

Já nem processava o que meu pai dizia. O convite familiar reabriu uma ferida recente.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Aos treze

Meu pai costumava afirmar que o homem começa a morrer na sua primeira experiência sexual. Ele morreu por causa de uma puta, aos quarenta e seis anos. Eu tinha treze. Foi má sorte, acreditou minha mãe. Meu avô disse que era ajuste de contas, que o imbecil do genro havia se metido em problemas graves. Eu pouco entendia disso, de ajuste de contas, mas lembro que alguns filmes de ação mencionavam o termo. Parecia demasiado heróico para uma morte patética como a do meu pai: caiu do quarto andar de um hotel barato do subúrbio da cidade.

Também aos treze perdi a virgindade. Com minha meia-irmã. Sara era dois anos mais velha. Meu pai povoou o mundo sem critério. Havia ainda o Antônio, caçula e filho da minha mãe; e Gonçalo, quase com o dobro da minha idade – fruto do impulso juvenil, das drogas e da ideologia libertária dos anos setenta. Gonçalo vivia na capital, distante de todos, e ignorava a nossa existência. Não foi ao velório e duvido que alguém o tenha informado do acontecido. A puta sim estava lá, toda de preto e com um lenço pálido. Lembro do seu olhar perdido atrás da maquiagem borrada. Parecia lamentar a perda de um grande amor. Putas: fingem até a dor.

Minha mãe faltou ao enterro. Alegou má disposição. Meu avô disse que, por desgosto, ela vomitou até as tripas. A puta era só um dos casos extraconjugais de meu pai e, com a tragédia pastelão, minha mãe começou a descobrir todos, um por um. Outras três mulheres apareceram no cemitério trajando luto e lágrimas. Sara expandia seu repertório de palavrões cada vez que uma nova viúva punha-se ao pé do caixão. Nunca a tinha visto tão linda como naquele dia.

Nessa época não tinha ideia do que era sexo e como ele podia ser traiçoeiro. Talvez ainda hoje não o tenha. Um vizinho sabia onde o padrasto escondia a coleção de revistas de mulher pelada e às vezes íamos à garagem buscar uns exemplares para folheá-las escondidos. Meu pênis enrijecia magicamente com os peitos e vaginas do papel. Mas não sabia o que fazer. A primeira vez que senti meu ímpeto sexual aflorar-se dentro das calças foi nas férias de 83, com meus pais, António e Sara. Fomos à praia. O corpo branco de minha meia-irmã já ganhava curvas femininas bem definidas e aquele biquíni verde me provocou um calafrio indescritível na espinha. Lembro de brincarmos de se pegar no mar, de nos agarrarmos e roçar-me aos seus seios, pressionar-me às suas nádegas, tocar-lhe seu órgão enquanto meu pênis latejava dentro dos calções.

Sara sabia que provocava em mim um sentimento novo e incontrolável. Às vezes ela deixava a janela do banheiro entreaberta enquanto banhava-se. Pela fresta, podia ver sua silhueta, cada vez mais definida pelas curvas do perigo: o contorno das ancas, uma parte do mamilo direito, a pinta atrás da coxa rósea, os longos cabelos loiros chicoteando o ar. Masturbei-me a primeira vez com essa imagem reconstruída na memória, antes de dormir. Sujei o lençol branco com gozo de prazer. Na manhã seguinte lavei-o desconcertado no tanque alegando que havia urinado na cama. Aos treze. Sara sabia que era mentira.

Meu avô disse que dois jovens na puberdade vivendo sob o mesmo teto não daria certo. Uma hora ou outra aquilo pegaria fogo, comentou à minha mãe, sem que desse pela minha presença no corredor. Ela, como nunca teve por Sara um apreço de filha, dava de ombros. Meu pai fazia vista grossa e aparentemente preocupava-se mais com seu time estar ganhando e com a cerveja estar gelada que propriamente com o que podia sair daquela relação. No dia que morreu, nos flagrou nus na cama de um hotel barato do subúrbio da cidade. Ainda lembro de seu olhar raivoso e de se precipitar na direção de Sara com o punho cerrado. Juntei forças e empurrei-o sem pensar. Só ao cair que percebi o quanto estava bêbado.

Levantou-se ainda mareado, sorriu-nos sem convicção e arremessou-se do quarto andar. Espatifou-se no pátio interno. Ninguém viu nada até o amanhecer. Saímos sem sermos notados e Sara nunca mais falou comigo. Depois de anos, é que tive notícias dela. Antônio contou que a viu na capital. Meu avô disse que agora Sara é puta de luxo.