sexta-feira, 1 de julho de 2011

Aos treze

Meu pai costumava afirmar que o homem começa a morrer na sua primeira experiência sexual. Ele morreu por causa de uma puta, aos quarenta e seis anos. Eu tinha treze. Foi má sorte, acreditou minha mãe. Meu avô disse que era ajuste de contas, que o imbecil do genro havia se metido em problemas graves. Eu pouco entendia disso, de ajuste de contas, mas lembro que alguns filmes de ação mencionavam o termo. Parecia demasiado heróico para uma morte patética como a do meu pai: caiu do quarto andar de um hotel barato do subúrbio da cidade.

Também aos treze perdi a virgindade. Com minha meia-irmã. Sara era dois anos mais velha. Meu pai povoou o mundo sem critério. Havia ainda o Antônio, caçula e filho da minha mãe; e Gonçalo, quase com o dobro da minha idade – fruto do impulso juvenil, das drogas e da ideologia libertária dos anos setenta. Gonçalo vivia na capital, distante de todos, e ignorava a nossa existência. Não foi ao velório e duvido que alguém o tenha informado do acontecido. A puta sim estava lá, toda de preto e com um lenço pálido. Lembro do seu olhar perdido atrás da maquiagem borrada. Parecia lamentar a perda de um grande amor. Putas: fingem até a dor.

Minha mãe faltou ao enterro. Alegou má disposição. Meu avô disse que, por desgosto, ela vomitou até as tripas. A puta era só um dos casos extraconjugais de meu pai e, com a tragédia pastelão, minha mãe começou a descobrir todos, um por um. Outras três mulheres apareceram no cemitério trajando luto e lágrimas. Sara expandia seu repertório de palavrões cada vez que uma nova viúva punha-se ao pé do caixão. Nunca a tinha visto tão linda como naquele dia.

Nessa época não tinha ideia do que era sexo e como ele podia ser traiçoeiro. Talvez ainda hoje não o tenha. Um vizinho sabia onde o padrasto escondia a coleção de revistas de mulher pelada e às vezes íamos à garagem buscar uns exemplares para folheá-las escondidos. Meu pênis enrijecia magicamente com os peitos e vaginas do papel. Mas não sabia o que fazer. A primeira vez que senti meu ímpeto sexual aflorar-se dentro das calças foi nas férias de 83, com meus pais, António e Sara. Fomos à praia. O corpo branco de minha meia-irmã já ganhava curvas femininas bem definidas e aquele biquíni verde me provocou um calafrio indescritível na espinha. Lembro de brincarmos de se pegar no mar, de nos agarrarmos e roçar-me aos seus seios, pressionar-me às suas nádegas, tocar-lhe seu órgão enquanto meu pênis latejava dentro dos calções.

Sara sabia que provocava em mim um sentimento novo e incontrolável. Às vezes ela deixava a janela do banheiro entreaberta enquanto banhava-se. Pela fresta, podia ver sua silhueta, cada vez mais definida pelas curvas do perigo: o contorno das ancas, uma parte do mamilo direito, a pinta atrás da coxa rósea, os longos cabelos loiros chicoteando o ar. Masturbei-me a primeira vez com essa imagem reconstruída na memória, antes de dormir. Sujei o lençol branco com gozo de prazer. Na manhã seguinte lavei-o desconcertado no tanque alegando que havia urinado na cama. Aos treze. Sara sabia que era mentira.

Meu avô disse que dois jovens na puberdade vivendo sob o mesmo teto não daria certo. Uma hora ou outra aquilo pegaria fogo, comentou à minha mãe, sem que desse pela minha presença no corredor. Ela, como nunca teve por Sara um apreço de filha, dava de ombros. Meu pai fazia vista grossa e aparentemente preocupava-se mais com seu time estar ganhando e com a cerveja estar gelada que propriamente com o que podia sair daquela relação. No dia que morreu, nos flagrou nus na cama de um hotel barato do subúrbio da cidade. Ainda lembro de seu olhar raivoso e de se precipitar na direção de Sara com o punho cerrado. Juntei forças e empurrei-o sem pensar. Só ao cair que percebi o quanto estava bêbado.

Levantou-se ainda mareado, sorriu-nos sem convicção e arremessou-se do quarto andar. Espatifou-se no pátio interno. Ninguém viu nada até o amanhecer. Saímos sem sermos notados e Sara nunca mais falou comigo. Depois de anos, é que tive notícias dela. Antônio contou que a viu na capital. Meu avô disse que agora Sara é puta de luxo.

Um comentário:

Sam disse...

Adorei seu blog...
Queria escrever como escreves!!