segunda-feira, 25 de julho de 2011

Barbárie (Parte 1)

— É Paulo, certo? Qual é o nome do homem, afinal?

— Sim, sim, Paulo — me respondeu — Paulo Roberto Lima. Esse é o seu nome completo. Escreve aqui que é da parte de Abdel Khalik. K-h-a-l-i-k.

Eu segurava a caneta na mão esquerda diante do olhar atento de Abdel. A cada letra desenhada na folha virgem escutava seu coração palpitar mais forte ao meu lado. Às vezes hesitava na redação. Parava um instante para pensar em como concatenar aquelas idéias que não eram minhas, e ele ficava sem respirar, me olhando apreensivo pelo intervalo de tempo que a tinta se calava. Quando voltava a tocar as linhas, Abdel suspirava de alívio e se aproximava mais do papel.

— Já está! — lhe disse, passados cinco minutos deste jogo. Após o meu anúncio, notei que ele ainda parecia hipnotizado. Quando ia lhe perguntar se sabia ler, uma mão ágil arrancou o texto do balcão e o homem começou a dar vista d’olhos. Seus lábios se moviam descoordenados, como se repetissem uma oração própria.

— Você disse que já enviei a encomenda? — esticou a folha até mim — Desculpe, é que não entendo português — completou, percebendo que seu movimento tinha soado um tanto impetuoso.

Confirmei com a cabeça e lhe dediquei um sorriso amigável, caminhando de costas até a saída. Tinha pressa. Não sei porque, mas a tinha. Com sorte meu amigos me esperam lá fora, pensei. Abdel largou o papel sobre uma mesa e veio a mim, visivelmente mais relaxado.

— Fique para o chá — me convidou, enquanto arrumava alguns itens da loja no caminho até a porta. — Por que já vai? Você é meu convidado de honra amigo, por favor.

Suas palavras eram sinceras. Tudo naquele homem parecia estar distante de qualquer maldade. Mas o meu problema não era a crueldade. Nunca foi. Pelo contrário: sempre fugia da generosidade, da disponibilidade de espírito das pessoas. A maldade tem cara, tem rosto, tem bilhete de identidade; a bondade não. Para mim, alguém muito solícito é uma armadilha das mais fatais.

Por que já vou?, repeti a mim mesmo em silêncio. Talvez por isso, talvez por receio de que Abdel fosse apenas outro vendedor astuto com poder de retórica e vontade de me empurrar a comprar uns produtos marroquinos. Levava cinco dias no país e desde o primeiro segundo tinha aprendido que qualquer coisa que se faz ou pede, mesmo uma informação na rua, custava uns tantos dinares.

— Olha, não quero lhe vender nada — sua voz tonitruante interrompeu meus pensamentos — Para mim não é o dinheiro que importa. Sou berbere, ou seja, bárbaro. Gosto de conhecer gente, fazer amigos. Fique um pouco, vamos lá, não vai lhe custar nada.

— É que meus amigos me esperam... — balbuciei.

— Bem, pode chamá-los também! — me cortou Abdel, envolvendo meus ombros com seu braço largo, num gesto natural. Obedeci sem ser capaz de dizer não à sua cordialidade, esgotado do medo que nos invade e nos faz negar tudo a todos e a todo momento. 

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