domingo, 10 de julho de 2011

O pescador de desejos (Parte 2)

Ainda não havia contado que eu e Catarina não estávamos mais juntos, que aquela garota que supus ser a mulher do resto da minha existência tinha me deixado pelo seu professor de inglês, um australiano com aspecto de surfista. Talvez fosse o contrário: um surfista com aspecto de australiano. Já tinha se passado quinze dias desde a ruptura, após dois anos e meio de relação. Para eles, Catarina era o modelo ideal de namorada. Para mim, era uma vaca que havia destroçado meu coração.

― Às doze ― respondi monocórdio. ― Vou sozinho.

― Aconteceu alguma coisa? ― a voz do outro lado retomou o volume normal, com toda a carga de preocupação peculiar aos progenitores.

― Catarina tem um compromisso no domingo, não sei bem o que é, mas não poderá ir. Melhor assim, nos sobra mais comida ― brinquei com a sensação vazia de não haver ironia alguma naquelas palavras.

Foi então que, enquanto desistia de encontrar um banco e me acomodava na fonte ao lado de uma das imagens de um pequeno anjo negro, avistei aproximar-se um senhor coxeando da perna direita. Tinha os cabelos grisalhos e um bigode de Dalí. Trazia na mão um cabo de vassoura com um pedaço de madeira encaixado. Na ponta do artefato estava a base cortada de uma garrafa de plástico de tamanho médio. Não era necessário ser nenhum expert da engenharia para desenvolver aquela ideia simples. No entanto, ainda não imaginava a sua utilidade prática – até que o homem encostou-se à fonte e começou a tentar apanhar as moedas atiradas na água.

Como se manejasse um pincel grande, fazia desenhos invisíveis no fundo. Tinha dificuldade para se apoiar na pedra devido ao seu corpo frágil, mas seguia pintando a tela imaginária. Alguns curiosos paravam para observar a sua ação. O casal de atletas lançou uma piada e se perdeu entre as árvores. O menino apertou a mão da mãe olhando-a com cara de interrogação. Ela ignorou e continuou o caminho, aumentando ainda mais a curiosidade do filho. Por fim, uma senhora ameaçou chamar a polícia. O pescador deu de ombros e seguiu sua pretensão de colher os desejos.

― Eduardo? Estou falando com você. Está aí?

A pergunta enfática no auricular me despertou. Meu pai ainda estava na linha e eu havia esquecido. Pedi desculpas e disse que tinha de desligar, que domingo nos víamos, que precisava confessar-lhes uma coisa. Não dei a oportunidade de resposta. O pescador recolheu a sua vara e tirou de dentro da garrafa um níquel. Meteu-o dentro do bolso, fincou mais o pedaço de madeira e tornou a lançar o cabo de plástica à água. Por quarenta e cinco minutos ficamos os dois naquele ofício. Sentia-me cúmplice do seu crime, ainda que em nenhum momento minha presença ali tivesse sido notada.

Enquanto as pessoas passavam com ar de juízo, eu tinha a convicção de que aquele homem não sacava dinheiro ou muito menos furtava sonhos. O velho coxo realizava-os à sua maneira, eternizava-os reduzindo-os à realidade. Na melhor das hipóteses, estava limpando a fonte e arrumando espaço para mais pedidos.

Quando o sol começou a baixar, mirei o relógio e cri que devia ir embora. Abri a carteira, colhi uma moeda de dois reais e apertei-a na mão, cerrando a vista. Atirei-a de costas, sem olhar para trás, e segui indiferente, desejando com toda a minha força que aquela vaca e seu príncipe encantado fossem infelizes para sempre.

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