terça-feira, 5 de julho de 2011

Os pescador de desejos (Parte 1)

O que mais me incomodava nas pescarias da infância é que nunca conseguia apanhar um único e miserável peixe. Ficávamos horas e horas estáticos, em silêncio fúnebre, e ia embora sem assassinar uma vida aquática sequer. Lembro-me que certa vez minha irmã pescou uma tartaruga, na realidade um filhote de tartaruga, e isso foi um triunfo para gente. Agora, vinte anos depois, a pescaria me ressurgia com a imagem daquele velho homem debruçado sobre a fonte com uma vara improvisada. Não pescava peixes, pescava desejos.

Alguns minutos antes, por pura coincidência, conversava ao celular com meu pai sobre sua última aventura no rio Paraguai.

— Mas você não é um pescador ativo — questionei, como se tivesse qualquer importância o que somos ou não habituados a fazer após os sessenta.

Recordo-me de duas ou três vezes que ele havia ido com seus amigos a uma outra expedição, no Araguaia, quase uma década atrás. Essas ocasiões tinham pouco ou nada a ver com a arte de jogar uma isca à água. Todos se reuniam num sítio bonito nas proximidades do rio e bebiam enquanto contavam piadas e diziam bobagens. Uma vez, quando tinha oito ou nove anos, os homens levaram as esposas e os filhos, e as únicas duas memórias que tenho são da minha irmã lançando a pequena tartaruga de volta ao seu hábitat e de um ataque surpresa de morcegos.

No entanto, o entusiasmo do outro lado da linha garantia que agora tinha sido diferente, que tinha ocorrido, realmente, uma pescaria. Meu pai contou-me que durante uma semana ele e os amigos apanharam mais de duzentos quilos de jaú, uma espécie tão comum no rio Paraguai como os borrachudos e os pernilongos. Não é mentira, te mostro as fotos assim que as tiver, disse-me ao telefone. Cada um levou uns vinte quilos de peixe para casa, explicou enquanto eu buscava com o olhar um banco vazio no parque. Vinha do trabalho e antes de regressar à casa decidi passear um pouco pela cidade e respirar ar puro. Talvez simplesmente fugisse da solidão de meu apartamento. Era um agradável final de dia de primavera e o sol ainda tardaria a se pôr. Meu pai prosseguiu eufórico, falando dos peixes:

— Já estão no congelador e quando vierem aqui no domingo vamos prepará-los, ok? Faço do jeito que quiser. Vou comprar as batatas e os pimentões amanhã de manhã. Que horas vocês vêm? Já sabem? Porque não esquece que a sua mãe é um tanto sistemática com os horários — baixou o tom da voz a uma altura quase inaudível — Ela gosta de organizar tudo antecipadamente, nos mínimos detalhes.

Já nem processava o que meu pai dizia. O convite familiar reabriu uma ferida recente.

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