quarta-feira, 31 de agosto de 2011

15

Agora paro para pensar bem: sou dos amores impossíveis. Drummond dizia que o único e verdadeiro amor é o amor impossível. Acho que nasci com ganas de não viver o amor – ou melhor: de viver o amor na essência do poeta, o amor impossível, o amor irrealizável.

Cibele foi, durante um ano e meio, do término da relação até a minha ida embora de Florianópolis, o meu verso de Drummond. O escritor mineiro nunca esteve tão certo, e nunca imaginou que teria tanto êxito quando cunhou a frase. Era agosto de 2005 e largava a vida estável, possível, real e palpável pela impossibilidade. Não a impossibilidade única e exclusiva da Cibele, mas a impossibilidade do amor em suas maneiras múltiplas e distintas formas.

O que não estava claro para mim naquela época é que não era pela Cibele que me apaixonava. Apaixonava-me pela paixão, pela capacidade que ainda tinha de apaixonar-me outra vez. Antes do outro, antes da pessoa, é pelo sentimento que nos enamoramos. Sentia, a partir dali, que minha vida podia ser mais – estava além do script previamente definido. Minhas vontades reacenderam-se com força. Vontade de viajar, de mudar, de experimentar. No entanto, uma vontade sobressaía acima de todas: a da solidão.

Ouso dizer que, depois disso, minhas paixões só deram certo porque deram errado. Porque continuei conservando a solidão. É muito mais fácil assim. Ainda que de um ano e meio para cá eu esteja disposto a viver a dificuldade.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

14

Meu primeiro amor real e concretizado media 1m59cm e tinha 15 anos. Eu também era um garoto saindo da puberdade. Ficamos juntos por pouco mais de meia década. Entrei menino na relação e saí homem. Tudo que vivemos juntos ficou marcado para sempre – e sempre ficará.

Às vezes penso, num sentido geral e amplo da coisa, onde será que um relacionamento finda, termina, dissolve-se? Não sei. Realmente não sei. Serão as traições tentativas de resgatar o enlace? Nelson diz: “Trair um amor é uma impossibilidade. Mesmo com outra mulher é o ser amado que estamos possuindo”. E talvez possuímos alguém fora porque o amor tende a matar o desejo; o amor caça e abate o desejo numa terça-feira durante o jantar, no intervalo do Jornal Nacional, antes de começar a novela.

Meu amor pela Rayane não havia morrido quando meu chão tremeu por outra. O desejo, o encantamento, é que sim. E não fiz nada, absolutamente nada que pudesse magoá-la e arrepender-me. Ao menor sinal de uma paixão para além do namoro, olhei para dentro: e descobri um abismo. O paradoxo é das sensações mais estranhas que há. Sentia-me firme, convicto, certo da opção. Ao mesmo tempo, as dúvidas, a insegurança e o medo invadiam-me repentinamente.

Tinha 23. E ela estava sentada no outro canto da redação. Já não conseguia concentrar-me no texto. O trabalho acumulava. Tinha de entregar a matéria – nesta época estava muito infeliz e arrastava-me na editoria de Cidades sem nenhuma vontade de lá estar, enquanto pela manhã fingia divertir-me na manufaturação de um caderno para jovens.

“Mulher. Mulher e pombos. Mulher entre sonhos. Nuvens nos seus olhos? Nuvens sobre seus cabelos. (A visita espera na sala; a notícia, no telefone; a morte cresce na hora; a primavera além da janela). Mulher sentada. Tranqüila na sala, como se voasse.” Cibele. Chamava-se Cibele.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

13

Mas voltemos ao tema relacional. Sandryne Barreto, única e numerosa sobrevivente da época de D’além Mar, me escreve a dizer que sou imbatível nas minhas crônicas de amor. O que Sandryne não sabe é o perigo que expõe a todo e qualquer visitante deste blog – um escritor, ainda que seja um pseudoescritor como eu, tem no elogio o afrodisíaco fundamental para sua obsessão.

O cronista, o contista ou o poeta, principiante ou sênior, renomado ou anônimo, é guiado e desviado pelo ego. Seu ego é um pequeno Cristiano Ronaldo dentro de si. Cada um que escreve carrega um orgulho uníssono e ecoante do que escreve – e ainda que abaixe as orelhas e vire a barriga numa falsa humildade, não passa de um cão esperto pedindo carinho, aceitação e reconhecimento.

O que queria dizer mesmo é que depois da Petra e da Ana Luiza tive inúmeras e escassas paixões. Lembro-me da Marianne – parecia uma boneca de porcelana: tinha duas bolas rosas nas bochechas e olhos amavelmente dóceis. Contavam-se muitas histórias de suas, digamos, safadezas na escola. Aquilo fascinava os garotos da minha idade. Não a mim. Preferia continuar vendo-a como uma santa – e este sempre foi o meu pecado mortal com as mulheres: procurar nelas as faces mais brandas e gentis.

O feitiço de Marianne se quebrou após nosso primeiro beijo. Ela não sabia beijar. Seu beijo era afoito e apressado. Era um beijo enfermo, respirando com ajuda de aparelhos, sem beijo. Depois dela, vieram outras bocas que simplesmente não se encaixaram com a minha. Meu beijo inaugural, aos quinze anos, já havia sido um desastre – e começava a pensar se haveria no mundo mulher que soubesse beijar, se os beijos de cinema existiam deste lado da tela.

Até que conheci a Rayane. Eram os tempos do disquete.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

12

“O mar, antes de ser paisagem, foi cheiro.” Leio isso com uma efusão juvenil e vejo em mim uma similaridade ultrajante. Antes do olhar, do toque, do sabor, do ouvido, sou cheiro. Sou e sempre serei cheiro. E que engraçado – agora penso: o olfato, justo o olfato, é meu pior sentido.

Não sou dos melhores farejadores. Basta contar que tenho rinite e desvio de septo. Mas o bom aroma seduz mais que a beleza em si, o odor induz a vivências esquecidas, olvidadas, engavetadas na memória e conta mais histórias que mil e uma Sherazades. Acho uma pena o cinema não ter cheiro, a música não ter cheiro, a foto não ter cheiro.

A literatura, sim, tem cheiro – e contestarão alguns que as imagens também o tem. No entanto, um perfume anterior ao conto, ao romance, à trama. O cheiro do papel vai variar pouco, ou quase nada, dependendo do livro. Depois da quinta obra, da décima edição lida na vida, tudo emana o mesmo aroma. (E se lembramos do primeiro livro não será pelo seu cheiro, se não pelo seu conteúdo.)

Ainda tenho impregnados em mim os perfumes das mulheres que me marcaram. Às vezes, caminhando na rua, sinto, simplesmente sinto com o vento que traz, o fulgor do aroma de uma. Tem vezes que desperto com o travesseiro exalando a doçura de outra, ainda que o travesseiro nunca tenha conhecido seu cheiro. Farejo as presenças individuais e abundantes no ar, nostálgico, com a vontade de possuir novamente aquelas fragrâncias femininas, fragrâncias que são espectros diurnos e noturnos.

Começamos pelo mar e terminaremos por ele. Antes de ser paisagem, para mim também é cheiro. Já não posso viver afastado da praia – da areia, da água fria, das ondas, da espuma, das gaivotas, dos barcos. E sabiam que nunca, mesmo vivendo há seis anos no litoral, nunca transei diante do mar. Penso que tenha sido falta de oportunidade. Ou melhor, acho que é receio de juntar vários perfumes máximos do amor – pois quando acontecer... Afinal, o sexo  também tem um cheiro próprio, assim como o instante que antecede o beijo.

Mas vamos parar por aqui. Isto está me cheirando não ter fim.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

11

O que mais me fascina, diante de tantas perdas ao longo de nossa vida, é a sutileza das coisas. A sutileza do destino. Não quero dizer, com destino, que exista uma divindade ou um caminho marcado. Longe disso. Pensando assim menosprezamos o sentido mais natural e básico da nossa essência: o incógnito.

Não sabia que aquele livro de capa dura mudaria minha vida aos 12 anos. Acho que era essa a minha idade. Um dos autores era Nelson Rodrigues. O outro, Mario Filho – que até então desconhecia ser seu irmão. Aquelas crônicas apaixonadas, ficcionais, metafísicas, metafóricas, deslumbrantes sobre futebol acordaram-me para uma paixão hibernada: a escrita.

Creio que nascemos com várias aptidões. Melhor: nascemos com múltiplas e desconhecidas predisposições para triunfar em algumas áreas – ou, simplesmente, atrair-se por elas. Até os 12 não fazia ideia que alguém pudesse escrever sobre o esporte mais popular do planeta como se estivesse num teatro grego. Para Nelson, qualquer pelada de rua tinha uma complexidade shakespeariana – e, garoto, bebia aquelas palavras como se fossem a minha salvação.

Naquela altura, tinha um único e escasso objetivo: ser jogador de futebol. Quando, meia década depois, tive de colocar a pedra fundamental no sonho de infância e escolher a faculdade que faria, foi nos irmãos Rodrigues que me inspirei. Enquanto não alcançava a editoria de Esportes, brandia contra chefes e subchefes, uns pulhas, uns imbecis, pela falta de oportunidade. Foram outros cinco longos invernos do início dos estágios no jornalismo até fixar-me na seção – no Diário Catarinense, com o editor Ewaldo Willerding.

Podia, finalmente, seguir a trajetória desportiva de Nelson. E a segui. Por um ano, era para ele que batia toda e qualquer nota do diário. Procurava enxergar o jogo com a sua óptica de ficcionista, buscando não apenas o atleta – minha obsessão era a figura humana. Quando larguei a redação e fui fazer um mestrado em Lisboa, não hesitei um só minuto no desejo de escrever uma tese sobre isso, justamente sobre o Anjo Pornográfico. Em 2010 nasceu “O triunfo do homem nas crônicas esportivas de Nelson Rodrigues”.

Há dois dias, 23 de agosto, foi seu aniversário. Se estivesse vivo, completaria 99 anos. Nelson é tão presente no meu cotidiano que às vezes conversamos, outras vezes almoçamos juntos, e até das minhas paqueras ele participa. Pode estar ausente em carne, mas a alma – ele me ensinou –, a alma, meus amigos, é imortal. Até amanhã.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

10

Ah, Mourinho... Faz tempo que não nutro um ódio tão grande por alguém no futebol como começo a nutrir por você. Juro que estou aqui me segurando – me segurando para não escorregar para o assunto futebol, me segurando para evitar que a raiva, ou seja lá o que sinto, invada este espaço.

Você podia ser o que fosse: verde, negro, amarelo; italiano, tailandês, porto-riquenho; ator, político, porteiro. Não mudaria a minha opinião. Você representa um tipo vencedor, desses extremamente competentes, com o triunfo a vigorar na sua fronte, com o peito estufado de honra – é a glória em movimento. E, por isso mesmo, nutre meu repúdio.

Enxergo vários de você por aí. E não gosto das pessoas lógicas. Retificando: não gosto das pessoas exacerbadamente lógicas. Você pode ser o sujeito mais sentimental do mundo fora do campo desportivo, mas enquanto atua no gramado – e fora dele – vê sempre e tão-somente o êxito. Atropela seja quem for, quais forem os princípios, para alcançá-lo.

Ouso dizer, no calor da minha vida recheada de insucessos materiais, que a sua grande derrocada foi a sua coleção de glórias. Um homem tem de perder para saber ganhar, tem de cair para se levantar. E você não – viveu anos e anos com o esplendor a fazer-lhe companhia, num entusiasmo que parecia infinito, intransponível, invencível. Quando tombou, e se viu falível, apelou para a sua podridão, para o lixo que preenche todo e qualquer ser humano: a inveja lhe corrompeu, a falta de humildade lhe dissuadiu.

A sua fábula é a fábula de muitos. Você, caro Mourinho, tem os olhos cravados no êxito, não importam as consequências. Ontem, numa nota de imprensa, afirmou que não sabe o que é a hipocrisia. E só aí já está a ser um convincente hipócrita. Cale-se, José. Pelo bem do futebol – um esporte que, não sei se sabe, mas não foi inventado por si –, volte a dedicar-se ao jogo, em vez de perder-se no ópio da competição. 

O mundo está cheio de Mourinhos a nos meter o dedo no olho.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

9

Confesso que minha imaginação não é lá muito fértil. Ou é, mas já me habituei a ela. Tenho o costume bobo de fantasiar um jogo, uma espécie de jogo, com seres em miniatura percorrendo estantes e prateleiras, desviando de objetos, saltando ao umbral da porta, descendo pela cortina da janela... Enfim, isto escrito faz menos – ou nenhum – sentido.

Mas mencionei essa viagem da minha mente para perguntar: por que a vida não é um musical? Sim, acho que me entenderam. A vida nas ruas, esta monotonia sem fim, deveria transfigurar-se num musical, ora essa! E que mal teria de as pessoas atravessaram a faixa de pedestre na melodia de uma valsa, ou esperar um ônibus numa coreografia mútua de swing, comprar jornal sapateando como o Fred Astaire.

Nas horas que o som invade meus tímpanos e caminho solitário na multidão, imagino todos os movimentos coletivos e ritmados. A moça bonita, o homem de terno e gravata, a criança, o velho, o cachorro. Todos dançando. Não um musical bonitinho da Disney, mas um videoclipe do Michael Jackson ou o “Twist and Shout” do Curtindo a Vida Adoidado – uma pausa aqui: um dia ousei dizer a amigos que fazem cinema que Curtindo a Vida Adoidado era a melhor película de sempre; só não fui linchado em via pública por amizade, e diria mais: por compaixão.

A vida deveria ser um musical, bolas! E é aí, só aí, que minha imaginação funciona e cria toda a cena com minúcias de detalhes. Meu musical alegre e cheio de esperanças se chamaria Até amanhã. Como na letra de Noel Rosa: “Eu sei me livrar do perigo/Num golpe de azar eu não jogo/É por isso que risonho eu te digo/Até amanhã, até já, até logo”.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

8

Eu não acredito em amor eterno. Antes disso: acho o amor eterno uma crassa e inepta mentira. Já vivi o amor eterno e ele se desgastou, se esgotou em si mesmo e terminou após seis anos. No cinema, venhamos e convenhamos, no cinema ele só dá certo porque o filme acaba, porque os créditos sobem na grande tela e os holofotes rompem a escuridão da plateia.

Uma vez cri na infinitude do amor. Uma vez não – várias. Era jovem (talvez ainda o seja) e imaginava que teria uma mulher, uma única e numerosa mulher, em toda a minha trajetória romântica. Sempre a busquei, e o pior: continuo buscando-a. No meio do caminho, apaixonei-me por quem prezava e desprezava meu sentimento, por solteiras e comprometidas, atrações reais e imaginárias.

Tenho um sem-jeito patético para tal coisa. Se tiver de cravar o início de tudo, direi que foi aos treze. Aos treze anos o homem é o sujeito mais solitário do universo. Recordo-me da colega de inglês – parecia uma bailarina de caixinha de música. Justo no primeiro dia de aula encendeu-se a paixão. Chamava-se Petra.

Petra nunca soube do meu amor mudo por ela. Sempre nutri pelos meus alvos uma rejeição tola. Quanto mais gostava, menos palavras dirigia à garota. Nem um simples olhar, nem um mero sorriso. Ignorava sua presença por uma timidez inexpugnável – hoje o meu sem-jeito continua, mas em vez do distanciamento, acerco-me com toda e qualquer volúpia, e as coisas se passam na minha mente com uma intensidade aterrorizante antes de tornarem-se palpáveis.

Entretanto, a paixão por Petra passou, ou foi substituída por uma paixão pela sua melhor amiga: Ana Luiza. Talvez tenha sido a primeira mulher que realmente amei. Ainda em silêncio, ainda num acanhamento fatídico, tendo Antes das seis, do Legião Urbana, como música de fundo (lembro que a escutava sempre ao dormir, num roteiro pobre de filme tipo B). Mais tarde, Ana soube dessa admiração. E pior: descobri que era mútua, era recíproca, era possível de se viver. E por medo de arriscar, por medo do ridículo, não me expus. Até que jurei que não perderia mais chances como essa.

Tardaram outros treze anos para finalmente conseguir acatar a promessa. E o que aprendi é que o amor eterno não existe se realizado. O amor eterno só sobrevive se não acontecer.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

7

A minha identidade culinária é emprestada. Disse emprestada? Não, é roubada mesmo. Penso nisso enquanto faço uma torrada e separo azeite e sal em vez das tradicionais manteiga e margarina. Descobri há um mês o prazer dessa junção simples com o pão. Ensinamento catalão.

É que o meu documento gastronômico foi roubado das mulheres que passaram pela minha vida. Disse roubado? Talvez tenha sido uma troca, um intercâmbio, um escambo. Entrei com conhecimentos que desconheço quais e elas agregaram ao meu histórico da cozinha aquilo que sabiam.

Para fazer o feijão, por exemplo, amasso alguns grãos no fundo da panela. O caldo fica mais grosso e consistente. Também adiciono bacon e paio – numa minifeijoada que aprendi com uma ex-sogra. Sua filha partilhou um “segredo” do molho branco: quando começar a ferver, diminuir o fogo e colocar o queijo ralado. E tantas outras coisas que já se incorporaram ao meu dia a dia de avental.

Escrevo este texto com um olho no computador e outro no fogão. É que de tudo que me ensinaram esqueceram-se de lembrar que preciso vigiar o que faço. Nesta parte sempre me dou mal. Saio, vou fazer outra coisa e a comida queima.

Uma vez, na virada de 2000 para 2001, resolvi passar sozinho na casa em Brasília. Éramos eu e uma pizza de calabresa congelada. Liguei o forno, sentei na frente do chat (naquela época ainda era o mIRC ou o ICQ) e só levantei para dispersar a fumaça da cozinha e acudir a massa já negra. O jeito foi comer aquele pedaço de carvão – algo que se repetiria muitas outras vezes na minha vida. E ainda hoje se passa. Até amanhã.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

6

Ontem escrevi sobre a minha aversão ao brasileirismo das massas – e venhamos e convenhamos: o brasileiro não sabe andar em bando; em bando nos tornamos uns animadores de torcida, uns quadrúpedes de duas pernas. Mas quero fazer uma retificação válida e a tempo: somos de uma hospitalidade plena e comovente. O brasileiro nasceu para agregar, para abraçar, para unir.

Lembro do Zoltan, um húngaro que resolveu se aventurar no país tropical – ainda que fosse o clima desértico de Brasília – quando tinha 16, 17 anos. Estávamos no segundo grau, e meu colégio já havia recebido chilenos, colombianos, alemães, americanos, australianos e canadenses: mas nunca um húngaro. Nunca um único e escasso conterrâneo de Ferenc Puskás. E agora fico mesmo na dúvida se o seu nome era Zoltan, se tinha este nome de extraterrestre.

O fato é que o rapaz chegou falando uma língua que ninguém compreendia, balbuciava palavras amistosas que pareciam insultos, mas ainda assim todos nós fizemos questão de incorporá-lo ao nosso cotidiano. Em poucos dias Zoltan já era da turma – participava da pelada do intervalo (cada vez mais rara pois o interesse pela bola transferia-se agora às meninas), dos churrascos de fim de semana, das viagens da gincana. Seu fascínio pelo Brasil, pelo brasileiro, pela cordialidade tupinambá crescia em ritmo geométrico.

Não sei que fim levou Zoltan. Se regressou à Hungria, hoje deve ser um cônsul verde-amarelo, daqueles que carregam um pin com a bandeira canarinha em seu conjunto Armani. Sei é que outro estrangeiro, amigo pessoal e intransferível, repete como um papagaio de pirata que seu futuro é na terra brasilis. O Alessandro Fumo, com este nome inconfundível de italiano, hoje vive em Lisboa – e nossa saga em comum pela capital lusa rende um bom texto –, mas não esconde que sua paixão pelo Brasil continua forte.

Ele viveu por lá alguns anos, aprendeu português na marra e pelas gírias, e esteve enamorado por todas e cada uma das brasileiras. Aliás, este é outro tema que também dará muito caldo para outras crônicas. Todas minhas amigas d’além mar me perguntam com os olhos rútilos e os lábios trêmulos: — E então, nós ou elas, nós ou elas? Querem dizer: as brasileiras ou as europeias?

Respondo com a desfaçatez de um malandro carioca: — Vocês, claro! Sempre vocês! Mas se esquecem que sou brasileiro: generoso e agregador. Até amanhã.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

5

Sou o brasileiro mais antibrasileiro que conheço. Não tenho nada contra o indivíduo, o particular, o ser: meu problema são as massas fluviais e burras. O brasileiro junto de outro brasileiro é um estúpido de babar na gravata – e só não anda de quatro porque ainda lhe resta alguma dignidade humana.

Disse brasileiro e reforço: o brasileiro do exterior é ainda mais brasileiro, mais pulha, mais desprezível. Vivo há três anos entre Portugal e Espanha, já percorri outros países europeus, estive nos Estados Unidos e conheci boa parte do Marrocos, e minha experiência tupiniquim é, digamos, uma antiexperiência. A vontade de exibir-se brasileiro em terras estrangeiras nos torna uns macacos de circo.

Antes que os idiotas se amontoem num furor épico, entenda que meu discurso não enaltece ou enriquece o sujeito do Velho Continente. Muito menos despreza as minhas raízes. O brasileiro precisa aprender a receber críticas de outro brasileiro – e criticar o brasileiro – sem sentir-se perseguido pela nova inquisição. Qualquer um já quis fugir do Brasil, já quis largar o Brasil, desejou ferozmente abandonar o tropicalismo.

Por essas e outras que fujo das multidões errantes em verde-amarelo, das orgias de brasilidade, da masturbação coletiva de ego. Só alcançaremos, de fato, o respeito e a confiança no dia em que soubermos nos comportar diante do outro, da diferença, do incomum sem a ansiedade eufórica e insensata de desfilar nossos estereótipos. Somos um povo alegre por si só – não precisamos estar sempre com um sorriso de plantão.

Enquanto legitimarmos os lugares-comuns seremos sempre e eternamente o antiBrasil, o Brasil das contradições de ordem e progresso. Até amanhã.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

4

Quando pequeno, antes de dormir, no escuro total do quarto com a luz recém-apagada, tinha medo de ter ficado cego. Procurava um sinal e quase sempre me deparava com os números encarnados do rádio-relógio. Mas era um medo fascinante, um medo de uma euforia contraditória da realização. Admito: gosto do drama; vivo a felicidade na carne, porém a melancolia absorve a minha alma.

Mais que ficar cego, meu encanto era ficar paralítico. Ouso dizer: com nove, dez anos eu quis ser paralítico, um eterno e terno paralítico. Imaginava-me afundado numa profunda e inviolável depressão, tendo meu sonho de ser jogador de futebol findado, dizimado, dilacerado na imobilidade das pernas – e o espanto, a tristeza, a falta de sentido para a vida. Imaginava tudo isso e um desejo possuía-me a espinha. Desejo de ser paralítico.

Seria visto e comentado com pena pela família e pelos amigos. E depois, pouco a pouco, retornaria ao dia a dia com um sorriso débil, buscaria forças para aprender outros esportes, colocaria minhas angústias no papel, me tornaria um modelo de superação, de volta por cima. Abandonaria de vez e para sempre a própria piedade e reivindicaria melhores acessos públicos aos cadeirantes, mais respeito e ensinaria aos ignorantes que a nossa vida é igual.

Na minha cabeça tinha tudo articulado. Uma vida exemplar, do herói marcado fisicamente e renascido da adversidade. Admito que até hoje ainda imagino essa trajetória, ainda penso que talvez acabe numa cadeira de rodas. Não posso ver alguém em muletas: homem ou menino, moça ou senhora – tenho um acesso de emoções que não são compassivas. Justo eu, que nunca quebrei um osso. Minha vontade é pegar as muletas e sair mancando por aí, enquanto todos cochicham uns aos outros: “Nossa, um rapaz tão novo... o que será que lhe aconteceu?”. Até amanhã.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

3

Foi um pensamento que me assaltou: eu não tenho a vocação de sedutor. Claro que já sei disso há muito tempo, mas constatei num arroubo fatal e libertário enquanto pensava na noite de quarta, ou melhor, em todas as noites. Vejam o André, amigo recente de Barcelona, com sua estirpe de Alfie – não o E.T. da série, mas o personagem vivido primeiro por Michael Caine e depois por Jude Law no cinema –: basta um sorriso e tem todas as mulheres aos seus pés.

Eu não. Conjugo o verbo seduzir de forma irregular, e só seduzo num terceiro, quarto, quinto momento. Mesmo assim sem sedução. Minha volúpia de Casanova é quase nula, ainda que faça parecer o contrário – e, de fato, faço crer que estou à vontade neste ofício malandro típico do brasileiro. Escolhi nascer poeta em vez de canalha. Se Deus se voltasse para mim agora e me perguntasse o que queria ser, responderia numa efusão ecumênica: — Canalha! Mil vezes canalha!

Nas ruas chega a ser patético. Atraio o olhar de mulheres mais velhas, às vezes quinze, vinte, trinta anos além da minha idade, como se reconhecessem na minha face crispada e nos fios brancos que brotam na cabeça a reencarnação do Paul Newman. Em outras palavras, sem querer, seduzo as gerações que não pertenci. Estou fora do meu tempo. (Aqui vale um parênteses: sempre cativei uma confiança assustadora das minhas sogras; mais que sogras, tornavam-se minhas admiradoras natas e hereditárias.)

Devo ter também na fronte um selo de fiabilidade. Uma vez, entre pedaços de melancias, uma recém-conhecida – e quando digo recém-conhecida quero dizer que era a primeira vez que nos víamos e levávamos cinco minutos de conversa – contou-me que seu namorado não lhe batia na cama. Ela queria sexo selvagem e ele insistia no carinho. Três ou quatro dias depois, outra conhecida revelou-me que depois que casou seu marido abdicou do sexo. Sua frase foi: “Ele não queria me comer mais...”.

A última foi agora, há poucos dias. “Olá, sou fulano”, “Oi, me chamo beltrana”, algumas cervejas entre amigos, uma ou outra conversa jogada fora e a confissão, assim do nada: “Meu namorado batia em mim, emagreci oito quilos com depressão, hoje ele tem de manter uma distância de xis metros, ainda estou me recuperando de tudo”. Oras, sou jornalista, cronista, vagabundo, e não psicólogo, padre, barman. E, venhamos e convenhamos: isto não é nada sedutor. Mesmo quem tem pouca inclinação para a coisa sabe. Até depois de depois de amanhã.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

2

A janela da minha casa dá para a rua. E vejo subir e descer nas escadas do prédio da frente umas crianças catalãs que aprendem um inglês arrastado. São três ao todo: duas meninas e um menino, numa escala de diferentes tamanhos.

Ouço “the monkey eats banana” e lembro do Rubem Braga com uma crônica formidável chamada Aula de Inglês. Também escuto “the car is fast” entre um vaivém de coches, e a pergunta final da professora ensimesma uma das alunas mirins, que hesita em responder yes ou no para “are we friends?”.

Da janela também retumbam outros idiomas europeus – talvez meus ouvidos já banalizem o árabe e o chinês. São franceses, alemães, italianos, ingleses. Às vezes me levanto da mesa de vidro, em que trabalho nestas manhãs de verão, para espreitar os seus rostos: são monotonamente iguais. Um turista tem a mesma cara em Barcelona ou em Chicago, em Budapeste ou em Lagos.

Nunca quis ser turista, e vou além: me dá asco, náusea, ânsia esse triste ofício. Trabalhar nove, dez, onze meses pelos trinta dias obrigatórios de felicidade faz quase tanto sentido para mim quanto nascer, viver e morrer na mesma cidade. As experiências que se avolumam diante de nós nesta única e escassa encarnação não merecem desprezo, devem ser dignas de nossa curiosidade – ao menos isso: de curiosidade.

Eu quero saber. Eu gosto de ver. Preciso perdurar numa cidade para entendê-la. Ontem mudei o meu caminho do trabalho para casa, cujo trajeto a pé toma uma hora do meu dia. Escrevi “toma”? Desculpem. Pois queria dizer presenteia-me. E só o que fiz foi mudar de calçada. Tudo pareceu novo, primeiro, distinto. Não há mudança mais simples e transcendental que atravessar uma rua. Por isso, tantas anedotas com o tema.

Lá, do outro lado, também descobrimos que os macacos comem bananas e os carros andam rápido. Também comprovamos que somos amigos, que temos amigos – aqueles permanentes e os falsos turistas, temporários. See you tomorrow.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

1

Meus amigos, resolvi reinaugurar o blogue. Podem me chamar de instável, de fraco, até de imbecil. Mas além de tudo, acima de qualquer coisa, sou impulsivo. Fechei e abri este espaço três ou quatro vezes. Esta é a quarta ou a quinta? Ora, ninguém está contando. E pouco importa. Diria mais: em nada importa quantas vezes perdi a vontade de escrever aqui, isto é coisa minha, só minha, toda minha.

Agradarei a uma amiga com o retorno, uma escassa e numerosa amiga: Sandryne Barreto. É que Sandryne é a única que até hoje se posicionou a favor das minhas crônicas e não dos meus contos. Não que ela abomine a ficção, apenas prefere os relatos cotidianos e despretensiosos. Minha cara admiradora literária – e quase disse minha única admiradora literária –, tentarei ser fiel à regularidade desta vez.

O fato é que a escrita me volta com a sombra de um aspirante a homem centenário: Nelson Rodrigues. Tenho A Menina Sem Estrela em mãos e ouso afirmar que é o melhor livro que já li. Mas a confissão da impulsividade na segunda linha esvazia completamente a carga racional dessa efusão emocional. A Menina... é Nelson em seu estado puro. Ainda melhor: é o ser humano em seu estado puro. É o tipo de escrita, sem barreiras sociais ou medos próprios, que almejo atingir.

Esta semana conversava com uma amiga distante, a jovem e fascinante Natália Calderón, justamente sobre ser aquilo que a gente no fundo sabe que é. Nelson foi capaz de se aproximar dele mesmo, pelo menos na literatura, na dramaturgia, na crônica, no conto. Em cada fragmento de seu texto, em toda palavra que elegia, há o autor obsessivo, o Anjo Pornográfico, o gênio e o pulha.

E agora, vejam só, tento imitá-lo em estilo acreditando que encontrarei a minha liberdade, a face oculta de mim mesmo. Nelson foi só um; ululante, mas um, e não mais. Valeu por tantos. Cunhei uma frase rodriguiana pensando no amor frustrado, mas que caberá aqui: “O fatalismo não é buscar a pessoa certa, e sim buscar certa pessoa em todas e qualquer uma”. Inclusive dentro de nós. Até amanhã.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Barbárie (Parte 3)

Pois, pela carta e pelas histórias que me contas tenho certeza que é ele mesmo, falamos do mesmo homem baixinho com a barba farta. Conheci-o numa viagem ao Marrocos. Exatamente. Ainda vive na loja em Aït Ben-Haddou? Sim, lembro de uma carta em meados de março de... dois mil e nove?, acho que sim, mas depois não recebi mais nada. O que aconteceu? Também não sabes? De fato, era um homem muito inteligente. Tinha muitas anedotas e piadas ótimas. Do elefante na geladeira? Não me lembro... Ah sim, é verdade! Muito boa.

A idéia surgiu após quase duas horas conversando. Claro, conversando e bebendo o chá de menta, ou o uísque berbere como as pessoas chamam. Propus-lhe escrever um livro sobre sua vida e seus costumes, sonhos, ambições. Pareceu-lhe interessante e permitiu-me. Nada... Ele não ganhou um dinar com as vendas. Nem mesmo o direito de publicação ou algo assim. Às vezes enviava-lhe roupas e presentes como cortesia, mas ele não gostava. Eu nunca soube se por orgulho ou se não precisava deles.

Há alguns meses perdemos contato. Todos os envios de cartas e encomendas voltaram. Também não tens idéia do seu paradeiro? O editor sugeriu uma segunda edição, com a vida que mudou de Abdel. Achas que mudou alguma coisa? Não sei se é uma boa idéia. Quem é esse homem, Miguel Torres? Ah, não o conheces também. Seu nome está na assinatura da carta? Talvez sim, talvez ele saiba alguma coisa... É verdade que soa um pouco estranho, mas aquele marroquino era um tipo raríssimo.

No entanto, tenho uma dúvida: como conseguiste meu contato? Ok, ok. E por que esse interesse na vida do homem? Certo. Entendo o que queres dizer. Eu também fiquei fascinado com sua inteligência e como leva a vida. Não, não me atrapalhas em nada. Podes contar comigo para tudo o que quiseres. Aprendi muito com Abdel, e o principal foi remover-me do medo desnecessário de tudo: das pessoas, do passado, do futuro.

Ou nós acreditamos na natureza boa ou viveremos para sempre em nossa própria barbárie interna.