quarta-feira, 24 de agosto de 2011

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Ah, Mourinho... Faz tempo que não nutro um ódio tão grande por alguém no futebol como começo a nutrir por você. Juro que estou aqui me segurando – me segurando para não escorregar para o assunto futebol, me segurando para evitar que a raiva, ou seja lá o que sinto, invada este espaço.

Você podia ser o que fosse: verde, negro, amarelo; italiano, tailandês, porto-riquenho; ator, político, porteiro. Não mudaria a minha opinião. Você representa um tipo vencedor, desses extremamente competentes, com o triunfo a vigorar na sua fronte, com o peito estufado de honra – é a glória em movimento. E, por isso mesmo, nutre meu repúdio.

Enxergo vários de você por aí. E não gosto das pessoas lógicas. Retificando: não gosto das pessoas exacerbadamente lógicas. Você pode ser o sujeito mais sentimental do mundo fora do campo desportivo, mas enquanto atua no gramado – e fora dele – vê sempre e tão-somente o êxito. Atropela seja quem for, quais forem os princípios, para alcançá-lo.

Ouso dizer, no calor da minha vida recheada de insucessos materiais, que a sua grande derrocada foi a sua coleção de glórias. Um homem tem de perder para saber ganhar, tem de cair para se levantar. E você não – viveu anos e anos com o esplendor a fazer-lhe companhia, num entusiasmo que parecia infinito, intransponível, invencível. Quando tombou, e se viu falível, apelou para a sua podridão, para o lixo que preenche todo e qualquer ser humano: a inveja lhe corrompeu, a falta de humildade lhe dissuadiu.

A sua fábula é a fábula de muitos. Você, caro Mourinho, tem os olhos cravados no êxito, não importam as consequências. Ontem, numa nota de imprensa, afirmou que não sabe o que é a hipocrisia. E só aí já está a ser um convincente hipócrita. Cale-se, José. Pelo bem do futebol – um esporte que, não sei se sabe, mas não foi inventado por si –, volte a dedicar-se ao jogo, em vez de perder-se no ópio da competição. 

O mundo está cheio de Mourinhos a nos meter o dedo no olho.

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