quinta-feira, 25 de agosto de 2011

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O que mais me fascina, diante de tantas perdas ao longo de nossa vida, é a sutileza das coisas. A sutileza do destino. Não quero dizer, com destino, que exista uma divindade ou um caminho marcado. Longe disso. Pensando assim menosprezamos o sentido mais natural e básico da nossa essência: o incógnito.

Não sabia que aquele livro de capa dura mudaria minha vida aos 12 anos. Acho que era essa a minha idade. Um dos autores era Nelson Rodrigues. O outro, Mario Filho – que até então desconhecia ser seu irmão. Aquelas crônicas apaixonadas, ficcionais, metafísicas, metafóricas, deslumbrantes sobre futebol acordaram-me para uma paixão hibernada: a escrita.

Creio que nascemos com várias aptidões. Melhor: nascemos com múltiplas e desconhecidas predisposições para triunfar em algumas áreas – ou, simplesmente, atrair-se por elas. Até os 12 não fazia ideia que alguém pudesse escrever sobre o esporte mais popular do planeta como se estivesse num teatro grego. Para Nelson, qualquer pelada de rua tinha uma complexidade shakespeariana – e, garoto, bebia aquelas palavras como se fossem a minha salvação.

Naquela altura, tinha um único e escasso objetivo: ser jogador de futebol. Quando, meia década depois, tive de colocar a pedra fundamental no sonho de infância e escolher a faculdade que faria, foi nos irmãos Rodrigues que me inspirei. Enquanto não alcançava a editoria de Esportes, brandia contra chefes e subchefes, uns pulhas, uns imbecis, pela falta de oportunidade. Foram outros cinco longos invernos do início dos estágios no jornalismo até fixar-me na seção – no Diário Catarinense, com o editor Ewaldo Willerding.

Podia, finalmente, seguir a trajetória desportiva de Nelson. E a segui. Por um ano, era para ele que batia toda e qualquer nota do diário. Procurava enxergar o jogo com a sua óptica de ficcionista, buscando não apenas o atleta – minha obsessão era a figura humana. Quando larguei a redação e fui fazer um mestrado em Lisboa, não hesitei um só minuto no desejo de escrever uma tese sobre isso, justamente sobre o Anjo Pornográfico. Em 2010 nasceu “O triunfo do homem nas crônicas esportivas de Nelson Rodrigues”.

Há dois dias, 23 de agosto, foi seu aniversário. Se estivesse vivo, completaria 99 anos. Nelson é tão presente no meu cotidiano que às vezes conversamos, outras vezes almoçamos juntos, e até das minhas paqueras ele participa. Pode estar ausente em carne, mas a alma – ele me ensinou –, a alma, meus amigos, é imortal. Até amanhã.

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