sexta-feira, 26 de agosto de 2011

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“O mar, antes de ser paisagem, foi cheiro.” Leio isso com uma efusão juvenil e vejo em mim uma similaridade ultrajante. Antes do olhar, do toque, do sabor, do ouvido, sou cheiro. Sou e sempre serei cheiro. E que engraçado – agora penso: o olfato, justo o olfato, é meu pior sentido.

Não sou dos melhores farejadores. Basta contar que tenho rinite e desvio de septo. Mas o bom aroma seduz mais que a beleza em si, o odor induz a vivências esquecidas, olvidadas, engavetadas na memória e conta mais histórias que mil e uma Sherazades. Acho uma pena o cinema não ter cheiro, a música não ter cheiro, a foto não ter cheiro.

A literatura, sim, tem cheiro – e contestarão alguns que as imagens também o tem. No entanto, um perfume anterior ao conto, ao romance, à trama. O cheiro do papel vai variar pouco, ou quase nada, dependendo do livro. Depois da quinta obra, da décima edição lida na vida, tudo emana o mesmo aroma. (E se lembramos do primeiro livro não será pelo seu cheiro, se não pelo seu conteúdo.)

Ainda tenho impregnados em mim os perfumes das mulheres que me marcaram. Às vezes, caminhando na rua, sinto, simplesmente sinto com o vento que traz, o fulgor do aroma de uma. Tem vezes que desperto com o travesseiro exalando a doçura de outra, ainda que o travesseiro nunca tenha conhecido seu cheiro. Farejo as presenças individuais e abundantes no ar, nostálgico, com a vontade de possuir novamente aquelas fragrâncias femininas, fragrâncias que são espectros diurnos e noturnos.

Começamos pelo mar e terminaremos por ele. Antes de ser paisagem, para mim também é cheiro. Já não posso viver afastado da praia – da areia, da água fria, das ondas, da espuma, das gaivotas, dos barcos. E sabiam que nunca, mesmo vivendo há seis anos no litoral, nunca transei diante do mar. Penso que tenha sido falta de oportunidade. Ou melhor, acho que é receio de juntar vários perfumes máximos do amor – pois quando acontecer... Afinal, o sexo  também tem um cheiro próprio, assim como o instante que antecede o beijo.

Mas vamos parar por aqui. Isto está me cheirando não ter fim.

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