segunda-feira, 29 de agosto de 2011

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Mas voltemos ao tema relacional. Sandryne Barreto, única e numerosa sobrevivente da época de D’além Mar, me escreve a dizer que sou imbatível nas minhas crônicas de amor. O que Sandryne não sabe é o perigo que expõe a todo e qualquer visitante deste blog – um escritor, ainda que seja um pseudoescritor como eu, tem no elogio o afrodisíaco fundamental para sua obsessão.

O cronista, o contista ou o poeta, principiante ou sênior, renomado ou anônimo, é guiado e desviado pelo ego. Seu ego é um pequeno Cristiano Ronaldo dentro de si. Cada um que escreve carrega um orgulho uníssono e ecoante do que escreve – e ainda que abaixe as orelhas e vire a barriga numa falsa humildade, não passa de um cão esperto pedindo carinho, aceitação e reconhecimento.

O que queria dizer mesmo é que depois da Petra e da Ana Luiza tive inúmeras e escassas paixões. Lembro-me da Marianne – parecia uma boneca de porcelana: tinha duas bolas rosas nas bochechas e olhos amavelmente dóceis. Contavam-se muitas histórias de suas, digamos, safadezas na escola. Aquilo fascinava os garotos da minha idade. Não a mim. Preferia continuar vendo-a como uma santa – e este sempre foi o meu pecado mortal com as mulheres: procurar nelas as faces mais brandas e gentis.

O feitiço de Marianne se quebrou após nosso primeiro beijo. Ela não sabia beijar. Seu beijo era afoito e apressado. Era um beijo enfermo, respirando com ajuda de aparelhos, sem beijo. Depois dela, vieram outras bocas que simplesmente não se encaixaram com a minha. Meu beijo inaugural, aos quinze anos, já havia sido um desastre – e começava a pensar se haveria no mundo mulher que soubesse beijar, se os beijos de cinema existiam deste lado da tela.

Até que conheci a Rayane. Eram os tempos do disquete.

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