terça-feira, 30 de agosto de 2011

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Meu primeiro amor real e concretizado media 1m59cm e tinha 15 anos. Eu também era um garoto saindo da puberdade. Ficamos juntos por pouco mais de meia década. Entrei menino na relação e saí homem. Tudo que vivemos juntos ficou marcado para sempre – e sempre ficará.

Às vezes penso, num sentido geral e amplo da coisa, onde será que um relacionamento finda, termina, dissolve-se? Não sei. Realmente não sei. Serão as traições tentativas de resgatar o enlace? Nelson diz: “Trair um amor é uma impossibilidade. Mesmo com outra mulher é o ser amado que estamos possuindo”. E talvez possuímos alguém fora porque o amor tende a matar o desejo; o amor caça e abate o desejo numa terça-feira durante o jantar, no intervalo do Jornal Nacional, antes de começar a novela.

Meu amor pela Rayane não havia morrido quando meu chão tremeu por outra. O desejo, o encantamento, é que sim. E não fiz nada, absolutamente nada que pudesse magoá-la e arrepender-me. Ao menor sinal de uma paixão para além do namoro, olhei para dentro: e descobri um abismo. O paradoxo é das sensações mais estranhas que há. Sentia-me firme, convicto, certo da opção. Ao mesmo tempo, as dúvidas, a insegurança e o medo invadiam-me repentinamente.

Tinha 23. E ela estava sentada no outro canto da redação. Já não conseguia concentrar-me no texto. O trabalho acumulava. Tinha de entregar a matéria – nesta época estava muito infeliz e arrastava-me na editoria de Cidades sem nenhuma vontade de lá estar, enquanto pela manhã fingia divertir-me na manufaturação de um caderno para jovens.

“Mulher. Mulher e pombos. Mulher entre sonhos. Nuvens nos seus olhos? Nuvens sobre seus cabelos. (A visita espera na sala; a notícia, no telefone; a morte cresce na hora; a primavera além da janela). Mulher sentada. Tranqüila na sala, como se voasse.” Cibele. Chamava-se Cibele.

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