quinta-feira, 11 de agosto de 2011

2

A janela da minha casa dá para a rua. E vejo subir e descer nas escadas do prédio da frente umas crianças catalãs que aprendem um inglês arrastado. São três ao todo: duas meninas e um menino, numa escala de diferentes tamanhos.

Ouço “the monkey eats banana” e lembro do Rubem Braga com uma crônica formidável chamada Aula de Inglês. Também escuto “the car is fast” entre um vaivém de coches, e a pergunta final da professora ensimesma uma das alunas mirins, que hesita em responder yes ou no para “are we friends?”.

Da janela também retumbam outros idiomas europeus – talvez meus ouvidos já banalizem o árabe e o chinês. São franceses, alemães, italianos, ingleses. Às vezes me levanto da mesa de vidro, em que trabalho nestas manhãs de verão, para espreitar os seus rostos: são monotonamente iguais. Um turista tem a mesma cara em Barcelona ou em Chicago, em Budapeste ou em Lagos.

Nunca quis ser turista, e vou além: me dá asco, náusea, ânsia esse triste ofício. Trabalhar nove, dez, onze meses pelos trinta dias obrigatórios de felicidade faz quase tanto sentido para mim quanto nascer, viver e morrer na mesma cidade. As experiências que se avolumam diante de nós nesta única e escassa encarnação não merecem desprezo, devem ser dignas de nossa curiosidade – ao menos isso: de curiosidade.

Eu quero saber. Eu gosto de ver. Preciso perdurar numa cidade para entendê-la. Ontem mudei o meu caminho do trabalho para casa, cujo trajeto a pé toma uma hora do meu dia. Escrevi “toma”? Desculpem. Pois queria dizer presenteia-me. E só o que fiz foi mudar de calçada. Tudo pareceu novo, primeiro, distinto. Não há mudança mais simples e transcendental que atravessar uma rua. Por isso, tantas anedotas com o tema.

Lá, do outro lado, também descobrimos que os macacos comem bananas e os carros andam rápido. Também comprovamos que somos amigos, que temos amigos – aqueles permanentes e os falsos turistas, temporários. See you tomorrow.

Um comentário:

Sandryne Barreto disse...

Você é impulsivo, você é inquieto, você é delicado, você é instável. Não sei até quando tudo isso vai durar, mas a sensação que eu tenho é que a idade, a maturidade e outras maiores responsabilidades que a vida vai nos colocando com o passar do tempo não mudarão você. Mas não se engane: há muitas formas de ser feliz. Inclusive nascendo, vivendo e morrendo na mesma cidade e trabalhando o ano inteiro pra viajar em apenas um. Até porque a felicidade não está nesse um mês. Afinal, basta atravessar a calçada, não? Não existe regra pra nada. A vida é um conjunto de exceções. See you tomorrow too.