sexta-feira, 12 de agosto de 2011

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Foi um pensamento que me assaltou: eu não tenho a vocação de sedutor. Claro que já sei disso há muito tempo, mas constatei num arroubo fatal e libertário enquanto pensava na noite de quarta, ou melhor, em todas as noites. Vejam o André, amigo recente de Barcelona, com sua estirpe de Alfie – não o E.T. da série, mas o personagem vivido primeiro por Michael Caine e depois por Jude Law no cinema –: basta um sorriso e tem todas as mulheres aos seus pés.

Eu não. Conjugo o verbo seduzir de forma irregular, e só seduzo num terceiro, quarto, quinto momento. Mesmo assim sem sedução. Minha volúpia de Casanova é quase nula, ainda que faça parecer o contrário – e, de fato, faço crer que estou à vontade neste ofício malandro típico do brasileiro. Escolhi nascer poeta em vez de canalha. Se Deus se voltasse para mim agora e me perguntasse o que queria ser, responderia numa efusão ecumênica: — Canalha! Mil vezes canalha!

Nas ruas chega a ser patético. Atraio o olhar de mulheres mais velhas, às vezes quinze, vinte, trinta anos além da minha idade, como se reconhecessem na minha face crispada e nos fios brancos que brotam na cabeça a reencarnação do Paul Newman. Em outras palavras, sem querer, seduzo as gerações que não pertenci. Estou fora do meu tempo. (Aqui vale um parênteses: sempre cativei uma confiança assustadora das minhas sogras; mais que sogras, tornavam-se minhas admiradoras natas e hereditárias.)

Devo ter também na fronte um selo de fiabilidade. Uma vez, entre pedaços de melancias, uma recém-conhecida – e quando digo recém-conhecida quero dizer que era a primeira vez que nos víamos e levávamos cinco minutos de conversa – contou-me que seu namorado não lhe batia na cama. Ela queria sexo selvagem e ele insistia no carinho. Três ou quatro dias depois, outra conhecida revelou-me que depois que casou seu marido abdicou do sexo. Sua frase foi: “Ele não queria me comer mais...”.

A última foi agora, há poucos dias. “Olá, sou fulano”, “Oi, me chamo beltrana”, algumas cervejas entre amigos, uma ou outra conversa jogada fora e a confissão, assim do nada: “Meu namorado batia em mim, emagreci oito quilos com depressão, hoje ele tem de manter uma distância de xis metros, ainda estou me recuperando de tudo”. Oras, sou jornalista, cronista, vagabundo, e não psicólogo, padre, barman. E, venhamos e convenhamos: isto não é nada sedutor. Mesmo quem tem pouca inclinação para a coisa sabe. Até depois de depois de amanhã.

Um comentário:

Sandryne Barreto disse...

Aiiiii, que alegria essas crônicas que me fazem rir e/ou refletir. Gu, eu acho de verdade que quando você escreve coisas desse gênero, sobre você, é porque queres receber elogios. Só pode. Porque você é lindo, gente boa demais e dizer que não é sedutor. Estou com Soraya, Sofia e Jujuca: você é que complica demais. A mulher perfeita. Oh céus, cadê ela? rsrsrsrsr. Agora esse tua vocação pra roubadas, pra ouvir essas coisas, só Freud explica. Daria um livro só de roubada que podia ser: "meu ouvido não é pinico, não me deixe constrangido". Então até depois de amanhã ;)