segunda-feira, 15 de agosto de 2011

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Quando pequeno, antes de dormir, no escuro total do quarto com a luz recém-apagada, tinha medo de ter ficado cego. Procurava um sinal e quase sempre me deparava com os números encarnados do rádio-relógio. Mas era um medo fascinante, um medo de uma euforia contraditória da realização. Admito: gosto do drama; vivo a felicidade na carne, porém a melancolia absorve a minha alma.

Mais que ficar cego, meu encanto era ficar paralítico. Ouso dizer: com nove, dez anos eu quis ser paralítico, um eterno e terno paralítico. Imaginava-me afundado numa profunda e inviolável depressão, tendo meu sonho de ser jogador de futebol findado, dizimado, dilacerado na imobilidade das pernas – e o espanto, a tristeza, a falta de sentido para a vida. Imaginava tudo isso e um desejo possuía-me a espinha. Desejo de ser paralítico.

Seria visto e comentado com pena pela família e pelos amigos. E depois, pouco a pouco, retornaria ao dia a dia com um sorriso débil, buscaria forças para aprender outros esportes, colocaria minhas angústias no papel, me tornaria um modelo de superação, de volta por cima. Abandonaria de vez e para sempre a própria piedade e reivindicaria melhores acessos públicos aos cadeirantes, mais respeito e ensinaria aos ignorantes que a nossa vida é igual.

Na minha cabeça tinha tudo articulado. Uma vida exemplar, do herói marcado fisicamente e renascido da adversidade. Admito que até hoje ainda imagino essa trajetória, ainda penso que talvez acabe numa cadeira de rodas. Não posso ver alguém em muletas: homem ou menino, moça ou senhora – tenho um acesso de emoções que não são compassivas. Justo eu, que nunca quebrei um osso. Minha vontade é pegar as muletas e sair mancando por aí, enquanto todos cochicham uns aos outros: “Nossa, um rapaz tão novo... o que será que lhe aconteceu?”. Até amanhã.