quarta-feira, 17 de agosto de 2011

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Ontem escrevi sobre a minha aversão ao brasileirismo das massas – e venhamos e convenhamos: o brasileiro não sabe andar em bando; em bando nos tornamos uns animadores de torcida, uns quadrúpedes de duas pernas. Mas quero fazer uma retificação válida e a tempo: somos de uma hospitalidade plena e comovente. O brasileiro nasceu para agregar, para abraçar, para unir.

Lembro do Zoltan, um húngaro que resolveu se aventurar no país tropical – ainda que fosse o clima desértico de Brasília – quando tinha 16, 17 anos. Estávamos no segundo grau, e meu colégio já havia recebido chilenos, colombianos, alemães, americanos, australianos e canadenses: mas nunca um húngaro. Nunca um único e escasso conterrâneo de Ferenc Puskás. E agora fico mesmo na dúvida se o seu nome era Zoltan, se tinha este nome de extraterrestre.

O fato é que o rapaz chegou falando uma língua que ninguém compreendia, balbuciava palavras amistosas que pareciam insultos, mas ainda assim todos nós fizemos questão de incorporá-lo ao nosso cotidiano. Em poucos dias Zoltan já era da turma – participava da pelada do intervalo (cada vez mais rara pois o interesse pela bola transferia-se agora às meninas), dos churrascos de fim de semana, das viagens da gincana. Seu fascínio pelo Brasil, pelo brasileiro, pela cordialidade tupinambá crescia em ritmo geométrico.

Não sei que fim levou Zoltan. Se regressou à Hungria, hoje deve ser um cônsul verde-amarelo, daqueles que carregam um pin com a bandeira canarinha em seu conjunto Armani. Sei é que outro estrangeiro, amigo pessoal e intransferível, repete como um papagaio de pirata que seu futuro é na terra brasilis. O Alessandro Fumo, com este nome inconfundível de italiano, hoje vive em Lisboa – e nossa saga em comum pela capital lusa rende um bom texto –, mas não esconde que sua paixão pelo Brasil continua forte.

Ele viveu por lá alguns anos, aprendeu português na marra e pelas gírias, e esteve enamorado por todas e cada uma das brasileiras. Aliás, este é outro tema que também dará muito caldo para outras crônicas. Todas minhas amigas d’além mar me perguntam com os olhos rútilos e os lábios trêmulos: — E então, nós ou elas, nós ou elas? Querem dizer: as brasileiras ou as europeias?

Respondo com a desfaçatez de um malandro carioca: — Vocês, claro! Sempre vocês! Mas se esquecem que sou brasileiro: generoso e agregador. Até amanhã.

Um comentário:

Sandryne Barreto disse...

Sempre com uma resposta boa e rápida na ponta da língua,né? rsrsrs