quinta-feira, 18 de agosto de 2011

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A minha identidade culinária é emprestada. Disse emprestada? Não, é roubada mesmo. Penso nisso enquanto faço uma torrada e separo azeite e sal em vez das tradicionais manteiga e margarina. Descobri há um mês o prazer dessa junção simples com o pão. Ensinamento catalão.

É que o meu documento gastronômico foi roubado das mulheres que passaram pela minha vida. Disse roubado? Talvez tenha sido uma troca, um intercâmbio, um escambo. Entrei com conhecimentos que desconheço quais e elas agregaram ao meu histórico da cozinha aquilo que sabiam.

Para fazer o feijão, por exemplo, amasso alguns grãos no fundo da panela. O caldo fica mais grosso e consistente. Também adiciono bacon e paio – numa minifeijoada que aprendi com uma ex-sogra. Sua filha partilhou um “segredo” do molho branco: quando começar a ferver, diminuir o fogo e colocar o queijo ralado. E tantas outras coisas que já se incorporaram ao meu dia a dia de avental.

Escrevo este texto com um olho no computador e outro no fogão. É que de tudo que me ensinaram esqueceram-se de lembrar que preciso vigiar o que faço. Nesta parte sempre me dou mal. Saio, vou fazer outra coisa e a comida queima.

Uma vez, na virada de 2000 para 2001, resolvi passar sozinho na casa em Brasília. Éramos eu e uma pizza de calabresa congelada. Liguei o forno, sentei na frente do chat (naquela época ainda era o mIRC ou o ICQ) e só levantei para dispersar a fumaça da cozinha e acudir a massa já negra. O jeito foi comer aquele pedaço de carvão – algo que se repetiria muitas outras vezes na minha vida. E ainda hoje se passa. Até amanhã.

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