terça-feira, 23 de agosto de 2011

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Confesso que minha imaginação não é lá muito fértil. Ou é, mas já me habituei a ela. Tenho o costume bobo de fantasiar um jogo, uma espécie de jogo, com seres em miniatura percorrendo estantes e prateleiras, desviando de objetos, saltando ao umbral da porta, descendo pela cortina da janela... Enfim, isto escrito faz menos – ou nenhum – sentido.

Mas mencionei essa viagem da minha mente para perguntar: por que a vida não é um musical? Sim, acho que me entenderam. A vida nas ruas, esta monotonia sem fim, deveria transfigurar-se num musical, ora essa! E que mal teria de as pessoas atravessaram a faixa de pedestre na melodia de uma valsa, ou esperar um ônibus numa coreografia mútua de swing, comprar jornal sapateando como o Fred Astaire.

Nas horas que o som invade meus tímpanos e caminho solitário na multidão, imagino todos os movimentos coletivos e ritmados. A moça bonita, o homem de terno e gravata, a criança, o velho, o cachorro. Todos dançando. Não um musical bonitinho da Disney, mas um videoclipe do Michael Jackson ou o “Twist and Shout” do Curtindo a Vida Adoidado – uma pausa aqui: um dia ousei dizer a amigos que fazem cinema que Curtindo a Vida Adoidado era a melhor película de sempre; só não fui linchado em via pública por amizade, e diria mais: por compaixão.

A vida deveria ser um musical, bolas! E é aí, só aí, que minha imaginação funciona e cria toda a cena com minúcias de detalhes. Meu musical alegre e cheio de esperanças se chamaria Até amanhã. Como na letra de Noel Rosa: “Eu sei me livrar do perigo/Num golpe de azar eu não jogo/É por isso que risonho eu te digo/Até amanhã, até já, até logo”.

Um comentário:

Sam disse...

A vida vira um musical para mim todos os dias com meus fones a caminho do trabalho ou da faculdade todos os dias, no metrô ou nas ruas.
Faço passos e reinvento video clipes de acordo com meu cenário. Tudo isso em minha mente, ou já teria sido internada por insanidade