sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Barbárie (Parte 3)

Pois, pela carta e pelas histórias que me contas tenho certeza que é ele mesmo, falamos do mesmo homem baixinho com a barba farta. Conheci-o numa viagem ao Marrocos. Exatamente. Ainda vive na loja em Aït Ben-Haddou? Sim, lembro de uma carta em meados de março de... dois mil e nove?, acho que sim, mas depois não recebi mais nada. O que aconteceu? Também não sabes? De fato, era um homem muito inteligente. Tinha muitas anedotas e piadas ótimas. Do elefante na geladeira? Não me lembro... Ah sim, é verdade! Muito boa.

A idéia surgiu após quase duas horas conversando. Claro, conversando e bebendo o chá de menta, ou o uísque berbere como as pessoas chamam. Propus-lhe escrever um livro sobre sua vida e seus costumes, sonhos, ambições. Pareceu-lhe interessante e permitiu-me. Nada... Ele não ganhou um dinar com as vendas. Nem mesmo o direito de publicação ou algo assim. Às vezes enviava-lhe roupas e presentes como cortesia, mas ele não gostava. Eu nunca soube se por orgulho ou se não precisava deles.

Há alguns meses perdemos contato. Todos os envios de cartas e encomendas voltaram. Também não tens idéia do seu paradeiro? O editor sugeriu uma segunda edição, com a vida que mudou de Abdel. Achas que mudou alguma coisa? Não sei se é uma boa idéia. Quem é esse homem, Miguel Torres? Ah, não o conheces também. Seu nome está na assinatura da carta? Talvez sim, talvez ele saiba alguma coisa... É verdade que soa um pouco estranho, mas aquele marroquino era um tipo raríssimo.

No entanto, tenho uma dúvida: como conseguiste meu contato? Ok, ok. E por que esse interesse na vida do homem? Certo. Entendo o que queres dizer. Eu também fiquei fascinado com sua inteligência e como leva a vida. Não, não me atrapalhas em nada. Podes contar comigo para tudo o que quiseres. Aprendi muito com Abdel, e o principal foi remover-me do medo desnecessário de tudo: das pessoas, do passado, do futuro.

Ou nós acreditamos na natureza boa ou viveremos para sempre em nossa própria barbárie interna.

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